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sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril de 1974

Duzentos capitães! Não os das caravelas
Não os heróis das descobertas e conquistas,
A Cruz de Cristo erguida sobre as velas
Como um altar
Que os nossos marinheiros levavam pelo mar
À terra inteira! (Ó esfera armilar, que fazes hoje tu nessa bandeira?)
Ó marujos do sonho e da aventura,
Ó soldados da nossa antiga glória,
Por vós o Tejo chora,
Por vós põe luto a nossa História!
Duzentos capitães! Não os de outrora…
Duzentos capitães destes de agora (pobres inconscientes)
Levando hílares, ufanos e contentes
A Pátria à sepultura,
Sem sequer se mostrarem compungidos
Como é o dever dos soldados vencidos.
Soldados que sem serem batidos
Abandonaram terras, armas e bandeiras,
Populações inteiras
Pretos, brancos, mestiços (milagre português da nossa raça)
Ao extermínio feroz da populaça.
Ó capitães traidores dum grande ideal
Que tendo herdado um Portugal
Longínquo e ilimitado como o mar
Cuja bandeira, a tremular,
Assinalava o infinito português
Sob a imensidade do céu,
Legais a vossos filhos um Portugal pigmeu,
Um Portugal em miniatura,
Um Portugal de escravos
Enterrado num caixão d’apodrecidos cravos!
Ó tristes capitães ufanos da derrota,
Ó herdeiros anões de Aljubarrota,
Para vossa vergonha e maldição
Vossos filhos mais tarde ocultarão
Os vossos apelidos d’ignomínia…
Ó bastardos duma raça de heróis,
Para vossa punição
Vossos filhos morrerão
Espanhóis!

Redigido para o 10Junho de 1975
Fonte: Blogue "Os Vencidos da Vida" - post de 25Abr2008

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Patrão-Mor da Ilha Brava

Quando o navio lançou ferro, ao largo da Ilha,
Veio a bordo toda a gente grada da terra,
Os mulatos olhavam os brancos
com saudade da cor branca que não tinham,
Os ilhéus olhavam os navegantes
com saudade do mundo que não conheciam.

Vendiam-se coisas podres no tombadilho;
Era quase esmola comprar.
O culto do patrão-mor, com seu boné de pala,
Impressionou a imaginação do pequenino viajante:
Ser patrão-mor naquela ilha oceânica,
Ter por limite o mar,
Entrada franca nos vapores,
Um boné de pala reluzente
E um bote, da terra para o navio
e do navio para terra,
E aquela casinha à beira do cais!
Primeira noção de autoridade,
Primeira ambição de mando...

A Ilha ficou para trás,
perdida no mar oceano.
Tão pequenina, a ilha, ficou perdida;
Nunca mais, nas voltas do mundo,
O navegante a reencontrou.
Mas durante os anos que decorreram,
De infância,
Muita vez recordou o patrão-mor;
E ao sonho da carreiras que lhe arquitectavam
Antepunha o seu sonho;

- Quero ser patrão-mor na Ilha Brava,
Ter um boné de pala e um bote
e uma casa á beira do cais,
Quero mandar nos navios que partem
e nos navios que chegam,
Ser senhor na Ilha e no mar.
Quero ser patrão-mor na Ilha Brava!

O sonho não teve realização.
Nunca os sonhos têm realização.
Foi muita coisa na vida,
Mas não foi patrão-mor na Ilha Brava.
Percorreu outros mares,
aportou a outras ilhas,
Mas nunca mais demandou aquela.
Teve outros gostos, outras ambições,
Mas nunca nenhuma tão pura
Como a de estar na baía pequena,
Ano atrás de ano,
A olhar o mar quase parado,
À espera do navio que lá vem de ano a ano,
À espera da vida, à espera da morte,
Sem luta, nem desejo...


Foi muita coisa na vida,
Mas nenhuma valeu o sonho infantil,
Nenhuma valeu o gosto
de ser patrão-mor na ilha Brava...

Medo...

Medo não é o temor dos piratas no Rio de Oeste,
Nem dos tufões no mar.
Não é receio dos tiros, pela noite,
No rio povoado de lorchas e traições;
Nem o susto dos enforcados,
Ao luar branco,
No mangal da Areia Preta.
Medo não é o terror da guerra,
nem da fome, nem da cólera,
Nem das chagas dos leprosos
na Ilha de S. João;
Não é suspeita
de que a morte espreita,
Continuadamente,
e nos levará.
Medo não é contágio da tristeza
Quando a tarde tomba
E o ocaso ensanguenta
O mar de água barrenta,
As terras e o céu,
Até as ilhas serem tragadas pelo negrume
E as montanhas pelo escuro,
E nada restar senão a treva
E os gritos que atravessam a noite,
Vindos não sei donde,
Para não sei onde.

Medo não é o temor das ciladas,
Nem dos punhais,
Nem dos beijos vermelhos que enganam
e sorvem lentamente as vidas...

Medo é este pavor de que tu partas
e me deixes só.

Negra que vieste da sanzala...

Negra que vieste da sanzala
E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,
Recusando o leito branco e macio;
Negra que trazias no corpo o cheiro do capim
E da terra molhada,
E o travo das queimadas;
Negra que trazias nos olhos castanhos
Sede de submissão,
Que tudo aceitaste em silêncio
E lentamente desnudaste o teu corpo...


Estátua de ébano,
Animada pelo sopro da lascívia
E pela febre do desejo;
Negra vinda das terras altas do Chimoio
À cidade que o branco plantou na beira-mar.
Vinda para te venderes...
Comprada a uma preta velha e desdentada,
A troco dum gramofone;
Vendida e trespassada de mão em mão.

Que é do pano branco de chita
Em que envolvias teu corpo
E escondias tua carne tremente
De tanta volúpia que guardava?
Que é da esteira gasta
em que repousou teu corpo
E vibrou tua carne?
Onde vão as noites de África,
Encharcadas de cacimba,
Impregnadas de álcool
do hálito e dos beijos?

Luminosas, serenas...

Vinham do pátio as vozes em surdina
Dos teus irmãos em cor...
Vinham do mato os gritos roucos das hienas
E o teu choro lamentoso,
De acentos prolongados,
Tal o de meninos magoados...

Tu prendias-te a mim.
Abandonava-te na esteira
E, quando o dia surgia,
No soalho nu havia a esteira nua
e nada mais.
Tinhas partido para a sanzala,
Envolta no pano de chita branca
E no silêncio molhado da cacimba
Da noite transluzente e profunda.
Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.
Fazia por te odiar...
Mas, ao sol escaldante do dia,
Queimava-me de novo,
Em ardência e secura,
A sede do teu corpo,
Até que a noite voltava,
Tudo aguando de cacimba...
E na esteira gasta
O teu corpo nu
Voltava a ser
Uma serpe negra...

negra que vieste da sanzala...

sábado, 26 de janeiro de 2008

Escrever é vencer a morte

Escrever é projectar-se além da Vida,
É vencer a Morte.
Um dia esta virá, de surpresa, ou tardia,
Mas uma coisa não levará, não reduzirá a cinzas,
e sobre ela a sua álgida mão não terá poder.

Ó Morte, eu sei que tu me aniquilarás,
Mas não destruirás está página
em que escrevo o teu nome,
O teu nome odiado e cruel.
Quantos seres derrubaste em volta de mim!
A todos apavoras.
mas outras vidas há que não estão à tua mercê,
e essas, que nós criámos
Com a música das nossas palavras,
Com a febre do nosso espírito,
Com a ambição do nosso sonho,
essas - sobreviver-nos-ão
e o teu amplaxo não as envolverá.

O que fica do artista, para além dele, não te pertence;
Basta que nós te pertençamos.

Fonte. Poemas Imperfeitos, páf. 140

Primeiras praias de África visionadas...

Parti da rua velha e suja,
da casa apalaçada, fria e bafienta,
Do jardim sem graça e mal cuidado
Que era o presunçoso parque da minha infância.

Parti; tudo deixei diluído
nessas primeiras memórias confusas
Dos seres que nos rodeiam,
De carinhos que nos atormentam,
de castigos que nos flagelam.

E os doces, e os beijos lambusados,
e as teimas cegas,
E as antipatias escondidas de criança,
E as primerias curiosidades,
E os olhos para tudo abertos,
sem nada compreenderem.

Tudo deixei para trás, nessa lembtrança confusa
Da primeira meninice que findava
e da vida nova que surgia.
Parti! Pelo monótono mas da monótona viagem,
Longos dias iguais, primeiras horas
dos primeiros tédios a despontar!

E o comandante que metia medo,
e o navio sempre a balouçar como um brinquedo,
E os sustos quaqndo o menino desaparecia,
e a história do tubarão e da carne tenra do menino
que caiu ao mar...

Primeira ilha descoberta,
Rumo de descobridores.
Primeira névoa,
Primeira visão larga do mundo,
Outras ilhas, outras praiais, outros mares.
Primeira praia de África a distância,
Pretos no areal.

Mas o menino ficou prisioneiro no navio,
Porque o mar encapelado podia tragar o menino.
e depois disso ele ficou sempre prisioneiro,
para que ios mares encapelados não o tragassem.
Mas não foi mais do navio que ficou prisioneiro,
Foi daquels praiais vistas a distância
quando era pequenino,
Daqueles vultos vistos a distância,
Da vida,
Do mundo,
De si próprio.

Primeiras praias de África visionadas,
Primeira sombra de palmar...

Fonte: Poemas imperfeitos

Reencontro

A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza,..
o deserto a avançar sobre o mar
e a polvilhar a cidade pobre
da sua poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre...

As hortas do Giraul, mancha tímida
e verde no areal.
O jardim emurchecido, queimado
e ressequido pelo sol de África,
- Parque frondoso que a memória guardou,
Imagem que a vida destruiu neste reencontro,
o jardinzinho da cidade,
Já sem o coreto para a música,
Mas com a fileira dos espectros...

A longa, a interminável fileira dos espectros...
A Miss Blond a acompanhar os meninos a passeio,
O Tigre, pachorrento e mansarrão.
Os pretos, o olhar submisso e espantado,
Com as correntes aos pés,
Na rua de casas térreas e de piso mole.
A Miss Blond deixou de acompanhar
os meninos a passeio,
O Tigre, erguido a cão nobre,
morreu de velho,
Os pretos quebraram as correntes,
Só os espectros ficaram, pávidos,
Onde os havia deixado;
Só eles povoam a lembrança,
Habitam a cidade;
Só as suas vozes ecoam no deserto,
As vozes estremecidas,
As vozes perdidas
Na casa desabitada que a poeira do deserto cobriu,
Na vida, que a poeira do tempo cobriu,
Na morte, na saudade, na morte...

Baía de Moçâmedes, 8 de Dezembro de 50.
Fonte: Poemas Imperfeitos

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