quinta-feira, 7 de maio de 2009

Arre! Porra! Chega! Basta!

Centrão?
Mais Não

Parem!
Chega!
Basta!
Calem-se!
Estou enjoado!
Perdi a paciência!
Começo a ficar irritado!
 
Não têm mais nada com que se preocupar?!
 
Só vos oiço falar de vós mesmos.
É o financiamento dos partidos,
é o "Centrão",
é o tabu do Alegre,
são as viagens do Alberto João Jardim,
são os calcanhares do Basílio e a Maizena do Rangel,
são os debates no Parlamento à volta dos umbigos dos deputados,
se Ferreira Leite é capaz,
se Sócrates conseguirá ou não a maioria,
se Louça terá mais votos do que Jerónimo,
se Portas irá sobreviver depois das legislativas.
qual a relação entre Sócrates e Cavaco,
quem deve pedir desculpas a quem:
se o PS a Alegre ou Alegre ao PS.
 
Porra!
E nós?
 
E a crise que nos afunda?
E a pobreza que se descobre?
E o desemprego que não pára?
E a Justiça que é uma desgraça?
E a violência que aumenta nas ruas?
E os nossos jovens que nos abandonam?
 
Estou a ficar constipado com esta Gripe P, a dos políticos.
Arre!


quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Coimbra

Minha cidade eterna e resumida,
como um sonho embrulhado
em névoa branca… e adormecida.
por outro sonho que a saudade quis
é que eu não sei agora
o que este engano diz.

a mão do “Só” me trouxe rio acima,
para beijar teu corpo imerso em sono…
e pura, debruçada sobre ti,
o mais que eu vi,
foi sempre este abandono…

e ainda é a mesma torre, sim…
e o casario.
e o jardim.
e a ternura infinda
da mesma capa ainda
ao vento solta!...

és tu, eterna em ti.
antero é que não volta.

agora,
na pedra nua deste longo dia
já ninguém chora…
e a dor que endoideceu,
é só quem anda pela noite fria,
à procura do sonho que morreu…


Moçâmedes e o Mar

Entre as águas azuis do mar uivante
e a areia fulva do desero agreste
- como presa nos braços de um gigante-
foi, Princesa, que tu aqui nasceste!

Nasceste em terra dura e ressequida
E tens mesmo a welwitschia por irmã,
e, à força de viveres esta vida.
conquistaste a coragem de um titã!

Venceste as bravas ondas turbulentas,
enfrentaste as garrôas do Deserto,
e, após tremendas lutas bem cruentas,
mudaste a rota a um destino incerto!

Tornaste natural o que era estranho
ao dominar os fortes elementos:
nas areias fizeste o seu amanho
e ao Mar foste colher os alimentos:

Consumidos cem anos em batalhas,
és tão pobre como eras no começo,
mas, rica em fidalguia, tu trabalhas
p`r atingir as estradas do Progresso!

Agora, à custa desse teu Namibe
e da formosa Praia das Miragens
como quem ao olhar do Mundo exibe
belezas naturais, raras imagens -

Tu voltaste de novo a triunfar!
fazendo de ambos um cartaz berrante,
passaste a festejar o velho Mar,
companheiro do povo navegante.


terça-feira, 5 de maio de 2009

Não há tabaco!

(Referência alegre à cruciante tragédia tabaqueira ocorrida há dias)

As armas e os barões assinalados
que os tempos vão maus, muito envinagrados!
Não há tabaco e estamos desgraçadoa!
A seca foi atroz e foi completa
de deixar um parceiro mui pateta!

Desta vez não houve contemplações:
não fumaram pobres, ricos e ladrões!

Conheço fumadores consagrados
que agora apenas ... chucham rebuçados!
Conheço até uma Domingas ,
que é munha lavadeira e confidente.
Sei que adora o tabaco e as boas pingas.

E, como continua sorridente,
indaguei da maneira que ela usava
pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara
disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha
fui comprar umas doses de cangonha!...

A situação tristonha e angustiosa
veio pôr a cidade em polvorosa.
Os cigarros de filtro e os tais sem ponta
são luxo com que a gente já não conta:

Não há Deltas, Marinas, Francesinhos
e até Negritos já não têm os barzinhos!
Fumar é vício lindo que morreu
e, p´ra vida ser feita de veludo,
vamos fumar p´la ponta de um canudo,
recordando a beata que já ardeu!

E como um bom charuto custa caro,
Não fumes disso, ó meu judeu avaro!


CARTA A RUY ALVIM

via nonas de nonas em 05/05/09
CARTA A RUY ALVIM

Conheci-te na nossa mocidade:
Rapazes do liceu
A estudar e a gozar numa antiga cidade.
O mais novo eras tu.
O mais velho era eu.

Naquele tempo havia Portugal.
Falava-se de Império.
(Quem lhe soubera, então, o trágico final!)
E governava um Homem sábio e sério.

À jovem convivência a vida separou-a:
Tu foste pra Coimbra, pra Direito.
E eu pra Lisboa, lidando em tudo pra que tinha jeito.

Tu foste Presidente da Briosa,
Tiveste cargos de relevo no país.
Eu ia-me elevando em verso e prosa,
Numa ascensão feliz.

Quando avançou Abril com bandeiras de sangue,
Veio agredir-te o ódio triunfal
Que te levou exangue,
ao leito de Hospital.

Eu sofria a derrota do sonho português
Sagrando-me soldado
Do verso, que me fez
Defensor do Passado.

Foste exilar-te no Brasil,
Onde nasceste,
Para evitar a horda vil
Mortal como uma peste.

Amparou-te o espírito a Poesia
E a força da razão.
Até que um dia
Regressaste ao escasso deste chão.

Eu recebi-te num fraterno abraço,
Com alegria e com alívio,
A reatar o laço
Do convívio.

Mas o teu corpo voltou doente,
Cedido pela mais cruel doença.
E, lentamente,
eu perco a tua cordial presença.

Visitei-te numa Casa de Saúde,
Para dizer-te adeus e tu a mim.
E vejo que o teu mal já não ilude,
Pois, três dias depois, chegaste ao fim.

Choro com todos os teus amigos,
O sofrimento da tua ausência,
Hoje, mendigos,
do teu coração e inteligência.

E, agora, Ruy, é a maior saudade que me dói
A do jovem que foste,
A do jovem que fui,
Num Portugal que foi.

14.04.2009 - António Manuel Couto Viana

domingo, 3 de maio de 2009

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade in "Os Amantes Sem Dinheiro" (1950) 

SER CRIANÇA

Fui criança
Do outro lado do mar...
Tão longe...
E tão perto...

Como recordo...
Os passos largos...
A correr para o colégio...
O vestido novo...
Para levar à igreja...
As minhas brincadeiras...
Os meus jogos...
Os meus bailes...
Os meus anseios...
Os meus amores...

Os meus amigos...
Com quem sempre brinquei...
Que tanto me alegravam...
E a quem sempre recordei...
E... que hoje ainda recordo...
E... preservo.
Pois são do melhor...
Que até hoje...
A vida me deu!...


IMBONDEIRO

Estou a ver-te ao longe…
Imbondeiro grande e frondoso…
Velho, arrogante com grande porte…
Porte de Rei e porte imponente…
Mostras a todos como és belo e poderoso!
Com tronco baixo e largo…
Com dois ou três braços…
Braços longos e fortes…
Que abraçam o mundo…
Que mostram o quanto imponente tu és…
E a tua beleza…
E a tua opulência…
Meu imbondeiro Rei…
Espalha-se pelo mundo todo!...


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