Vêm agora
Empoleirados em camiões.
O único contacto
Com a terra
É quando saltam
Para a pisar.
Têm um coração
Que deve ser cego,
Por isso amparam-se
A uma espingarda,
Como os cegos
A uma bengala.
Caminham dos pés à cabeça
Carregando com a morte:
São muitos
Os que tropeçam já
Num sulco de terra.
Esses
Não tornarão a ver
O disco da aurora.
Outros se seguirão,
Um a um.
Esta
É a palavra
Dum coração que vê.
in Marthiya de Abdel Hamid Segundo Alberto Pimenta, 2005
Fonte: ALBERTO PIMENTA, ANTOLOGIA DE POEMAS AQUI E LÁ ESCARBADOS
terça-feira, 28 de março de 2017
Vêm agora
segunda-feira, 27 de março de 2017
Elegia
já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja
Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'
Fonte. Blogue "Citador"
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Cantiga do Soldado
Eu hei d’ir de Serra em Serra
Nossa Bandeira mostrar;
Havemos de ser na terra
O que já fômos no mar.
Ninguém me peça que fique
Que eu não quizera ficar;
Sol que brilhaste em Ourique
Tornas de novo a brilhar.
Hei-de levar ao meu lado
A guitarra sensual
Que vencer cantando o fado
E’ fado de Portugal
O’ soldados, a Ventura
Ha de ser nossa irmã;
Que depois da noite escura
Nasce o sol pela manhã.
Já diviso os arreboes
D’ um sol distante que vem
Mostrar que netos d’heroes
Hão de ser heroes também.
E se eu morrer não se zangue
Minha mãe… não leve a mal;
Tem sido feita com sangue
A história de Portugal!
Vou partir, vou para a guerra,
A todo o mundo mostrar
Que havemos de ser na terra
O que já fomos no mar!
Fonte: Blogue "A Voz Nacional" - post de 15Mai2008
sábado, 1 de dezembro de 2007
SOBRE UM MOTE DA SENHORA INFANTA DONA MARIA DE PORTUGAL
Eu passo as horas e os dias
Contando os meos desenganos,
E entre noites de agonias,
Se me vâo mezes e annos!
E olhando as magoas da alma,
Comigo, constantemente,
Sem uns minutos de calma,
- Já não posso ser contente.
Em olhos côr de esperança,
Puz minha esperança outrora,
Sem lembrar que tudo cança,
Que ha noite depois da aurora.
E eu que nelles esperei,
Pondo nelles minha vida,
E em sua luz me tentei,
- Tenho a esperança perdida.
Outros soffrem como eu,
Mas isso não me acarinha,
Que o meo amor não é meo,
Nem a minha amada é minha!
Que me importa o mal alheio,
A desgraça que outrem sente,
Se por ser de males cheio,
- Ando perdido entre a gente?
E assim neste desespero,
Nesta amargura em que vou,
Nem já sei bem o que quero,
Nem já sei bem o que sou!
Captivo dos olhos d' Ella,
NElla presa a alma dorida
Pois que tive de perdel-a,
- Nem morro nem tenho vida!
[O Livro das Chymeras, 1922]
PARA QUÊ?
Revelar um segredo - para quê?
Para quê decifrar o enygma extranho
Que escondido em meos labios eu contenho,
Que só eu sei, e que ninguem mais vê?
Dizer o que a minha alma escuta e crê,
Este sonho que em flôr na alma tenho,
Sonho para onde vou, e donde venho,
dizel-o e revelal-o, - para quê?
E se o meo coração vive isolado,
Abandonado coração magoado,
Neste tumulto de um viver sem fé,
Que importa aos outros o que sonha e sente?
E se elle sonha mysteriozamente,
Decifrar-lhe o mysterio - para quê?
[O Livro das Chymeras, 1922]
NAVIO FEITICEIRO
Pelas tardes quando descem, sobre os longes do alto-mar
A tristeza e a saudade feitas névoas a descer.
Corro à praia desolada, na esperança de avistar
Um navio feiticeiro que me venha socorrer.
Olho os longes esfumados que se perdem pelo ar
Interrogo no horizonte qualquer nuvem a nascer.
Só as ondas inquietas, só as ondas a penar
Que não sabem pobres delas o que hão-de responder.
E prometo-me a mim próprio nunca mais voltar à praia
Pelas tardes a aguardar o navio feiticeiro
Que eu sonhara que viria para mim p.ra me salvar.
Mas se vejo que nas ondas lá por longe a luz desmaia
Corro à praia interrogando o mistério, o nevoeiro
À espera de um navio, que uma tarde, há-de chegar.
Ó Mocidade, de culpas inocentes
Ó Mocidade, de culpas inocentes,
Mocidade que passas, transviada
Na esteira da bandeira hoje existente
Que simboliza a Pátria atraiçoada.
Ó Mocidade, ó Mocidade ardente,
Alto! faz alto! É outra a tua estrada...
Outro o rumo do límpido oriente
Pra onde deves ser encaminhada.
Ouve as minhas palavras! E que a glória
Dos feitos imortais da nossa História
Teus passos guie, em marcha triunfal!
A República exiu duma traição,
Pra sujeitar a indigna escravidão
A alma senhoril de Portugal!


