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sábado, 8 de agosto de 2009

Eis de repente ...

via O Lupango da Jinha em 02/08/09

Eis de repente ...

..... eis de repente
do Lépi a chuva densa
alturas de Nambunagongo
Silongo de Mandume
Chanas que pisei no leste
Maiombe de lendas infindáveis


O ar livre de poeiras dos escombros
Reabre sonhos escondidos na agonia


A velha da tchimanda
Dá o nome de David
E o da Miete
Aos meninos que encontrou
Na estrada


No Tchinguluma
Ouvem-se as abelhas zumbir
Em torno das cores perto do rio


Também viram no Mufupu
Jeremias a cobrir a casa
Com capim novo da chama


Lukau vinda do norte
Trouxe abacates no pano e ofereceu-os
Olhos brilhantes húmidos felizes


Disseram-me hoje
Há folhas verdes outra vez
Nos ramos da loncha da Emanha
Nas mangueiras do salundo
Vozes falam do milho a germinar
No Huma e na Cativa


Passaram os anos em que a morte
Venceu todas as batalhas


Finalmente agora pouco a pouco
Começa a vida a vencer a guerra

Fonte: Blogue "O Lupango da Jinha" - post de 02Ago2009

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Poemas para um tocador de quissanje

1
Leio nos teus olhos
a minha infância
como quem olha um retrato
envelhecido e mudo...

Os teus olhos parados
claros de luas passadas
não são mais que pedras frias
onde perpassam cacimbos...

... no entanto leio neles
todo esse mundo querido
de mistérios
assombrações

e receios
claras manhãs de Janeiro
calor de todos os jangos
verdes capins sorrindo...

Falam de noites da vida
vidas da vida falando
na linguagem de um quissanje

2
Eras o maior
dos tocadores de quissanje...

Vinham gentes
e paravam...
ao luar de frios ventos
de jangos mudos
e as mulembas
não embalavam
as folhas...

Na longa noite do tempo
inda se escutam e choram
teus acordes de quissanje
mensagens de além perdido.

3
... e vinham
das distâncias
eram das terras da lunda
e os regressados das ilhas
e as crianças que não iam
muito p'ra além dos luandos
e das portas
e eram velhas
cachimbando
junto às fogueiras
sem lenha
e vinham todos...

Alongava-se na noite
canto de escravos passados
vozes de contratados
o teu quissanje dolente...

4
... as velhas já não choravam
filhos perdidos no mar
e as crianças não choravam
a fome dos ventres grávidos
e as mulheres já não choravam
homens levados de noite
em cargas silenciosas...
e as lavras já não choravam
e as estradas
e os mares
suor dos ombros cansados
e os homens
já não choravam
já não choravam
já não choravam
Calavam.

5
Havia conchas de mar
múcuas e pitangueiras
falas de gentes quiocas
vozes de terras ganguelas
gritos de homens cuanhamas
ó amor de jovens luenas
e lendas de mucubais
inconformadas presenças
pairando em cada silêncio
em cada vagem que seca
como promessas de pão feitas fome
na realidade diária.

Havia
havia
havia
humanidades de espera
como promessas de pão.

Fonte: Blogue "AMORE" - post de02Dez2008

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Dádiva

Sou mais forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.

Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.

...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.

Já Não É...

Já não é a noite que promete algum desejo
e o amanhecer não reflecte mais quimeras
no olhar.

Aquilo que era sol em cada verso
são os caídos,
é a queda
de cada pedra companheira
movida ainda sabe-se lá por que impulsão
após a morte!

As palavras que prometem
vêm depois que silvam balas
e a decisão dos homens.

Restamos nós rochedos brutos da montanha
face voltada ao amanhã que sempre nos guiou.

Cairemos não importa.

Nós somos o carvão da luz futura.

Poesia com armas, Costa Andrade, Sá da Costa, Lisboa, 1975

Autobiografia

Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.

Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.

Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.

Alguém varreu o fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.

Palavra de Poeta, Cabo Verde e Angola, de Denira Rozário, Bertrand Brasil, 1999)

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Contratados

A hora do sol posto
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos

caminhos sob a calma das mulembas

e abraços de segredos e silêncios.

...longe...muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.

Canções que os velhos cantam
murmurando.

e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas.

renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.

(1959)

Mãe-Terra

Terra vermelha do Lépi és minha mãe

Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão

Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.

Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna

Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos

A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!

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