quarta-feira, 22 de março de 2017

A Maior Tortura

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia ...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia! ...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor! ...

(Dedicado a um grande poeta)
Fonte: Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas", in Citador

terça-feira, 21 de março de 2017

Pior Velhice

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam em voz rouca,
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
De alvas rosas a fronte de uma mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova... A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova... outrora...

Fonte: Blogue "Livros e Palavras", post de 17Ago2012.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Às Mães de Portugal


Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d' olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas!

Calai as vossas mágoas, vossas dores;
Longe, na crua guerra,
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!

E se eles defendem a bandeira
Da Pátria que adorais,
Onde viram, um dia, a luz primeira,
Ò mães, porque chorais?!

Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A Alma Portuguesa!

Pela terra de rosas e tomilhos,
De estrelas e luar,
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!

Dum português bendito, sem igual,
Eu sigo o mesmo trilho:
"Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!"

Por isso, ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães, não choreis mais!

A Pátria rouba os filhos, mas é mãe,
A mãe de todos nós.
Direito de a trair, não tem ninguém
Ó mães, nem sequer vós!

Poema escrito em homenagem aos soldados portugueses que lutaram em França durante a Primeira Guerra Mundial.
Fonte: livro "Mãe", edição 101 noites, Pág. 61-62.

domingo, 19 de março de 2017

Dia do Pai

"hoje senti saudades de ti ... pai ...
saudades de te ter , de te abraçar,
hoje senti saudades de ti ...
saudades de te ver sorrir ...
saudades da tua face e teus olhos...
hoje senti saudade de te olhar...
saudades da tua voz...
mas senti saudades de te ouvir falar,
(de te ouvir tocar guitarra portuguesa...)
hoje senti saudades de ti ...
de te ver a trabalhar,
de te ouvir rir, pena não te ver envelhecer ...
ver-te chegar a casa, era uma casa cheia...
hoje olhei-me ao espelho, pensei em ti...
no verde de meus olhos vi saudade,
vi-te dentro do meu olhar, fiquei ali...
e fiquei nos meus olhos à vontade ...
pedi então a Deus p'ra adormecer
que pudesse ver-te, ainda que a sonhar
não pude dormir, pai ,
não pude... que a saudade
foi mais forte do que eu, pôs-me chorar..."
Fonte: BATALHÃO DE ARTILHARIA 1914 - Tite, Guiné/Bissau, post "Dia do Pai" de 19Mar2010.

sábado, 18 de março de 2017

Campo de merendas

Sonhei silvos de cigarras
E cantares de passarinhos
E mesas com bancos de madeira tosca
Em sala de jantar do campo
Sombreada e boa

Fogão a carvão
cozinha de antigamente
Neste lugar distante
Tudo é novo
Há desconhecido
e há diferente

Alguém prepara o petisco
Outro põe a mesa
Em talheres de ocasião
Uns e outros vivem o lugar
em permanente comunhão

Rede de índio
Esticada ao alto
Em soneca balouçante
devagar se escoa o tempo

No calor da tarde
Música de grilos
Acompanha o batuque das verdes folhas
em acordes batidos pelo vento

Anoitece
Mais tarde a Lua nasce a leste
Brilham as estrelas
e bem ao alto
vai passando o carrocel celeste

Ao serão
Canta o ruído da bicharada
E o murmurar da fonte próxima
e há temor
e cresce a adrenalina

Por um dia
Este é o meu quarto
Com paredes de vento
Soalho de folhas secas
Telhado verde de folhagem vária

Sem sobressalto desfruto
neste templo da natura
um concerto de emoções e música
de toda uma noite

Gozo um diálogo incessante
de eu para outros "eus"
que nascem dentro de mim
e que sinto que também são meus


Rui Moio
"22Ago2007 - Pensado ontem e redigido à tardinha no centro comercial Twin Towers"

sexta-feira, 17 de março de 2017

CHUVA QUE CAI DE MANSINHO

CORREM AS ÁGUAS PELA ESTRADA
CHUVA QUE CAI DE MANSINHO
SÄO PASSOS QUE PASSAM, CAMARADA
JUNTO A PORTA DO MEU NINHO
DOR QUE SENTE A ALMA, DEVAGARINHO
MELANCÓLICA SE ABRE A LUA
REFLECTE COMO ESPELHO EM MINHA RUA
A IMAGEM SUBTIL DA MINHA AMADA.

TRISTE PELA LONGURA DISTANTE
TROPEL DA GUERRA QUE ME INCENDEIA
SÓ ME SINTO, NESTE INSTANTE
TÄO PERTO E TÄO LONGE DE TI, ADORADA
DA ALEGRIA VEM A DOR QUE DESPREZADA
IGNORO, COMO VAGABUNDO ANDANTE
BUSCA COISA BOA, AMOR GALANTE
VIDA QUE ALIMENTA ESTA CANDEIA.

11/DEZ/1973

quinta-feira, 16 de março de 2017

A uma africana

nos teus olhos pestanudos
eu vejo um mar de desejos,
nos lábios, talvez carnudos,
um labyrinto de beijos.

a tua boca mimosa
é um cofre de coral
onde tu guardas vaidosa,
dentes brancos sem rival.

as ternas modulações
do teu olhar pausado,
dão-me às vezes tentações
de me matar a teu lado.

se fallas não sei que mago
som me attrahe e fascina;
parece, ao longe, n'um lago,
ouvir-se uma cavatina.

eu tenho um certo receio
de bem encarar de frente
o teu olhar, todo cheio
d'um fogo surprehendente.

as tuas faces para mim, -
- d'um moreno provocante,
são as rosas d'um jardim
de perfume estonteante.

na curva pronunciada
do teu collo admirável
poisa às vezes, confiada,
minha vista insaciável!

não sei que graça infinita,
que mystérios nelle vejo;
quem me dera ter a dita
d'hai matar um desejo.

n'um revolto desalinho
teus cabellos ondeados
parecem o fofo ninho
de dois pombinhos amados.

se teu conjuncto contemplo
sinto uma doce vertigem
julgo-me dentro d'um templo
adorando a santa virgem!

será feliz quem tu queiras
o que teu amor inflame;
gentil filha das palmeiras,
ngu xála, ngâna, ngui'âme (1)

(1)"Deixo-vos, Senhora, retiro-me"

quarta-feira, 15 de março de 2017

IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Fonte: Blogue "José Maria Alves, post de 17Ago2013.

Related Posts with Thumbnails