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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Canto Anónimo

De terra e nervos, eis de que sou feito,
porque homem sou, homem simplesmente.
saibam as estrelas o que penso,
seja ou não seja o abismo imenso.
quero elevar a minha voz,
que foi feita para gritar,
quero erguer os meus punhos,
que foram feitos para bater ou perdoar,
quero dirigir os meus pés
pra onde a razão o ordenar.
homem sou, homem simplesmente,
quero para mim a vida, vivê-la inteiramente.
e vós, estrelas, sabei isto que sei:
de terra e nervos, eis de que sou feito.
e seja ou não o abismo imenso.
eu, homem, homem simplesmente,
conquistar-vos-ei…


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Por aqui andamos como folhas secas

Por aqui andamos como folhas secas
não sabemos bem se vivos ou se mortos

por aqui andamos
cumprindo o fado que não entendemos
uma vida que não é nossa
como um fato que pomos sobre o corpo nu

por aqui andamos submissos
subindo e descendo a rua
nós ou outros não importa
é como se fôssemos outros
tão longe que estamos de nós
indo para as repartições
vindos das máquinas de escrever
dos papéis dos tornos ou das enxós

por aqui andamos
regressando por vezes
com a consciência do dever cumprido
o dever cumprido
ópio que se inventou para
nos escondermos desta torpe existência

por aqui andamos
ai horas de desespero que são tão lúcidas
em que vemos que o que estamos é atrás do espelho
por aqui andamos como jornais velhos
que virão percorrendo as ruas
e acabam nas sarjetas
ou dão novos jornais
que farão a mesma coisa

por aqui andamos

por aqui andamos
que triste ser poeta ou lá o que se é
sejamos prosaicos ao diabo tudo isto
dá vontade de lançar uma
bomba de s. João
e pensar que se mandou o mundo aos ares
dá vontade de ir descobrir o Brasil
como se não estivesse descoberto há
quatrocentos e tal anos
é certo que há uma esperança
sabe-se que isto não será sempre assim
felizmente que não será sempre assim
felizmente que isto não será sempre assim
mas por aqui andamos
por ora aqui estamos
vestidos de
fantasmas entre fantasmas a fingir de gente…

Antero Abreu (1927) - Nasceu em Luanda e fez os estudos de direito em Lisboa. Enquanto estudante foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império. Foi um activista do associativismo e da cultura tendo-se destacando no Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola – Anangola. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, depois da independência exerceu os cargos de Procurador-geral da República e de embaixador em Itália.


sexta-feira, 27 de julho de 2007

Libertação

Das mentiras loucas que me envolvem
Vou quebrando os liames um a um
E da angústia da libertação
Nascerá um dia a paz
Do ser e do não ser.

Das mentiras vãs que me amordaçam
Os véus arrancarei a um e um
Tristes despojos dum passado velho
Que em mim se quis perpetuar.

E deixarei um rasto de desilusões;
Um caminho de lágrimas choradas;
Um pouco do que fui em cada dia.

Mas ficarei seguro e afirmado,
Com a serenidade dum Buda na floresta,
Com a nudez dum Cristo no redil.


(Permanência ) Lisboa, Edições 70

Aqui não há esperança

Aqui não há esperança
Aqui é tudo espesso igual e morno
Até onde a vista alcança
Ó sombras do caminho
Nada se define em torno
Aqui tudo são brumas
Movediço e ilusório

O que se vê são sombras não as árvores
São imagens não as coisas
E as estrelas após tantos mistérios
Ainda são almas em sonhos merencórios
Tudo aqui é uniforme. Onde se apalpa
Sente-se o decompor dos corpos mortos
E a cada passo - uma barreira
E a cada luz - um véu de trevas
E em cada bússola os ponteiros tortos
Na luta somos desiguais
No amor somos mentiras
Na vida somos estéreis
Se temos coração
É para o rasgarmos dia a dia em tiras
(Ó lobos dos caminhos
Fauces de angústia em ânsias de apetite
Comei-nos a boca e os braços
Imolai-nos de vez à vossa fome
E uivai depois felizes aos espaços)
Aqui tudo é dúbio e vacilante
Num chão de trincheiras os espectros
Andam fugindo de ódios que os corroem
Claras bandeiras de matizes claros
Refugiam-se nas sombras por que doem
Tudo aqui se amortalha nos mistérios
Borbotões de vida que cessaram
Dão passo à serenidade
Caiada e estéril dos cemitérios
Tudo o que se come tem sabor a mastigado
Tudo o que se ouve é como já ouvido
O presente é um fruto descascado
E o futuro é um canto repetido
Andam os répteis a banhar-se em luz
Andam morcegos a comer os fogos
Aninham-se sapos em doçuras moles
E andam as almas a acalentar malogros
(Lobos dos pinhais de fauces tenebrosas
Vinde roer-nos o olhar e a mão
Vinde matar-nos e uivar contentes
À serenidade do tempo na amplidão)
Tudo aqui é derrota sem batalhas
Tudo aqui é um rugir de reses
Tudo aqui são pálidas mortalhas
A fingir de cotas e a fingir de arneses
Andam flores a desabrochar para quê?
Para que andam aves a voar no vale?
Para que andam trigos a doirar ao sol?
Para que brilha na parede a cal?
Sonhos de sonhos a subir alados
Tremulas mãos a tatear os pomos
E enforcados
Secam na árvore os apetecidos gomos
Deitam-se as redes mas o mar é sóbrio
Olha-se a lua mas a lua é morta
Cravam-se os cravos mas o casco é inútil
Bate-se a aldrava mas não se abre a porta
Tudo aqui é tranqüilo como os mortos
Tudo aqui é sonâmbulo e vencido
Tudo aqui é cavo como um sorvo
Imóvel como um olhar estarrecido
(Ó lobos dos caminhos
Que a fauce negra entreabris lasciva
Vinde seguros acabar conosco
E uivar alegres à eternidade altiva)
E não nos dêem uma alma
Para que sobreviva.

(Permanência) Lisboa, Edições 70

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