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terça-feira, 18 de abril de 2017

ADEUS, IRMÃO BRANCO!


 Geraldo Bessa Victor

ADEUS, meu irmão branco, boa viagem!

Chegou a hora de você voltar
para a Europa, a sua terra.
Quando você chegar, há-de falar
dos encantos que encerra
esta África Negra, tão distante,
tão distante, irmão branco...
Pois eu quero, neste instante
da partida, pedir-lhe uma promessa:
-- Não se esqueça da alma do negro,
não se esqueça!

Você há-de falar das terras africanas,
da mata e da cubata,
dos montes e das chanas;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar do sol fogoso,
das caçadas e queimadas,
das noites que viveu em batucadas
no mais feiticeiro gozo;
mas não se esqueça da alma.

Vai falar do café, do algodão, do sisal,
da fruta tropical, enfim, de toda a flora;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar dos negros no seu mato,
da negra tentadora
de corpo sensual,
mostrando até retrato;
mas não se esqueça da alma.

Adeus, meu irmão branco! Lá na Europa,
quando falar da tropical paisagem,
não se esqueça da alma do negro.

Adeus, meu irmão branco, boa viagem!

domingo, 7 de julho de 2013

Quitandeira

I
quitandeira dos muceques,
ó minha antiga ama que já me deste mama,
dá-me agora um mamão, dá-me agora uma manga, dá-me
caju, goiaba, laranja!
é o complexo infantil que toma a minha voz
nesta visão em que me escuto
e me transporto de ontem para hoje?
(a saudade é o sabor agridoce do fruto
na boca amarga de homem feito,
que já foi boca doce de menino-de-leite.)

II
quitandeira de mamão, goiaba,
caju, laranja, manga,
- quitandeira que te perdes no abismo
da quitanda da vida,
porque me embriagas?
vem buscar a moeda do lirismo
com que o meu olhar te convida.
(o meu anseio é sede ou fome?
ainda sou menino, ou já sou homem?)

III
quitandeira dos muceques de luanda por onde anda
a minha antiga ama,
dá-me fruta da tua quitanda
(também o corpo, ou só a quinda?),
dá-me, dá-me...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cântico a Cabo Verde


quem foi que semeou estes pedaços
de áfrica no mar?
alguém que desejou fundir áfrica e europa
no mesmo sonho, no mesmo abraço,
na mesma voz, no mesmo olhar...

cabo verde, cabo verde,
arquipelago das ilhas encantadas
no meio do mar atlântico
por mãos sagradas...
vem do fundo das ilhas esse cântico
que flui dentro de nós nas noites de luar!

são vicente, santiago,
santo antão, fogo, brava...
a velha canção escrava,
sepultada nas ilhas outrora,
ressuscita liberta nas mornas.
(saudade minha, porque te adornas
com o pranto das lendas que trago
no meu lirismo de agora?)

cabo verde, cabo verde,
terra onde o amor se perde
e se redime na paixão ardente...
- vou cantar as tuas mornas,
na saudade da gente
e de todos os seres
que vivem nas tuas ilhas,
onde em sonhos eu sou...
e quero amar em ti as formosas mulheres
nascidas do teu ventre, as tuas filhas
encantadas que só o amor desencantou.

cabo verde, cabo verde,
ilha das ilhas prenhes de beleza e de dor,
paraíso crioulo que se perde
e se redime no amor!

Fonte: Blogue "Angola: os poetas", post de 27Ago2012.

sábado, 11 de setembro de 2010

A noite já não conta missossos

A noite já não conta missossos

via Angola: os poetas by kinaxixi on 9/1/10

a noite
já não me conta missossos
com que dantes me encantava
nem propõe jinongonongos
à minha adivinhação.


o vento
não é a voz dos cazumbis.


a chuva
não é o pranto dos deuses mortos
trovejando na sanzala.


a lua
não é o feitiço branco
para além do milongo do quimbanda.


agora os homens constroem
com artifício a noite, o vento, a chuva, a lua,
edificando o mundo
sobre os destroços
do espírito dos meninos.


a noite
- a velha avó negra -
já não conta missossos nem propõe jinongonongos
aos monandengues deste mundo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Soneto ao mar africano

Soneto ao mar africano

via Angola: os poetas by kinaxixi on 4/20/10
Ó grande mar, que banhas estas plagas
africanas, em ti ouço recados
dum mundo a outro mundo, nos teus brados
de prantos, risos, orações e pragas!

na dramática voz das tuas vagas,
escuto os que, nos séculos passados,
choraram nesse canto dos teus fados,
cantaram nesse choro em que te alagas…

na tua voz eu ouço o branco bravo,
que semeou Portugal nestes recantos
africanos, e ainda o negro escravo

- ao mesmo tempo indómito e servil –
que regou com seu sangue e com seus prantos
a semente fecunda do Brasil!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Natal (poema em prosa)

via Angola: os poetas by kinaxixi on 12/17/09
Há anos, na noite de Natal, numa cubata do mato angolense, uma família de tribo indígena, em cujos corações já soara a mensagem divina através da palavra portuguesa, celebrava, na sua ingenuidade pitoresca, o nascimento do Filho de Deus, à maneira da civilização cristã.

Havia uma nota originalíssima no figurativo quadro clássico. Ao canto da cubata estava construído um pequeno presépio feito de adobe, com capim e folhas de palmeira, com os reis magos e pastorinhos e, deitado em esteira de mabu, o monandengue Jesus, boneco feito de pau, pintado de preto.

Eis o milagre do amor no Natal de Cristo.
Há vinte séculos Jesus Cristo nasceu, numa manjedoura, em Belém de Judeia. Mas todos os anos através dos tempos, neste dia, ele nasce nos palácios sumptuosos e choupanas da Ásia, nas vivendas ricas e casinhotas da Europa, nos arranha-céus colossais e bairros pobres das Américas, nas cidades e vilas da África, sob a música dos sinos e das harpas, e já nas sanzalas típicas da África Negra, ao som dos quissanges e marimbas.
Na sua materialidade exótica, aquele quadro da cubata revelava a verdade eterna do espírito, não ofendida nem falseada: Jesus nasce no coração de cada ser humano, em todos os povos e raças, porque Ele é, milagrosamente, o Deus-Menino de toda a gente.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Voz imortal

Fui hoje dedilhar meu antigo quissange,
que abandonara um dia
milagre: já não tange
o choro das antigas vibrações,
mas sim novas canções e novos hinos
de dor e de alegria!

bati no bumbo roto,
que eu já deitara fora.
- nasceu um som potente,
mais belo de que outrora,
entrando mais no espírito da gente.


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Eis-me navegador


Eis-me navegador. um sonho abarco.
a vida é mar, a vida é toda um mar.
e quem tem alma e sabe o que é sonhar
- há-de lançar às águas o seu barco.

heróis – fernão, colombo, gama, zarco!
mistério, assombro, - a vaga, a noite, o luar,
o espaço, o vento, a chuva, a nuvem, o ar…
- adonde a calma, o rumo, o porto, o marco? –

mas uma força interna me estimula
para que eu vença a onda e o vendaval.
tanto mais quando o vento brame, ulula

e o mar ameaça abrir o hiante seio
eu tenho a fé e o sonho de Cabral
em busca do Brasil do meu anseio!


quinta-feira, 26 de julho de 2007

Quando surges na noite...

   Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...

Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.

Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...

Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!

Poema para a Negra

   Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volupia vã do pitoresco,
entoem madrigais á tua dor.

Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que teem sabor de manga.

Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista facil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.

Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captaçãoo atonita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...

Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a propria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!

Ode à Avó Capinha

   Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
hoje que morreste (que tristeza a minha!),
relembro as histórias que tu me contavas
em manhãs de chuva, nas noites de lua...
(E meu ser, magoado, perde-se, flutua
como o sonho errante das almas escravas).

Minha avó Capinha, sou eu que te peço,
conta-me o romance, conta-me o sucesso
dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!),
quando tu dançavas belas batucadas,
pelas noites quentes de febris queimadas,
na velha sanzala que se incendiou...

Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
conta-me essa lenda daquela mocinha
negra, tão formosa, que numa manhã
engoliu um bago de feijão macunde
e ficou (que mágoa no meu ser se funde!)
para todo o sempre pequenina, anã.

Minha avó Capinha, hoje que morreste,
manda-me notícias da mansão celeste:
se também há ódios ou há só amor
(a descrença enorme do teu pobre neto!),
se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto,
ou um Deus existe sem raça nem cor.

O Feitiço do Batuque

   Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.

Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.

Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!

A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!

O Menino Negro não entrou na roda

             O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas - as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas , gargalhadas francas...

menino negro não entrou na roda.

E chegou o vento junto das crianças
- e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.

O menino negro não entrou na roda.

Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus vôos, cantando seus hinos...

O menino negro não entrou na roda.

"Venha cá, pretinho, venha cá brincar"
- disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quiz, não quiz...

o menino negro não entrou na roda.

O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar cego,
ficou só, calado com voz de morto.

Não venhas mais ao cais, Menina Negra

   Não venhas mais ao cais, menina negra.
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!

E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...

Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.

Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!

Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...

Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!

Lamento da Maricota

  - "Bom dia, senhor José.
Como passou? Passou bem?"

Mas o senhor José virou a cara,
rudemente, com desdém.
E a pobre Maricota, que passara
mesmo ao lado,
a Maricota ficou
a cismar, a dizer com ar banzado:

-"Aiué, senhor José!
Para quê fazer assim?
Não se recorda de mim?
Pois, então, eu vou ser franca.
Agora tem mulher branca,
a senhora dona Rosa,
a sua mulher casada,
a quem chama "minha esposa";
já não quer saber da preta,
desprezada, abandonada,
a Maricota, coitada!

Agora veste bom fato,
estreia lindo sapato;
não se lembra do passado,
quando usava calça rota
e casaco remendado,
e sapato esburacado
mostrando os dedos do pé...

Aiué, senhor José!

Hoje está forte e contente,
a passear na avenida;
não lembra que esteve doente,
muito mal, quase morrendo,
e lhe dei jula de dendo,
para lhe salvar a vida,
pois nem doutor em Luanda,
nem quimbanda no muceque,
ninguém o curou, ninguém,
senão eu, pobre moleque!

Agora já cheira bem,
com boa perfumaria,
quer de noite quer de dia;
não se recorda, afinal,
da catinga, do chulé,
no tempo em que lhe dizia:
- José, voçê cheira mal,
vá tomar banho, José!

Veio agora de Lisboa,
comprou uma casa grande,
dorme numa cama boa;
nós tínhamos, lá no Dande,
a cubata de capim,
e dormíamos no luando.

Agora tem dona Rosa,
já não se lembra de mim!

Aiué, senhor José,
para quê fazer assim!?...

Dia de Chuva no Mato

   Chove,
   E a trovoada
   é um batuque incessante,
   uma estranha batucada.

   Os raios são setas de fogo
   que mesteriosamente, em tom de guerra,
   espíritos do mal lançam da Altura
   para incendiar a Terra.

   O vento
   Ora violento, ora brando,
   o vento é o cazumbi dos cazumbis
   -o deus do mar, do rio e da floresta-
   que vai cantando e dançando,
   em tragicómica festa,
   o seu coro de mil vozes,
   os seus bailados febris.

   As nuvens negras são virgens tontas,
   quais almas do outro mundo,
   errando como sonambulas
   pelo céu negro e profundo...
   E a chuva, constante e forte,
   é o pranto (parece eterno)
   dos deuses negros que a Morte
   sacrificou no Inferno.

As raízes do nosso amor

Amo-te porque tudo em ti me fala de África,
duma forma completa e envolvente.
Negra, tão negramente bela e moça,
todo o teu ser me exprime a terra nossa,
em nós presente.

Nos teus olhos eu vejo, como em caleidoscópio,
madrugadas e noites e poentes tropicais,
- visão que me inebria como um ópio,
em magia de místicos duendes,
e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)

A tua voz é, tão perturbadoramente,
a música dolente dos quissanges tangidos
em noite escura e calma,
que vibra nos meus sentidos
e ressoa no fundo da minh'alma.

Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo
o gosto do caju, da manga e da goiaba,
- sabor que vai da boca até às vísceras
e nunca mais acaba...

O teu corpo, formoso sem disfarce,
com teu andar dengoso, parece que se agita
tal como se estivesse a requebrar-se
nos ritmos da massemba e da rebita.
E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,
me desperta e me convida
para um batuque só nosso,
batuque da nossa vida.

Assim, onde te encontres (seja onde estiveres,
por toda a parte onde o teu vulto fôr),
eu te descubro e elejo entre as mulheres,
ó minha negra belamente preta,
ó minha irmã na cor,
e, de braços abertos para o total amplexo,
sem sombra de complexo,
eu grito do mais fundo da minh'alma de poeta:
- Meu amor! Meu amor!

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