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sábado, 1 de dezembro de 2007

POEMA PARA O ZÉ SOLDADO

Não cuides que me esqueço.

A memória, -
está na aurícula direita
do coração.
Areia áurea, erecta,
que palpita de paixão
e a boca do poeta deixou escrita
nas linhas da palma da mão.

Não: eu não me esqueço.

E se quiseres eu lembro:

Corria o mês de Dezembro,
o mês do Mestre de Avis,
e tu, sereno e feliz,
surgiste num ecran de vidro
a dizeres que era de ferro
o nosso patriotismo.

Que é feito de ti, Zé Soldado,
Soldado de Portugal?

Era noite. E o Menino Jesus
faltava lá no Minho, esse Natal.
Parecia tão triste, a tua mãe.
E o teu pai, que nem bebia vinho?
também triste, tão sozinho,
nessa noite. E o Menino Jesus
faltava lá no Minho esse Natal.

E tu surgiste, no ecran de luz,
sorridente, alegre, apaixonado,
a dizer:
- que o pecado
era não lutar por Portugal.

Mas que é feito de ti, Zé Soldado?
Que é feito de ti, afinal?

Falaste com saudade e com orgulho.
E, no carinho dos teus,
não era essa verdade um sonho:
era um poema em rascunho
escrito pelo punho de Deus.

Eram dez horas. E depois da ceia
suspensa da tua voz, da tua imagem,
lá estava toda a aldeia
a dizer à boca-cheia:
este sim, tem coragem.

Quase que já não se ouviram
as palavras que disseste no final
(Eu não me esqueço...)

Disseste:
Adeus. Até ao meu regresso.

À tua espera
está suspenso Portugal.

FONTE DO TEMPO

Para nascer basta um momento
breve é o tempo para morrer
mas é tão longo o sofrimento
de nem sequer ter tempo p’ra sofrer.

Quantas milhas já calcorreei
à procura de quem me procurasse, meu amor
e nunca te encontrei
nos lábios que julguei, da tua face.

De súbito parei, e vi-me ao espelho.
Nem meu rosto afinal é o que procuro
estes olhos são já de um homem velho
e eu quero um olhar simples e puro.

Se te encontrar perdoa se fôr tarde
na rua ou no campo, em algum templo
que dirás deste modo de covarde
de não levar mais tempo para o tempo.

P’ra nascermos passaram dois mil anos
quantos amores houve antes de nós!
Somente para os nossos desenganos
estamos de repente longe e sós.

Basta um segundo para nascer.
Um tempo p’ra morrer súbito e breve, meu amor
pudesses tu dizer
não há vida ou morte que nos leve!

SAGRES

I
Ínfimo e gigante,
O Infante,
fita
o instante
Premonitório
Da onda que se alonga
No horizonte
Do promontório...

Seu instinto
Ainda nos obriga,
Por sermos os mais velhos
Dos mais novos,
A ter caravelas
Por conselhos
E a caminhar
À frentre dos outros povos.

De mãos juntas,
De mãos postas,
Somos nós que fazemos as perguntas,
Somos nós que daremos as respostas.

II
Por estarmos sós
É que sabemos
A quantos nós
De nós distamos.
Por nada termos
Mais desejamos
E com o que sofremos
Inventamos.

A quem nos despreza
Não desprezamos
Dizemos reza!
E rezamos
A quem nos quer mal
Nada dizemos.
Mas no silêncio que fazemos
Falamos de Portugal.
A quem nos entende
Servimos.

Ensinando que Portugal
Não se vende
E que a Pátria se aprende
Só quando a cumprimos.

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