domingo, 1 de agosto de 2010
A uma criança
domingo, 25 de julho de 2010
Anúncio - Alda Lara

Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...
Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...
Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...
Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...
Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...
Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...
Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...
E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...
Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...
Alda Lara - Livro: Poemas
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
As Belas Meninas Pardas
AS BELAS MENINAS PARDAS
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Pátria
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
O GRANDE POEMA
Lago [do Campo Grande - Lisboa]
quarta-feira, 6 de maio de 2009
A Coimbra
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Página Marcada
Folha de hera perdida,
a marcar a página das horas
que não findaram,
no bate-compasso-certo, da Vida!
Folha de hera perdida...
Por causa de ti,
o livro abriu-se na página marcada...
e os versos falaram de destinos belos
confundidos,
tão incertos,
mas tão sentidos.
Folha de hera,
verde-triste,
verde-escura,
a envelhecer com doçura...
Só a página dos versos
e dos meus anseios,
é sempre a mesma, marcada,
aberta no mesmo sítio,
crucificada em teus veios...
Folha de hera! Folha d' hera!...
Mesmo que o vento te leve,
será sempre Primavera...
Mesmo que o vento te leve,
o livro se encherá sempre
duma presença encantada...
E se abrirá sempre, sempre,
nessa página marcada!..."
Fonte: Blogue "Lupango da Jinha" de 29Jul2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
A Caminho
Vai Amigo...
Vai, e não esperes por mim...
Ao longe, fica a estrada,
talvez certa,
talvez bela.
É tua esta jornada.
Já passas a cancela...
Porque olhas para trás?...
Vai Amigo...
Amanhã, voltarás.
É longo o meu adeus.
Estão tristes os meus olhos.
Por tudo,
eles me estão tristes
neste fim...
Mas vai,
que a hora é breve...
Não esperes por mim...
Fonte: Blogue "Lupango da Jinha" - post de 30Jul2008
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Ronda
Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...
Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
Na dança dos meses
meus olhos choraram
Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!
Na dança dos meses
meus olhos cansaram...
Na dança do tempo,
quem não se cansou?!
Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...
Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando?
Alda Lara (poemas)
Testamento
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
Alda Lara (poemas)
quarta-feira, 25 de julho de 2007
PRESENÇA AFRICANA
E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços das palmeiras...
A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!...Rua 11!...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história onconsequente...
Minha terra...
Minha, eternamente...
Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!
Quadras da minha solidão
Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...
Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...
Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...
que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.
Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...
E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...
domingo, 22 de julho de 2007
Rumo
É tempo companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguem resiste á voz
da Terra...
Nela,
o mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro,
e eu sou branca,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos companheiro!
É tempo...
Que o meu coração
se abra á mágoa das tuas máguas
e em prazer dos teus prazeres
irmão:
que as minhas mãos brancas
se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o meu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor.
Vamos!
que outro aceno nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
E é tempo companheiro!
Caminhemos...
Regresso
Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...
Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...
Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monotono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepusculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçõeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...
Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...
Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acacias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...
Como curiosidade, esta poesia foi escrita em 1948, quando a autora viveu alguns anos em Coimbra e Lisboa, onde se formou em medicina. Voltou, na verdade, e faleceu em 1962, em Cambambe, ANGOLA
Prelúdio
Pela estrada desce a noite...
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvilias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas aí de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que customavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta, bem calada.
É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...
"Noite"
Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tunguruluas pelos ares!...
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das historias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
endoidadas, tenebrosas langorosas,
mas tristes...como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...,
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos brancos...esqueceram!...
"De Longe"
Nao chores Mae... Faz como eu, sorri!
Transforma as elegias de um momento
em canticos de esperanca e incitamento.
Tem fe nos dias que te prometi.
E podes crer, estou sempre ao pe de ti,
quando por noites de luar, o vento,
segreda aos coqueirais o seu lamento,
compondo versos que eu nunce escrevi...
Estou junto a ti nos dias de braseiro,
no mar...na velha ponte,... no Sombreiro,
em tudo quanto amei e quis p'ra mim...
Nao chores, mae!... A hora eh de avancadas!...
Nos caminhamos certos, de maos dadas,
e havemos de atingir um dia, o fim...



