I
Os feios e galãs assinalados
Que em macongino reino agora existem,
Nunca deixam de andar apaixonados
E apesar das tampadas não desistem
De as asas arrastarem excitados,
Pois conseguem aquilo em que persistem,
Entre as moças bonitas alcançaram
Novas façanhas que todos espantaram.
II
Não são só as conquistas amorosas,
Que aos corações vão dando a alegria,
(Se o mundo é para eles um mar de rosas
E aquelas são o pão de cada dia)
Mas também as serenatas maviosas
Dessa gente de heróica valentia.
Tudo direi de forma bem sucinta,
Se me chegar papel, engenho e tinta.
III
Cessem de americanos as ideias
De terem as mulheres mais bonitinhas,
Temos, é certo, algumas muito feias
Mas muitas outras belas e girinhas,
Tão lindas como rosas ou sereias,
Peixões bem superiores às francesinhas
Pois Maconge, apesar de pouca idade,
Andou em graça mais que em fealdade.
IV
Queria cantar em versos sonorosos
Os feitos magistrais dos maconginos,
Os feitos de efeitos estrondosos,
Dum povo de valentes paladinos,
Este povo de homens temerosos,
Espertos, sabedores e muito finos
Que lançaram no outro e neste mundo
Os traços dum civismo bem profundo.
V
Mas para resolver esta maçada
De que D.Caio-o Rei- me incumbiu,
Invoco as musas pois está já esgotada
A veia que outrora distinguiu
Camões, Bocage e toda a mais "cambada"
De poetas que na terra já se viu,
Se por elas conseguir ser atendido
Satisfarei do Rei o seu pedido.
VI
Dai-nos pois uma fúria inimitável
E não a dum piano escangalhado,
Mas sim a dum trombone formidável
Como aquele do Parreira, surdo ousado,
A vossa acção será então louvável
E Maconge p'los outros aclamado.
Que se lance e se cante na cidade
Actos de tão grande temeridade.
VII
Vós sois,ilustre Rei, o descendente
Da família dos Césares chamada;
Não da Roma que havia antigamente
Mas sim da dos Silveiras cá formada.
Tendes palácios onde mesmo em frente,
Com vossa permissão nunca negada
Em pelota se banha o vil gentio
Nas águas do Mapunda, enorme rio.
VIII
Como sois um estudante exemplar
Da cabulice amigo dedicado,
Os mestres resolveram premiar
O aluno mais antigo e calejado,
É só esta a razão a lamentar
Porque já foste muita vez "chumbado",
Mas não vos importeis, de não ser urso,
Pois cadeira a cadeira, faz-se um curso!
IX
E a vós, maconginos, companheiros
Das célebres paródias da noite alta,
Vós que nas aulas éreis os "primeiros"
Vós que toda a semana dáveis falta,
A vós que éreis espertos e matreiros,
Melhores dentre os melhores de toda a malta
Vos dedicamos est'obra para lerem
P'ra não mais de Maconge se esquecererem.
X
Já pela rua vão os estudantes
Em grupos conversando mui contentes,
E uns nas boas notas confiantes
Não sentem da raposa já os dentes,
Outros há que dos grupos vão distantes
Por causa das más notas dos seus "lentes",
Triste fim o deste ano de canseiras
Que nós passámos todo em brincadeiras!
XI
As "feras" no liceu vão reunir,
Na mão a muito suja caderneta
Todos vão preparados para abrir,
E p'ra mandar a malta p'ro maneta.
Alguns começam já por se sorrir
E trocam impressões. Mas a sineta
Ordena que comece a reunião,
E p'ra mesa calados todos vão.
XII
Lá estava o reitor alto e corcorvado
Ao peso da "bicanca" mui comprida;
E também o Mendonça já sentado
A pança tendo ao alto muito erguida.
O Miranda de pé estava apoiado
Naquelas suas pernas de torcida.
Enfim, lá estavam todos os algozes
Que nos fazm sofrer dores tão atrozes.
XIII
Mas já dum canto eleva a voz pausada
Aqueles de todos mais esclarecido.
E co'uma calma já bastante usada
Diz o pedante muito convencido:
"Benevolência, não demasiada
Pois o estudante fica aborrecido"
Este conselho assim tão indecente
Faz com que chumbe quase toda a gente.
XIV
E depois de tão bem aconselhados
Começam nossos mestres a ditar
As notas que nos deixam mui zangados
Quando na pauta as vamos encontrar.
Rompem a série os novos esfaimados
Do Mirandinha que nos quere chumbar,
Mas tendo em dois períodos boas notas
Bem longe estamos de ir consertar botas.
XV
Agora o Paiva Júnior que é bondoso
Começa a ditar notas mui honrosas
Mas vem logo o Mendonça pavoroso
E...oh! desdita! Cita-as vergonhosas.
Ao pensar nisto fico bem choroso
Por ver que nem com cábulas manhosas
Conseguimos pôr fim ao nosso estudo,
E junto à pauta eu fico quedo e mudo.
XVI
Da matança porém o fim chegou,
Na pauta escreve agora o bom Vieira
As notas que a mestrança já ditou.
A Juliana tem por companheira
Na obra que o reitor lhe fixou.
As notas lá as põe numa fileira
Em frente a cada nome e sem engano,
Não pode haver trabalho mais insano!
XVII
Agora é o bom Tavares que vem surgindo
A mui funesta pasta sobraçando,
E na parede a põe com gesto lindo!
E junto à dita e para ela olhando,
Alguns dos estudantes vão sorrindo,
Porém vão-se outros já bem lamentando,
Uma vez mais os hão assim gatado
E o pranto que os desfaz, todo é baldado.
XVIII
Alguns crónicos já no reprovar
Por se verem passados se admiram.
Todos, os parabéns lhes vêm dar
Espantados e felizes do que viram,
Satisfeitos começam a cantar
Mas na secretaria as "feras" miram,
Pois se p'ro ano se não agarrarem
É mais certo chumbados eles ficarem.
XIX
Dos crónicos alguns vou nomear
P'ra que o leitor os possa conhecer.
Por alcunhas e nomes vou tratar
Os cábulas famosos, a saber:
O Rita que o Liceu há-de chorar,
O César com a "checa" de temer
O Mesquita também que todo ufano
O nobre nome tem de Marques Mano.
XX
"Jambone e o seu Bucéfalo" afamado,
O Trino do Armada bom amigo,
O Homero, o eterno reprovado,
Como o Jaime dos livros inimigo.
Marques Pires, o Pedante perfumado,
Tal qual o Lucas e o Petrónio antigo.
É preferível contudo aqui ficar
Para eu em mim próprio não falar.
XXI
Vamos agora à malta estudiosa.
Ao tentar as alcunhas mencionar
(Daquela estudantada mui briosa)
Ante meus olhos passam a saltar
As notas que a tornaram tão famosa.
Exemplo bem difícil de imitar,
Mas Mendonça terrível, Lucas forte,
De todos é o chumbo a triste sorte.
XXII
No cimo desta lista tão honrosa
O de Alves Fernandes aparece.
A seguir, o da Zélia orgulhosa
Das notas que apanha o que merece.
Depois o de pessoa estudiosa,
João da Esquina, nome que não esquece.
Osvaldo, aluno muito esclarecido
E dono dum "penante" conhecido.
XXIII
Barão da Baviera, o perseguido,
Depois o jovem duque de Belmonte,
Segue-se o Rei, nos versos conhecido
Pois bebeu já da Beócica Fonte.
De outro o nome vem, que foi vencido,
P'lo Mendonça, que dá chumbos a monte.
E em seguida os menos importantes
Da dita lista de bons estudantes.
XXIV
Como os alunos são já conhecidos
Os seus feitos passemos a narrar.
Falemos dos hérois desconhecidos
Daqueles que não farto de cantar.
Se estes terminar e forem lidos
Verão que feitos são de admirar.
E cantarei p'ra que saiam da lama,
Espalhando pelo mundo muita fama.
XXV
A fala dum aluno mau estudante
Antes porém eu quero descrever;
Eis que indo em boas notas confiante
Sem medo a pauta fúnebre foi ver.
Em Inglês gatado. Era o Brilhante.
Pois claro, outro não podia ser.
Então a maldição tirou do peito,
Maldição que caiu no tal sujeito.
XXVI
Oh! glória de chumbar,oh! triste sorte,
Assim atiças tu do ódio a chama.
Tu, Bicancas tirano de má morte
Que só em gatar criaste fama,
Levarás no nariz um soco forte
Tão forte que parar irás à cama,
Agravado também terás um calo,
Além de coisas mais em que não falo.
(*)(cf. Primeira Edição, de 1959, Agosto, nas Festas da II Confraternização da Antiga Malta do Liceu. Autorizadas a circular, por Sua Majestade Severíssima, D. Caio Júlio Cesar da Silveira.)
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domingo, 20 de julho de 2008
Macongíadas - Canto Primeiro
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Macongíadas - Canto Segundo
via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/14/08
IForam ditas as frases que escutaram
Mas que ainda não deram resultado.
Por enquanto o nariz não amolgaram
Nem o calo também está agravado;
Porém os fados rudes fixaram
Que esse aluno ficasse reprovado.
E desde então ele nunca mais passou
Só porque aquela maldição lançou.
II
A vida do estudante é de amargura,
Ao Liceu preso uma manhã inteira.
Mas muitas vezes tem também doçura
Isso dirá a malta companheira.
E quanta vez o povo nos atura
Na serenata, de noite, em barulheira.
E no fim vem depois distribuição
Do néctar de um grande garrafão.
III
Mas como tudo tem começo e fim,
Pelo princípio vamos começar.
Não é pelo leitor, mas sim por mim
Que eu quero tudo muito bem contar.
A nossa "prima" festa foi assim:
Resolveu Sua Alteza decretar
Que se cantasse em noite luarenta
Tendo a batina como vestimenta.
IV
Todos demos dinheiro para a boda
A fim de comprar coisas de engolir.
Nove horas. No jardim a malta toda
Aguarda só a ordem de partir.
Rompe a marcha c'uma cantiga em moda.
Cantamos alto para tudo ouvir.
E na rua se fez tal chinfrineira
Que acordámos a cidade inteira.
V
Mas inda poucos passos eram dados
Quando um gorgolejar todos escutámos.
Ficámos um momento mui espantados.
Fizemos alto. Logo investigámos.
E num dos garrafões desarrolhados,
Um dos colegas a beber topámos.
E por estar escuro eu não sei quem seria;
Mas mesmo que o soubesse não diria.
VI
Passado estava já o incidente
E novamente a música tocava,
Mas o nosso colega descontente,
Olhava o garrafão e o chorava.
A música findou. Alegremente
A filla de tunantes caminhava.
Era tocada a marcha de Maconge.
Com voz tão forte que se ouvia ao longe.
VII
Do Colégio pr'as Maias nós passámos;
A janela vieram descerrar.
As músicas que nós lhes dedicámos
Tiveram o condão de as encantar.
Pr'a Rotunda partimos. Lá parámos.
E a fim da garganta refrescar,
Distribuiu-se vinho à malta toda.
Assim começou, pois, a nossa boda.
VIII
Comeu-se pão, chouriço e muitos bolos,
A mistura com coisas bem picantes,
Para empurrar bebendo quatro golos,
Cinco litros se foram nuns instantes.
Gorgolejando alguns faziam solos,
Com estalos e estalinhos bem cantantes.
Enfim! Foi tão intensa a animação
Que muitos se rolaram pelo chão.
IX
Veio por fim a ordem pr'a partir,
Rompeu a marcha. Todos mui direitos,
Um a um começámos a seguir.
Nós ao álcool não estamos muito afeitos,
Mas soubemos o vinho repartir,
E parámos no Gaio. Com trejeitos,
Entoa Emílio bela cantilena,
De alegre balar e letra amena.
X
O vinho, entretanto, fez efeito,
E por cambalear alguns começam,
Dizendo coisas vãs, sem nenhum jeito.
P'ra mencionar os nomes não me peçam
Porque seria um acto bem mal feito.
O que me interessa a mim que a rua meçam
Debaixo de grossura tão tremenda
Se de nada lhes vale a reprimenda?
XI
P'ras Mascarenhas vamos em seguida.
Cantando alegre marcha, sem engano.
O Mário Andrade, ao alto, leva erguida
A chapa que nos diz do sexto ano.
Osvaldo leva a vela corroída,
E a música alumia todo ufano.
Vai também o Cabinda, convidado,
Que toca bem guitarra e canta o fado.
XII
Da Lourdes p'ra Irene mui formosa
E para as Alexandres em seguida,
Ia seguindo a tuna já famosa,
Cantando uma canção enternecida
E logo a seguir marcha ruidosa,
A malta já na escuridão perdida,
Tentava andar um pouco mais ligeira,
Mas a isso se opunha a bebedeira.
XIII
Prodígios de equilíbrio vai fazendo,
Tentando as vozes pôr na mesma altura!
Mas apesar das pernas ter tremendo,
Continua a manter a compostura.
Gilberto ao violino é estupendo!
Acaba de tocar a partitura!
E nos banzou ali de tal maneira,
Que quase nos passou a borracheira.
XIV
Depois de vários sonos perturbar,
De ouvir do Rita frases de ternura,
Outras gentes nós fomos acordar,
Cantando em voz pastosa de grossura,
Mas quando no jardim ia a passar
A tuna, oh, que tristeza! Que figura!
Encontramos 'stendido o Armandinho.
Talvez por ter bebido pouco vinho.
XV
Todos falam, murmuram, sem olhar,
Para o estado tristíssimo em que estão.
E de novo voltamos a marchar
P'ra janela da prima do Falcão,
Depois de o seu sono despertar,
Tocámos à Cordália uma canção.
Cantou Rosári um fado (e muito bem)
Daqueles da sua terra: Santarém.
XVI
Não vou narrar agora o sucedido,
Depois de a esta porta ter cantado,
Porque isso seria aborrecido,
E ficaria tão envergonhado,
Como fiquei ali entristecido,
Ao reparar no lastimoso estado
Em que ficara a nossa bela tuna.
Desculpe-me o leitor esta lacuna.
XVII
Já não tenho decerto inspiração
P'ra contar como o ano terminou.
Direi somente que bem poucos são
Os que a sanha dos mestres aprovou.
Mas desses não saiu a maldição
P'ra raposa que todos mordiscou,
Porque apesar de tristes bem ficarem,
Lauta ceia se fez p'ra se alegrarem.
XVIII
Depois duma soneca mal dormida
Por insónias cortada sem cessar,
A malta acorda triste e aborrecida
Por a labuta ter de retomar.
É dura e mui espinhosa essa vida
Daqueles quie os lentes têm de aturar.
São lições, mil trabalhos, arrelias,
p'ras gatas evitar todos os dias.
XIX
Já no Liceu a "Tavarina" hora
Na sineta soou lugubremente
Entre a malta que há puco inda cá fora
Por uma borla esperava avidamente.
De todos a expressão é de quem chora,
Pois ela se desfez rapidamente.
Nada mais há a fazer do que ir p'ra aula
Que é de todos nem mais que a cruel jaula.
XX
Na secretária o fero professor
Co'nome de Mendonça está sentado.
É p'ra nós o gigante Adamastor
Que ao Gama apareceu no mar irado.
Chama um aluno tremente de pavor,
Pois ali num instante é "degolado",
Triste sorte a daquele que num minuto,
Por asnear é nomeado bruto.
XXI
Como outrora um nauta no seu lenho
Está hoje cada aluno na carteira.
Tremia aquele co'tempo fero e sanho,
Este geme ao largar alguma asneira.
Mas a ambos não serve aquele engenho
Quando é chegada a hora derradeira.
Para o primeiro as vagas alterosas;
Para o segundo as lições bem custosas.
XXII
Vou descrever em traços mal pintados
O mestre que nos faz estremecer:
De hercúleos membros, tão avantajados,
A força herdou de Rhodes ao nascer,
A face de sobrenhos carregados
O cinto na barriga a querer descer,
Nas aulas de Ciências se comporta,
Como raio que tudo fere e corta.
XXIII
Vem depois o latim aborrecido
Que se traduz somente a adivinhar.
O predicado em baixo está escondido,
Para o sujeito tem de se saltar.
Há ainda o pronome indefinido
E o advérbio para declinar.
Com tamanha mistura e barafunda,
Melhor é aprender a língua ambunda.
XXIV
A História que começa antes do mundo,
É terrível e enorme calhamaço,
Que o Paiva Júnior com saber profundo,
Vai ensinando sempre a passo e passo.
Com o programa tão grande e tão jucundo,
Não sei como a cabeça não desfaço.
Com trajanos e Neros rancorosos,
Nós somos hoje alunos desditosos.
XXV
A seguir é a Moral aborrecida
E a Literatura mui bisbilhoteira
Pois quer saber dos escritores a vida
Desde a nascença à hora derradeira.
Às vezes uma peta é bem metida,
E outras mais provocam galhofeira.
Nós desculpamos, pois, se assim não fosse,
O estudo era só rijo e nada doce.
XXVI
A Geografia então é bem terrível
Com nomes às centenas e aos milhões.
O estudo da Botânica é incrível,
Com tantos nabos, couves e feijões.
Depois a Zoologia onde é possível
Chamar aos chipanzés nossos "irmões"
E temos que aturar bem pacientes
Este calvário atroz de penitentes.
XXVII
A Álgebra dá-nos muito que fazer,
Com senos e co-senos bem puxados.
Temos também ainda que aprender
Os métodos e leis bem engendrados.
O Walter dos alunos quer fazer
Filósofos à arte dedicados.
Mas como o Neves diz (e eu considero)
Que apesar disto apenas somos zero.
XXVIII
E andamos nós uma vida inteirinha,
A fio sete anos a estudar,
Para no fim a mísera notinha
Dum aspirante estarmos a ganhar.
Ficamos magros como a magra espinha
Pois levamos a vida a aspirar.
Inda por cima os mestres carniceiros
Só querem que sejamos carroceiros.
XXIX
Mas deixemos por hoje as desventuras,
Que as desventuras fazem-nos chorar.
Lancemos para trás as amarguras,
Pensemos na alegria e no gozar,
Lembremos as pielas muito duras
Que todos apanharam a cear,
Esta ceia com lábia corriqueira,
Vou relembrar a malta companheira.
(*)(cf. Primeira Edição, de 1959, Agosto, nas Festas da II Confraternização da Antiga Malta do Liceu. Autorizadas a circular, por Sua Majestade Severíssima, D. Caio Júlio Cesar da Silveira.)
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Macongíadas - Canto Terceiro
via PoeMaconge by noreply@blogger.com (José Jorge Frade) on 7/14/08
IAproveitando a bela camaradagem
Que os colegas do Huambo nos fizeram,
Resolveu-se fazer uma homenagem
Àqueles que junto a nós aqui vieram.
Enviou então D.Caio uma mensagem
Aos nobres maconginos, os quais deram
Dinheiro p'ra uma ceia verdadeira,
Em honra feita a uma Nação estrangeira.
II
Foram o Vieira e a sua esposa Andreza
Que fizeram os festins tão delicados,
Pois notada por todos é a destreza
Desse belo casal, em cozinhados.
Foi servido o jantar em grande mesa
Que mil delícias deu aos convidados,
Antes porém eu quero apresentar
Alguns daqueles que estavam a cear.
III
O Sócrates por todos conhecido,
Tem um nome por si já afamado.
Aluno muito esperto e entendido
P'los outros sendo querido e respeitado.
O Lara que História sabe de ouvido
Tão bem que conseguiu ficar gatado.
O Neves conhecido por João,
Poeta de elevada inspiração.
IV
Temos ainda o Rei do bandolim
(João d'Almeida, filho de seu pai).
Depois o grande mestre de latim,
Carvalho, que entre todos sobressai.
E a seguir a estes vem enfim
O Rita que com tudo se distrai.
Há também o carquejo perspicaz
Que com a pinga em riso se desfaz.
V
Vê-se uma tola em forma de melão,
O que indica que o Hugo está presente.
E d'entre toda aquela multidão
D.Caio sobressai já sorridente.
Ao lado deste o nobre cidadão
Barão da Baviera está contente,
Talvez por reparar quão bem regado
Viria a ser jantar tão afamado.
VI
Havia muitos nomes pr'a dizer
Mas não vale a pena mencionar.
Melhor, muito melhor é descrever
O que D.Caio disse ao discursar,
Com formas que fez todos comover,
Deixando a multidão a palpitar.
Com gesto encantador e bem lançado
Começou o discurso há tanto esperado:
VII
Vós, irmãos, de outra terra bem distante,
Por todos nós imensamente queridos,
Levai, na vossa alma radiante,
Os sólidos afectos já vividos,
De todos os que aqui estão neste instante.
De palmas, grande salva, os ouvidos
Com fúria atordoou, da malta ousada,
Que depois se lançou à caldeirada.
VIII
Por toda aquela mesa bem espalhados
Se viam muitos pães e muitos pratos,
E também muitos vinhos perfumados
Que às vezes às cabeças dão maus tratos,
Armando entre os que estão mal precatados
Terríveis e cruéis espalhafatos.
Pelo ar se evolou cheiro esquisito
De boa caldeirada de cabrito.
IX
O Rita, pelo vinho comovido,
Tendo na voz tremuras soluçantes,
Quis discursar. Mas antes, um pedido
Ele desejou fazer aos circunstantes:
Queria benevolência. E atendido,
Começou com palavras bem cantantes:
Nem de Camilo ou Braga eu tenho a "verbe"
Pois sou ainda moço imberbe.
X
A vida é uma espinheira mui cerrada
Por onde têm todos de passar...
A malta tem de ser bem avisada
Para que nela se não vá picar.
Aqueles de quem a sorte está lançada
E que outro novo rumo vão trilhar,
Ouçam bem as palavras dum profeta
Se querem atingir depressa a meta.
XI
Naquela altura os vinhos espumosos
P'la cabeça começaram a subir.
E todos se sentiram venturosos
Comendo e conversando sempre a rir,
Nem pensando nos chumbos vergonhosos
Que estavam mesmo prestes a sair.
Os líquidos nos jarros não pararam
E muitos logo ali se embebedaram.
XII
Contou depois o Corte enorme história,
Desde os tempos remotos do Liceu,
Evocando o passado e sua glória
E tudo ali tão bem ele descreveu
Que ficou bem gravado na memória
De forma que a ninguém mais esqueceu.
Contou seguidamente uma chalaça
Que com cócegas só, metia graça.
XIII
O Vitória depois foi convidado
A tomar a palavra num momento;
Ficou, mau grado seu, atrapalhado,
Fazendo uma figura de jumento.
Gaguejou e sentindo-se embuxado
De novo a retomar ia o assento;
Mas o Rita, rapaz de perspicácia
Pediu-lhe então p'ra falar de farmácia.
XIV
Calado estava o Sócrates sentado
Em frente a dois copitos, radiante,
Quando pelos presentes foi saudado,
Compelido a falar naquele instante,
Levantou-se com calma e, contristado,
Mostrando um certo ar cambaleante,
Apenas disse: Isto é o fim do mundo,
Deixem-me em paz pois já não sinto o fundo.
XV
Depois de terem todos bem ceado
Alguns nem dar podiam cinco passos,
E outros condoídos de tal estado
Para casa os levaram em mil braços.
E agora que isto tudo foi contado
Com milhões e milhões de erros crassos,
Só desejo alegria à multidão
Bem como ausência de reprovação.
XVI
Como as musas começam a falhar
E a sombra de Camões a estremecer,
O poema é preciso terminar,
Que todo o macongino o venha a ler
Como D.Caio, o rei, vai ordenar
Com toda a sua força e seu saber.
Que a voz deste poema vá bem longe
Espalhando a eterna glória de Maconge!
(*)(cf. Primeira Edição, de 1959, Agosto, nas Festas da II Confraternização da Antiga Malta do Liceu. Autorizadas a circular, por Sua Majestade Severíssima, D. Caio Júlio Cesar da Silveira.)
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