naquela rua da praça…
foi ali que a encontrei
e conheci
e gostei
de a ver passar
com a quinda na cabeça…
não notei as cores dos panos,
não notei o que levava
para vender.
só reparei
e gostei
do seu colar de missangas.
soube depois
que era recordação
dum homem com quem vivera…
um dia
- quantos já passados –
estava ela na baía
quando o guerreiro,
fogueiro
ou marinheiro
de cabotagem,
apareceu por ali.
encontrou-a
convidou-a,
ela foi
e ofereceu-lhe o colar.
depois seguiu a viagem
e a vida seguiu também.
meses passados
nasceu-lhe o filho.
gostou,
ficou contente.
Depois
morreu-lhe o filho.
chorou,
enlouqueceu de repente.
e agora
todas as manhãs
quem quiser a vê passar
a caminho da quitanda
com a quinda na cabeça.
e conta os dias
passados á espera do filho,
pelas missangas
rubras, da cor das pitangas,
que vai pondo,
dia a dia,
no fio do seu colar.
ontem
quando a vi passar
o colar
tinha dez voltas…
Fonte. Blogue "Angola: os poetas", post de 17Dez2010
sábado, 25 de março de 2017
Colar de missangas
sexta-feira, 24 de março de 2017
Queixa
toda a noite te esperei.
quando cheguei
não estava ainda luar.
e fiquei
a esperar
que viesses
como tinhas prometido.
toda a noite te esperei
e afinal não apareceste.
fiquei esperando,
esperando,
e as horas foram caindo,
uma a uma
como gotas de cacimbo.
entretanto,
surgiu detrás da igreja
o disco em prata,
da lua.
debaixo da cajadeira,
junto à valeta da rua
e sob a luz que me encanta,
vi nascer a madrugada
da cor da semana santa
vi como a noite fugia
e como raiava o dia.
…toda a noite te esperei
E afinal não apareceste…
Fonte: Blogue "Angola: os poetas", post de 06Jul2009.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Meu amor da Rua Onze
sábado, 17 de abril de 2010
A Casa
da casa prometida
sabida
como certa
a pedra dura
madeira que se dobra
o barro que se molda
coragem que perfura
a timidez que sobra
paciência que se amolda
um bocado de sonho em cada mão,
um resto de azul
no resto da manhã,
e amanhã,
de manhã cedo,
sem medo,
a casa que te ofereço
cercada de amizade.
sábado, 9 de maio de 2009
Tenho Saudades
domingo, 5 de agosto de 2007
A mulemba secou
A mulemba secou.
No barro da rua,
Pisadas
Por toda a gente,
Ficaram as folhas
Secas, amareladas
A estalar sob os pés de quem passava.
Depois o vento as levou...
Como as folhas da mulemba
Foram-se os sonhos gaiatos
Dos miúdos do meu bairro.
(De dia,
Espalhavam visgo nos ramos
E apanhavam catituis,
Viúvas, siripipis
Que o Chiquito da Mulemba
Ia vender no Palácio
Numa gaiola de bimba.
De noite,
Faziam roda, sentados,
A ouvir,
De olhos esbugalhados
A velha Jaja a contar
Histórias de arrepiar
Do feiticeiro Catimba.)
Mas a mulemba secou
E com ela,
Secou também a alegria
Da miudagem do bairro:
O Macuto da Ximinha
Que cantava todo o dia
Já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
Passa o dia deitado
A pensar em muitas coisas.
E o velhote Camalundo,
Quando passa por ali,
Já ninguém o arrelia,
Já mais ninguém lhe assobia,
Já faz a vida em sossego.
Como o meu bairro mudou,
Como o meu bairro está triste
Porque a mulemba secou...
Só o velho Camalundo
Sorri ao passar por lá!...
(Meu amor da rua onze)
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