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sábado, 19 de julho de 2008

Trovas do Exílio - I

via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/16/08
Eis o Grão-Soba que na embala primeiro
habita, o Vice-Rei de Maconge em iluminada
sala observa e ao bardo macongino, por inteiro
lhe narra os feitos da invencível armada
que em outros tempos o Cunene viu fragueiro.
Dos mundimbas se ouviu a poderosa batucada
lá na Oncócua feudo da alvoroçada gente
que se estende pela savana até ao Oriente.

Se os velhos pioneiros que andaram
tantas terras para verem os segredos delas
no florido planalto da Huíla se ficaram
por certo nós hoje faremos dos sonhos as velas
que com o vento da tradição se insuflaram.
Rumaremos às novas gerações e as virgens telas
pintaremos em chicoronhas tonalidades
a História feita em angolanas idades.

E deu-me o Vice-Rei do seu trono licença
para narrar em verso bem acabado
o famoso acontecimento que sem detença
faço agora de ricos versos adornado.
Do Dongue, seus vassalos de fortuna imensa
foram feitos sobas no mungambo condado.
O ilustre Muhona feliz bem recebe
enquanto a turba contente come e bebe.

A batucada foi tão forte que usada na guerra
ao inimigo os mungambos fizeram dano;
e assim, não tendo já a quem vencer na terra,
vão em grandes saltos acometendo o oceano
de capim que s'espalhando até à finisterra
faz da chana a pátria eleita do africano.
E já se vê de ceptro sobal, maboque e piteira
o Soba Donguense D. Carlos Marques Vieira.

Trovas do Exílio - II

via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/16/08
E na embala do Vice-Rei mais se ouviu
dos feitos dos barões que o Reino dilataram
e até das palacianas intrigas se permitiu
que fossem em verso cantadas e provaram
não ser certo o que antigamente se ouviu
em cochichos que outrora se espalharam:
Nunca o Vice-Rei o Título de Soberano
ousou retirar ao dos Suseranos o Suserano.

E também se contou que a ímpia gente
do Mar das Antilhas, a Senhora do Monte roubavam
deixando a branca capelinha num repente
sem a imagem que os naturais tanto amavam.
Levantou-se então um brado tão potente
do peito dos muílas que ali estavam
que os estrangeiros recuaram sem tardar
colocando a veneranda imagem no seu lugar.

Ainda os filhos do Mucúfi o exílio escuro
não conheciam ou nele pensavam,
na huilana terra de clima ameno e puro
a feroz jornalista Fernandina julgavam
na solene escadaria de mármore duro
onde os nobres do Reino se assentavam.
Depois que D. Adrega, Bispo santo perdoou
a inimiga depôs as armas e chorou.

Que este Reino da fantasia e da lenda
permaneça pelos tempos sem parança
pois em seu espírito é banhada a legenda
que o Duque do Chaungo ora avança
alevantando a sua bandeira estupenda:
acima o Reino de Maconge que a rubra lança
se espete na armadura azul do firmamento
para que a sua glória não caia no esquecimento.

Trovas do Exílio - III

via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/18/08
De Coimbra a Musa partiu a exercitar-se
nas Terras Altas da huilana Minerva
e do Mondego fez passar-se
a pisar da Planalto a fértil erva.
Quanto pode do Choupal desejar-se
tudo o soberbo Apolo ali reserva.
Aí as flores são tecidas a ouro
e o capim é sempre verde louro.

Nobres sobados o chicoronho edificou
chitacas, arimbos mui seguros,
e quase o Reino todo transformou
com edifícios grandes e altos muros.
Mas depois que o Feiticeiro da Guerra cortou
o fio de seus dias já maduros,
foi-se a Terra, veio a fuga desordenada
e para a hispânica eira foi de abalada.

Nunca com outras Razias gente tanta
veio o lusitano campo enchendo.
E o Reino de Maconge os Deuses ora espanta
por a todos unir num abraço estupendo,
a huilana gente do bárbaro fugindo levanta
a tocha arrancada ao abraço horrendo
da Morte. Ao longe o fumo espesso da granada
a esventrar toda a terra civilizada.

Agora que as Ninfas do Mondego se calaram
Se alevantem as Caculovádis1 da Morte escura
Pois as lágrimas choradas se transformaram
Por memória eterna, em fonte pura.
O nome lhe puseram, os que por ali passaram
de Senhora do Monte, que inda dura.
Vêde que fresca fonte rega as raízes
dos Maconginos, mortais felizes.

E vale a pena cantar o poderoso Reino-Império
que das terras de Maconge ao Cuanhama
D. César da Silveira sem vitupério
conquistou com garbo e gloriosa fama.
Vós, poderoso Rei, que do assento etéreo
onde subiste, a bênção sobre nós se inflama,
Vêde dos chicoronhos feitos valorosos
entre caputos feros e numerosos.

Os Sobas e os Lengas lembrados
que, do Austral planalto huilano,
por rios nunca dantes atravessados
passaram para além do mato africano
em feitiços e macas esforçados,
mais do que aguentava o querer humano,
e entre lusitanas gentes edificaram
Novo Sobado, que tanto sublimaram.

E também as lembranças gloriosas
daqueles pioneiros que foram calando
a sede da bulunga que em terras grandiosas
do Lubango e da Chibia andaram devastando,
e aqueles que por ressacas famosas
se foram da Lei da Morte libertando.
Cantando espalharemos por todo o lado
se a tanto nos levar o poético brado.

Cessem do tripeiro ferino
as brutezas grandes que houveram.
Cale-se dos alfacinhas e do coimbrão ladino
a fama das tradições académicas que tiveram,
que nós cantamos o peito ilustre macongino
a quem Baco e Cupido obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa portucalense canta
que Outro clamor mais firme se alevanta.

Eis que o Novo Rei se mostrou
D. Saraiva de Oliveira, o primeiro
deste nome que ao Reino adiantou
colocar no caminho verdadeiro:
do tempo do Caprandanda já cantou
a tradição do Macongino inteiro.
O Soba de Aveiro e o Barão do Tchimpumpunhime
ousarão aumentar o Reino para lá do lime.

E o poderoso Rei, a quem do Planalto puro
foi da mapundeira tradição concedido
impor ao macongino povo seguro
nobres títulos que o farão conhecido
em todo este Continente duro.
E com seu porrinho real e temido
na magnífica Ceia investiu os novos sobados
aos filhos da Huíla nobilitados.

E disse: Ó macongino ousado, mais que quantos
no mundo souberam fazer académicas cousas,
tu, que por baptismos afogados, tais e tantos,
e por julgamentos vãos nunca repousas,
pois as sagradas cerimónias e quebrantos
como carrasco investir ousas,
que há tanto tempo o caloiro teme
que ainda não o sendo, já geme.

Pois são tão importantes os segredos escondidos
da nossa gente e do seu grande alento,
a nenhum outro humano concedidos
de nobres e de imortal merecimento.
Que os cavaleiros desta távola sejam espargidos
com o nompeque perfumado do sentimento
para poderem cantar a Huilana Terra
lá longe ferida por fratricida guerra.

1 Ninfas do Caculovar

Trovas do Exílio - IV

via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/18/08
Da parte donde a noite vem morrendo
com Sines se avizinha; mas o rio
que do interior alentejano vai rompendo
enche a mulola onde o Vice-Rei teve frio
quando a tipóia real se ia perdendo
no tabaibal imenso do vasto senhorio.
O Baronete lembra-se já das arenosas
terras do Namibe, tão saudosas.

Pelo chão escondido a tipóia real
aos solavancos ia andando na terra dura
tão áspera eram as picadas, por sinal
bem próprias para tudo o que é aventura.
Envoltos todos na poeira fina do areal
anseiam já, esfomeados, pela mansão segura
onde o banquete com manjares desusados
apresenta chincúio, bacalhau e patos estufados.

O grão-Duque do Lubango determina
com palavras altas de Louvor
que um antigo macongino se destina
a ocupar um alto cargo de pendor:
Ministro Plenipotenciário será a sina
de quem até hoje foi Itinerante Embaixador.
Parido no Deixa-o-Resto por Decreto-Lei
espera-o a Fama e a Glória na nossa Grei.

Levantando-se D. Canduzeiro meneando
três vezes a cabeça branca e descontente,
a voz pesada aos poucos engrossando
vai chegando até nós solenemente.
E disse ao Secúlo de aspecto venerando
antes preferir ser Embaixador da plebeia gente
do que contentar o Vice-Rei com o ofício novo,
ser ministro de nobres e não do povo.

Lançando a mão de uma caixa que continha
suspiros de neve da D. Alexandra Portela
o Plenipotenciário Ministro como convinha
distribui os doces pelos nobres que amá-lo
passaram, porque na memória o gesto se retinha.
E as cornucópias do Gavino, ao recordá-lo
D. Saraiva d'Oliveira falou de sua fama
na Huíla, o Grão-Sobado que se proclama.

Também foi vista imagem acesa
de Moçâmedes, a flor d'areia se apartando
no corpo levando a Welwitchia presa
qual polvo verde da secura triunfando.
O namibeano deserto ia com firmeza
do corpo fresco do Planalto s'encostando
oferecendo sua fauna rica e diferente
num alambamento enorme ao Poente.

A Torres Vedras proclamou o Soberano
Mulemba Frondosa de copa rara
onde se refresca o sedento humano
e se banha na água doce e clara
aquele que veio do sertão africano.
Ali, onde o divino néctar molhara
num Oásis gargantas mil
dois meses iam para além d'Abril.

Vou cantando o Povo que se admira
por ter vencido a guerra que o assolou.
Mesmo em terra estranha as forças tira
do corpo que longos caminhos calcorreou
Neste ano que cem cacimbos o Lubango atira
ao Destino que duramente o marcou,
o Povo acalenta a dor nos maconginos braços
fortes na tradição dos chicoronhos Paços.

Vai de vira, ó vira, ó vira, ó vira
mas que grande e belo compinchão
que bem comporta e longe atira
na garganta seca o meu quinhão!
Primeiro camarada, ó vira, ó vira,
ó que calor, que gostosa sensação,
e o Baronete do Namibe compõe na lira
a canção que a Grã-Duquesa lhe pedira.

E agora, de nomes probos e de usança
novos e vários são os habitantes:
o Barão das Mornas o copo já avança
para o líquido de vapores estonteantes
e o "Príncipe dos Trovadores" lança
no pergaminho palavras ressonantes.
E a manhã foi nascendo sem cor
pois desmaiada estava já a poética flor.

Trovas do Exílio - V

via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/18/08
Sempre eu cuidei, ó Grão-Duque poderoso
que, para as coisas da nossa gente,
eu estaria sempre lesto e operoso
a fazer estrofes, onde a poesia em corrente
fale das alegrias ou do caminho doloroso
que connosco vai seguindo obediente.
Assim do Reino cantarei o novo e o velho
como no Lubango ensinou D. Rui Coelho.

Na matutina luz, o Visconde de Maconge fazia
os Macongíadas de ilustre fama
enquanto a lua no céu da Huíla aparecia
aquecendo os corações em cálida chama.
O estudante da capa na noite surgia
para fazer uma serenata à meiga dama
que no colégio olhava da janela
para o Cristo-Rei, guardião da Chela.

Já pelo ar a imagem huilana bem voava
para no écran fixar a benesse
que o macongino no coração levava.
Com o olhar solto que não falece
a magia explode e o encanto ousava
colocar onde o pinheiro se enrijece
o mutiáti, a mupanda e o imbondeiro
e do manhéu o forte cheiro.

E disse mais D. António naquele momento
ter vendido por 17$50 o seu casaco santo
para poder ir à primeira Ceia, e o pensamento
refugiou-se no velho Liceu sacrossanto
onde as carecas dos caloiros doutro tempo
gemiam ao jugo dos veteranos de negro manto.
Viva a malta do chicoronho Liceu!
Viva a malta desse sonho que se não perdeu!

A noite ia passando, na festiva rota
com alegria de saudade misturada
por acharem os maconginos a terra tão remota
a nossa Huíla há tanto tempo abandonada.
Qualquer então consigo cuida e nota
ser caprandanda gente no Puto exilada
esta que aqui e agora canta e bebe
o vinho que desta terra gentia bem recebe.

Os filhos e companheiros de Tebano
que tão diverso néctar nos deixou
ouviram de seguida o discurso ufano
de quem palavras duras arremessou.
A Grã-Duquesa quebrara o "silêncio" insano
que o protocolo desde há muito fixara:
Pelas mulheres maconginas foi exigindo
que o facho do amor a todos fosse unindo.

Trovas do Exílio - VI

via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/18/08
Quando a tarde passar, na comboiada frota
com grande alarido em verso cantada
achareis os maconginos que a tão remota
terra aveirense agora vão de abalada.
Qualquer então consigo cuida e nota
nos sobados a praxe mais ousada,
e como os que de fora do Reino cresceram
sem a força da tradição que outros conheceram.

Vede quantas carruagens nesta viagem
que fazemos, transportam as subidas
ideias que em outra distante paragem
foram pelos antigos veteranos concebidas.
E do primeiro comboio que passagem
faz agora por estas terras insofridas
nós faremos de improviso em tempo incerto
um épico canto sem limite certo.

Na Ceia-Grande de Aveiro se viu
velhas e novas gentes d'outra enseada
onde o Caculovar se enchia, nem outro rio
tanta fama logrou ver por si apartada.
O Duque do Chaungo tomado de súbito frio
à pipa do doce néctar deu uma olhada
pois a costa de corsários estava cheia
donde já se via latejar a tinta veia.

Os Sobas e Macotas liam já os sinais
que no fundo dos copos o macau deixava ver
e as libações a Baco eram cada vez mais
com o líquido santo sem parar de correr.
Lindos eram os olhos das Vestais
onde transparecia a felicidade de poder
abençoar os antigos Bispos do Liceu
onde, por tanto tempo, o chicoronho acorreu.

Os filhos do Mondego a capa escura
sobre os ombros trouxeram e cantaram
por memória eterna e mui segura
o fado de Coimbra que ali transformaram
em tributo precioso de fonte pura.
Agradeceram os maconginos e choraram
por ouvirem a balada e o fado com fervor
porque eram belos os versos de amor.

Levantando-se o estrangeiro rubicundo
a gaguejar na língua hispana
nos disse: A vós que sois d'outro Mundo
da longínqua e formosa terra angolana,
eu vos testemunho o prazer profundo
de quem vindo da pátria peruana
tanta amizade junta nunca viu
nem tão forte comoção sentiu.

Do Porto a embaixada com seus instrumentos
que pelos etéreos paços vão soando,
no Sobado tocam doces lamentos
que a todos vão suavemente reconfortando.
Um súbito silêncio atordoou os ventos
pois o Barão das Cordas Lisas murmurando
palavras muflas com súbita euforia
inseriu-as no fado com real mestria.

Trouxe o filho de Camuhóque do Céu
o fogo que acendeu no peito humano
quando de improviso a sala dele recebeu
as palavras do Guerrilheiro sem engano.
Assim o Soba comovido agradeceu
o novo título, e o Vice-Rei ufano
ordenou que para sempre a humana geração
recordasse essa nova e nobre condição.

O Barão do Tchimpumpunhime com a vaidade
que com equilíbrio lhe modela a fantasia
leva o Povo ao seu palácio onde a qualidade
da sua bela garrafeira surpreenderia
até o Deus Baco (oh! Leviandade!)
O líquido que borbulhar ali se via
era tanto e de tão estonteante sabor
como não havia em África, Pérsia e Cananor.

Vimos estar todo o Maconge determinado
em fazer de Aveiro terra gentia
um novo e distinto Ducado;
e ao seu Soba Grande, o valoroso Chibia,
Duque do Chaungo, ser-lhe dado
o título por mor de sua valentia.
Que os Trovadores cantem em lindo verso
por todo o Reino ora tão disperso.

E sendo assim, que a explosão da amizade
entre nós maconginos sempre aconteça,
pois estaremos prontos na adversidade
que por guerras à Grei se ofereça,
e o nosso Rei, D. César da Silveira, há-de
da parte incerta onde quer que permaneça
abençoar a nossa boa gente
em plaga estranha abandonada infamemente.

O Duque do Chaungo, forte ficara
imitando os antigos nobres na ousadia
de quem por bem já há muito experimentara
em Grandes Ceias que o tinto tingia
de rubra cor; e o muíla batucara
em honra do dilecto filho da Chibia,
e mais quando os do Lubango em vão tentarem
sorver mais do que ele, e longe ficarem.

A corneta de chifre de olongo num lamento
imagem da guerra fez nos ares;
o som bélico daquele instrumento
que os deuses africanos d'outros lares
abençoaram em feliz momento,
confundiu o caputo (nos seus) esgares
porque não compreendia o cerimonial novo
que ali fazia o macongino povo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Trovas do Exílio - VII

via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/18/08
Já se viam chegados todos à terra
que procurada já por tantos fora
porque duas Ceias já encerra
na sua história vencedora.
Ora, hoje já se vê com que guerra
irão comer a caldeirada de albacora
o macongino que chegado tem adiante
churrasco, arroz-doce e vinho abundante.

E, como a gente vinha a desejar
que o Soba d'Aveiro que ali s'assentava
fizesse o seu discurso a falar
como o Jonas que ali não estava,
fez-se silêncio para aquele começar
a palestra original que só ele ousava.
Todos como que acordados se sentiram
voando nos espaços donde fugiram.

Com a vista turva já olha a planura
das austrais terras que não se compadecem
de longe terem ficado na espessura
dos matos de mutiáte que reverdecem.
Assim se vê o huilano, que a ternura
tinge os gestos que ali permanecem,
perdido na franja da saudade ardente
espargida com vinho entre tanta gente.

O Plenipotenciário Ministro enfurecido
por Baco exigiu que se fizesse julgamento
ao bárbaro que ali se encontrava atrevido
porque não sendo do Reino, com alento
se assentava na mesa onde ceva com alarido
o macongino povo de tanto merecimento.
O Vice-Rei porque a capa negra não levou
o bárbaro Faustino no nosso seio aceitou.

Das muitas histórias que se contaram
à volta da grande mesa em ferradura
que no Deixa-o-Resto concertaram,
destacou D. Canduzeiro a certa altura
a dos churrascos que bem desossaram
num baile da Mapunda. A fartura
de ossos era tal que um cão esfomeado
em baixo da mesa foi logo colocado.

Depois da inesperada tempestade,
nocturna coca-cola que o milagre atento
veio transmudar em vínica qualidade,
a Grã-Duquesa discursou o atrevimento
da Morganda que na negra escuridade
quis envolver o seu real talento:
no Reino de Maconge sempre aconteceu
beber ela o que o Vice-Rei bebeu!

E como foi um corajoso acto
pediu por isso a Grã-Duquesa
que o poeta do Reino de facto
ali declamasse com arte e beleza
em honra de quem vindo do mato
ousara desafiar a realeza.
Em mufia cantou logo o trovador
sendo o Duque do Chaungo o tradutor.

Chegado era o momento prometido
em que o Grão-Duque já aguardava
que o Campino, à sua voz submetido,
se ouvisse como bem se esperava.
Sobre o trono se elevou comprido
e por cima de nós bem declamava
o ribatejano que ganhara fama
perdendo-a agora o bravo cuanhama.

Logo que a última sílaba do "Campino"
deixou de se ouvir na noite alta
e do touro ribatejano o trágico sino
deixou de tinir e se pôs em falta,
lançou-se o trovador como um felino
para o meio do salão onde estava a malta.
Saltou e dançou como um pastor muíla
em homenagem às gentes da Huíla.

Da terra africana lhe respondiam
as lembranças que na alma lhe moravam,
que sempre nos seus olhos traziam
quando de sua terra se apartavam.
Naquela noite que os canculas se ouviam
os gestos ritmados celebravam
as chanas onde os bois às centenas
eram pássaros de coloridas penas.

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