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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Língua-mãe

Volto a ser pequeno
como dantes para ir para a escola
onde aprendi os números e as letras
as ciências e as línguas.
mas desta vez não aprenderei
nem letras nem línguas
nem ciências nem números.

aprenderei a ouvir o povo das sanzalas
dos dongos dos rios das canoas do mar,
nos musseques e no morro da Maianga
as velhas contando coisas doutras eras.

que me interessa saber a língua de voltaire,
de Goethe e shakspeare,
se não sei o cantar das glebas negras?

se não sei o dizer dos marimbeiros,
os tocadores de tchingufos e kisanjis
quando entro calado pelos quimbos?

e o dizer compassado dos batuques
os cantos ritmados das massembas
as histórias do povo e as lendas do passado?


segunda-feira, 30 de março de 2009

Entardecer

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa

um barco que passa uma ave que voa
um desejo que fica pelo ar
azul e penetrante como o ar

passa o barco lentamente
passa a tarde passa a vida
e um vulto que ao passar canta baixinho

existe ao um ar tranquilo
sossegado como buda de marfim
quem disse que ali era a cidade!

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa.


Henrique Guerra (1937)

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