domingo, 23 de abril de 2017

Lua congelada

Com esta solidão
ingrata
tranquila

com esta solidão
de sangrados achaques
de distantes uivos
de monstruoso silêncio
de lembranças em alerta
de lua congelada
de noite para outros
de olhos bem abertos

com esta solidão
desnecessária
vazia

se pode algumas vezes
entender
o amor.

Fonte (in “O Amor, as mulheres e a vida – Antologia de poemas de amor”, Tradução: Julio Luis Gehlen. São Paulo: Verus, 2000. p. 33 – colaboração de Marcela para A Magia da Poesia), in Poemas de Grandes Poetas


sábado, 22 de abril de 2017

O “Adeus” de Teresa

Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos sec’los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . ”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”


Fonte: A Magia da Poesia - Castro Alves - Poemas

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Oração para Aviadores

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.


Fonte: A Magia da Poesia - Manuel Bandeira - Poemas

quinta-feira, 20 de abril de 2017

ON THIS DAY I COMPLETE MY THIRTY-SIXTH YEAR

    ´TIS time the heart should be unmoved,
    Since others it hath ceased to move:
    Yet, though I cannot be beloved,
    Still let me love!
     
    My days are in the yellow leaf;
    The flowers and fruits of love are gone;
    The worm, the canker, and the grief
    Are mine alone!
     
    The fire that on my bosom preys
    Is lone as some volcanic isle;
    No torch is kindled at its blaze--
    A funeral pile.
     
    The hope, the fear, the jealous care,
    The exalted portion of the pain
    And power of love, I cannot share,
    But wear the chain.
     
    But 'tis not thus--and 'tis not here--
    Such thoughts should shake my soul nor now,
    Where glory decks the hero's bier,
    Or binds his brow.
     
    The sword, the banner, and the field,
    Glory and Greece, around me see!
    The Spartan, borne upon his shield,
    Was not more free.
     
    Awake! (not Greece--she is awake!)
    Awake, my spirit! Think through whom
    Thy life-blood tracks its parent lake,
    And then strike home!
     
    Tread those reviving passions down,
    Unworthy manhood!--unto thee
    Indifferent should the smile or frown
    Of beauty be.
     
    If thou regrett'st thy youth, why live?
    The land of honourable death
    Is here:--up to the field, and give
    Away thy breath!
     
    Seek out--less often sought than found--
    A soldier's grave, for thee the best;
    Then look around, and choose thy ground,
    And take thy rest.
Note: "On this Day I Complete my Thirty-Sixth Year" is reprinted from Works. George Gordon Byron. London: John Murray, 1832.
Lord Byron, George Gordon (1788-1824)
Fonte: PoetryArchive

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Mamãe Eu Quero (Carmen Miranda)



Nota

- Carmen Miranda a portuguesa que se fez cantora no Brasil, aqui a cantar a célebre canção "Mamãe Eu Quero".

- Dedico este vídeo à minha mãe que anteontem e ontem cantou esta canção para mim.  Os doentes, as funcionárias e as enfermeiras que passavam no corredor da casa de saúde onde nos encontrávamos pararam para a ouvir e divertiram-se muito. Foi uma festa à moda da ILDA, da ILDA minha mãe e da ILDA a autora da Marcha de Cangamba.
Rui Moio

Fonte. Youtube.com

Mamãe eu quero

Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamar!
Dá a chupeta, dá a chupeta, ai, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorar!

Dorme filhinho do meu coração
Pega a mamadeira em vem entra no meu cordão
Eu tenho uma irmã que se chama Ana
De piscar o olho já ficou sem a pestana

Eu olho as pequenas, mas daquele jeito
E tenho muita pena não ser criança de peito
Eu tenho uma irmã que é fenomenal
Ela é da bossa e o marido é um boçal

Fonte da letra: Vagalume

terça-feira, 18 de abril de 2017

ADEUS, IRMÃO BRANCO!


 Geraldo Bessa Victor

ADEUS, meu irmão branco, boa viagem!

Chegou a hora de você voltar
para a Europa, a sua terra.
Quando você chegar, há-de falar
dos encantos que encerra
esta África Negra, tão distante,
tão distante, irmão branco...
Pois eu quero, neste instante
da partida, pedir-lhe uma promessa:
-- Não se esqueça da alma do negro,
não se esqueça!

Você há-de falar das terras africanas,
da mata e da cubata,
dos montes e das chanas;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar do sol fogoso,
das caçadas e queimadas,
das noites que viveu em batucadas
no mais feiticeiro gozo;
mas não se esqueça da alma.

Vai falar do café, do algodão, do sisal,
da fruta tropical, enfim, de toda a flora;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar dos negros no seu mato,
da negra tentadora
de corpo sensual,
mostrando até retrato;
mas não se esqueça da alma.

Adeus, meu irmão branco! Lá na Europa,
quando falar da tropical paisagem,
não se esqueça da alma do negro.

Adeus, meu irmão branco, boa viagem!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

São sete e dez

São sete e dez.
Mas como o tempo passa!
É outra gente agora:
aquele
tem o cabelo,
a roupa
o jeito
de quem há-de ficar insatisfeito
se não repararem nele.


domingo, 16 de abril de 2017

Seis horas da manhã

Seis horas da manhã.
No céu
anda um silêncio azul-violeta.
Aqui,
ali,
além,
um motor a roncar
aquece.
Os pardais dão bicadas no silêncio
num tom mordente,
alegre,
impertinente.

Fonte: Blogue "Voar Fora da Asa", Post de 03Mar2013. Poema in "Cidade", Luanda 1960)

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