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sábado, 1 de dezembro de 2007

PARLAMENTO

Fanchete diz-me com a voz de prata
Mui perlada, gentil, voz de opereta:
- "Quero ir às cortes! - Fala o Alvim poeta,
Cuja eloquência d'oiro me arrebata."

Fomos lá. Antes fosse a uma regata!
Nunca vi num chinquilho o mais jarreta
Tanto verbo em tamancos, sem jaqueta,
- E tantos adjectivos sem gravata!

Fanchete sai de chofre toda irosa,
E disse-me abespinhada e cor-de-rosa:
- "Não mais virei aqui! Que cena reles!..."

Todos têm - repliquei - bota engraxada,
Marcam bem "cotillons", sabem taboada.
O que lhes falta pois?... Falta o "João Felix".

[Mefistófeles em Lisboa, 1907]

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Lua Morta

Almas sentimentais e ingénuas do lirismo,
que cantais do luar a luz que vos conforta,
- varrida por arroz, remoto cataclismo.
há milhões d’anos já que a antiga lua é morta.

Há milhões d’anos já que esse alvejante rastro,
que ela espalha nos céus e sobre o mar profundo,
não é mais que o lençol dum cadáver dum astro,
do espectro dum planeta e o fantasma dum mundo.

Há milhões d’anos já que, em torno à nossa esfera,
o morto globo gira, errante, solitário,
como o vulcão dum astro extinto e sem cratera,
- frio espectro de luz que arrasta o seu sudário!

Há muito é morta já . – Dessas mansões sidéreas
onde paira, não ouve os ais que nos consomem
E a ruína estagnou-lhe o sangue nas artérias,
- muito antes de nascer o primitivo Homem.

Paira nela um atroz silêncio d’ orfandade,
de sombra tumular, de mármore, de cripta.
Lembra as praças e os cais duma horrenda cidade.
Varrida pela mão duma peste maldita.

Reina uma assolação sinistra, imóvel, séria,
lá dentro. Faz lembrar este astro extinto e frio
a gélida extensão duma steppe funérea,
- sem trinos d’ ave, flor, bosque, nem voz do rio!

Que cataclismo atroz, que deus negro irritado
fez cair sobre este astro o açoute dos furores?
- Quem transformou em pedra este astro fulminado?
- Quem gelou seus vulcões, serras bosques e flores?

Que catástrofe antiga, ou negro deus perverso
este astro converteu em sombra inerte e fátua?
- Que látego, sem dó, fustiga esse universo,
e o faz errar nos céus – como uma branca estátua?

No meio dos rosais ou dos mirtais floridos.
que irrisória emoção, que aos astros pouco importa,
nos faz erguer as mãos, chorando, enternecido,
para essa sombra vâ – essa cidade morta?

E, no entanto, alma humana! Eterna atormentada!
tu quiseras ver perto a morta nau errante,
quiseras abordar à estranha nau gelada,
com seu porão sem voz, seus mastros de brilhante.

Tu quiseras cruzar – tu, a quem nada pasma! –
nesse barco espectral, excêntrico, sombrio,
que corta o azul dos céus como um batel fantasma,
ou sobre o mar do norte o espectro dum navio.

Tu quiseras saras as aflições internas,
nessa imóvel região, sem ar, nem movimento,
nesses bosques sem voz e noites sempiternas,
- onde não sopra um ai, nem folha, mar, nem vento!...

Tu quiseras, enfim, da Vida soluçante
ver quebrar-se o rumor nesse silêncio enorme,
e, como em vasta cripta os membros dum gigante,
repousa nessa paz imóvel e uniforme.

Descansa, Homem, porém! – Como uma vil lanterna,
morrendo, um dia, o sol regelará no Oriente,
e, nesse cataclismo e horror da noite eterna,
- os tristes sorrirão e dirão: - Finalmente!

Gomes Leal

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