Meus olhos que por alguém
Deram lágrimas sem fim,
Já não choram por ninguém
Basta que chorem por mim.
Arrependidos e olhando
A vida como ela é,
Meus olhos vão conquistando
Mais fadiga e menos fé.
Sempre cheios de amargura!
Mas se as coisas são assim,
Chorar alguém – que loucura!
– Basta que eu chore por mim.
Fonte: Blogue AMORE - post de 26Nov2008
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Meus olhos que por alguém
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
DISCURSO
O homem não nasce livre,
Torna-se livre, é diferente.
Abandoná-lo à sua sorte,
É um crime, - não convém.
O Estado, a Escola, a Família,
São necessários à vida
Do que souber ser alguém.
Não partir da liberdade,
Mas caminhar para ela.
Só assim o homem de hoje
Pode vir a merecê-la.
[Baionetas da Morte]
LEGENDA
Óh Pátria mil vezes Santa,
- Meu Portugal, minha terra,
Onde vivo e onde nasci!
Na tua História me perco,
E nela tudo aprendi.
Mesmo que fosses pequena
E eu te visse pobre ou nua,
- Ninguém ama a sua Pátria por ser grande,
Mas sim por ser sua!
[Baionetas da Morte]
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Não queiram saber quem ele é (?)
Não queiram saber quem ele é.
Deixem-no andar
No tristíssimo segredo
Que o meu coração
Tem guardado avaramente!...
Quem ele é? - Não perguntem.
É um sonho, uma ilusão,
- Não é ninguém! Não é gente.
E teimam em perguntar
Quem é que assim me domina
Com tamanha realidade?
Não é ninguém! É um sonho
Que anda a ficar em saudade!
Em Ciúme
As Canções de António Botto, Livraria Bertrand, 1956, p.147
O Campino
Campino do Ribatejo!
Figura que nasce e morre
Nos campos da beira-mar!
Tão portuguesa e tão bela
Na sua simplicidade
Que até na sua pobreza
Nunca sabe mendigar!
Entre cavalos e toiros
Na lezíria assoalhada
A sua figura esbelta
Tem um encanto infinito:
Barrete verde; o colete
Encarnado sobre a neve
Da camisa de algodão;
Jaleca bem recortada,
Meia branca, os albardões,
As esporas, o calção
Azul cobalto justinho
E a cinta escarlate quente
Da cor do sangue ou do vinho.
Além, naquele valado,
As papoilas e o junquilho
Fazem trofeu, há mais luz!
Um harmónio no fadango
Vibra e salta no compasso
Magoadamente agitado!
Anda no ar o farrapo
Dolente de uma cantiga
Mordida pelo ciúme!
E o fandango vai dançado!
Ninguém se mexe. Só ele,
Bamboleado, rirail
Desempenado, perfeito,
- E as pernas? Como ele as dobra?
E aquela curva do peito?
Trás um cravo na orelha,
E dança, dança, - o harmónio
Vai-lhe graduando o alento,
A luz perturba, - mulheres
Ficaram mudas a olhá-lo!
A garotada assobia
Acentuando o mitovo
Musical, mas, a preceito;
E o Sol, apesar do dia
Nascer fosco e marralheiro,
Parece lume! - O fandango
Com a graça de um campino
É Portugal verdadeiro!
Ódio e Amor, Edições Ática, 1947


