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sábado, 25 de fevereiro de 2017

Infância perdida

via O Lupango da Jinha em 04/08/09
Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Guimarães.


Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.


Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.


Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.


Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.


Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão


Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.


Era no tempo dos doces de ginguba com a...

domingo, 6 de março de 2011

"A Estrela da Manhã" de Manuel Bandeira e "O Agente da Passiva" de Ernesto Lara Filho

A estrela da manhã (de Manuel Bandeira)


Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos, meus inimigos
Procurem a estrela da manhã.

Ela desapareceu, ia nua.
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte.

O agente da passiva (de Ernesto Lara Filho)

Eu quero o agente da passiva
Onde está o agente da Passiva?
Meus amigos, meus inimigos
Procurem o agente da passiva.

Ele desapareceu, ia nu
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte.


Ernesto Lara Filho, in Crónicas da Roda Gigante, pág. 60.

Regresso

Nota Pessoal
Ernesto Lara Filho, o autor deste poema, no verso "Quando voltares" refere-se à sua irmã Alda Lara que se encontrava na Metrópole a estudar medicina.
Rui Moio

 Um dia,
Quando voltares, não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe
da rua principal.

Quando voltares
da Europa, irmã,
hás-de ver ainda
como a cidade mudou…

(Lembras-te das promessas
que fizemos?)

Quando voltares
Não mais encontrarás poesia no quintalão do Zé Guerra
agora transformado
atravessado
assassinado
por uma avenida transversal.

Quando voltares
só terás
Como o deixaste
O Mercado Municipal.

Não mais o Candeeiro
nem a velha lavadeira
O Frederico
esse agora é pintor
do Morais Pontes.

Nem as acácias rubras
hão-de florir
para ti
quando voltares.

“Lembras-te da palmeira
do quintal?
Foi abaixo com duas machadas
No tronco…”

Um dia
quando voltares
Não mais encontrarás
a Benguela que conhecestes
menina ainda
e que aprendeste a amar.

O velho João Correia?
Já morreu…

Quando voltares, afinal
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe
da rua principal.

Ernesto Lara Filho, in Crónicas da Roda Gigante, págs 138 a 140.

sábado, 7 de agosto de 2010

Era no tempo dos tamarindos

Era no tempo dos tamarindos

via Angola: os poetas by kinaxixi on 8/6/10

Era no tempo dos tamarindos

meu pai sempre acordava p'la manhã
e ia cantando pró quintal
enquanto fazia a barba
debaixo do caramanchão
da buganvília cor-de-violeta.

era no tempo dos tamarindos.

zenza niala vinha entrando na cancela
à cabeça a quinda carregadinha de fruta
sempre cumprimentava minha mãe:
- "sápere, dona!"
minha mãe respondia:
- "olá"
ela aganchava no chão
destapava a quinda
e por sob as folhas frescas de mamoeiro
mostrava papaias e pitangas saborosas.

às vezes trazia fruta-pinha e sápe-sápe.

era sempre o mesmo dialogo.
minha mãe. "chingamin?"
zenga niala do chão sorria
mostrava os dentes de marfim
e respondia:
- "meia-cinco, sinhóra!"

era no tempo dos tamarindos.

e havia "bigodes" e " bicos de lacre"
cantando nas acácias do quintal.

depois zenza niala ia embora,
as ancas baloiçando
a quinda na cabeça.

era no tempo dos tamarindos em flor.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Ernesto Lara Filho (De o Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto) - Infância Perdida


via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MARIANJARDIM on 3/12/10

Ernesto Lara Filho: Benguela, 1932; Huambo, 1977

Infância perdida
(para o Miau)

Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Guimarães.

Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.

Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.

Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão

Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Mais tarde
vieram os passeios noturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.
Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
[essa mulata...)
Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.
Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
Infância Perdida
sonhos dos tempos de menino.

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varre das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.

Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu
de dona Ema.

Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.
Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes
grita-lhes
aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.

Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva
cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.

Nesse tempo, Edelfride,
Infância Perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...

Ernesto Lara Filho
(O Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto)
1964, Lisboa

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Picada de marimbondo

Junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo

Vinha zunindo
cazuza!
Vinha zunindo
cazuza!

Era uma tarde em Janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

Cazuza!
Marimbondo
mordeu tua filha no olho!

Cazuza!
Marimbondo
foi branco que inventou...


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sinceridade

via Angola: os poetas de kinaxixi em 28/08/09

Sou sincero
eu gostava de ser negro
gostava de ser um joe louis, um louis Armstrong,
um harrison dillard, um jess owens,
um Leopold senghor, um aimé cesaire, um diopp
gostava de ritmar
de dançar como um negro.

sou sincero
eu gostava de ser negro
vivendo no harlem,
nas plantações do sul
trabalhando nas minas do rand
cantando ao luar da massangarála
ou nas favelas da Baía.

eu gostava de ser negro.

e sou sincero…

domingo, 12 de abril de 2009

Elisa Mulata

Quando Elisa, a Mulata
de olhos brilhantes como dendem
veste de negro
seu corpo parece uma escultura quioca
escurecida pelo tempo.

quando Elisa, a mulata
veste de negro
e samba sozinha no meio da sala
de um cabaret
ao som de uma orquestra de mambos
renasce uma rainha
de qualquer noite africana.

Elisa, a mulata ordinária
de olhos brilhantes da cor do dendem
de corpo brilhante, coleante de cobra
de lábios vermelhos e grossos
parece uma escultura quioca
reminiscência de uma qualquer noite africana
perdida nas minhas noites da Europa.

rainha
de uma qualquer noite africana.

Elisa
mulata ordinária
Elisa de Luanda
perdida nas noites
de um cabaret de Lisboa

Elisa
a que quando veste de negro
parece uma escultura quioca
enegrecida pelo tempo.

Ernesto Lara Filho (1932-1977)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Maracujá

Um dia
o pé de maracujá
que eu plantei no quintal
cresceu
e floriu

Eu nunca tinha visto
a flor do maracujá.

Juro por Deus nunca vi
coisa mais linda do mundo
do que a flor violeta
do pé de maracujá
que eu plantei
Na cerca do meu quintal

Um dia
o maracujá
que eu plantei no meu quintal
cresceu e floriu...

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