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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Estertor, poema inédito de António Manuel Couto Viana

via nonas by nonas on 6/15/10
ESTERTOR

Amei o meu Portugal
Dei-lhe a minha poesia
E assisto ao seu final
Dia após dia.

Não há ninguém que lhe acuda
Com verdade combatente.
Só avisto quem o iluda
Só avisto quem lhe mente.

Pobre povo, onde, a raiz
Do que foi o "nobre povo"?
Não escutes quem te diz
Que está a erguer-te de novo.

Portugal, perdeste a estrada
Do império e do brasão.
Hoje não és nada, nada…
Nem pra quem estenda a mão.

Morreu em Évora-Monte,
E a coroa ao abandono
Serviu pra cingir a fronte
Da república no trono.

Já ninguém sabe de nós
Nem nos conforta a saudade,
Calou-se a voz dos avós:
A que me foi mocidade.

António Manuel Couto Viana
(30.04.2010)
Notas:
Poema declamado pelo actor Vítor de Sousa, após a missa de corpo presente, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em 10 de Junho de 2010.
A fotografia é de Couto Viana com José Mendo em Tetuão, a 8 de Setembro de 1950.
Este perfeito e brilhante poema é o seu testamento poético, espiritual e político.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Portugal

via MANLIUS by José Carlos on 6/15/10

Portugal
Este mendigo, outrora, era um menino d' oiro,
Teve um Império seu, mas deixou-se roubar.
Hoje, não sabe já se é castelhano ou moiro
E vai às praias ver se ainda lhe resta o mar!
* * *
Agora, o meu país são dois palmos de chão
Para uma cova estreita e resignada.
Tem o formato exacto de um caixão.
Agora, o meu país é pó, é cinza, é nada.
Reduziram-no assim para caber na mão
Fechada!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Escrito no Sangue

Para os meus sobrinhos Mió e Eugénio

Foste, às praias d`outrora, ver partir uma nave?
Vai vê-la regressar, fremente, aos aeroportos.
Tem, agora, o perfil triunfal de uma ave,
Mas nas entranhas traz cinco séculos mortos!

Deixou, no além-mar, um farrapo de pragas,
A memória do ódio, o turbilhão das fugas.
Traz, oculto, a sangrar por vinte e cinco chagas,
Um pavilhão de medo e envergonhadas rugas.

Esperava-a o pó, os fétidos detritos,
O crime da indiferença e a fome das crianças.
Antes tudo acabar numa explosão de gritos
Do que este tropeçar no gume das vinganças!

Foste, às praias d`outrora, ver partir um navio?
Vai vê-lo regressar, sem glória, aos aeroportos.
Antes fosse vazio e viesse vazio.
Mas nas entranhas traz cinco séculos mortos!

António Manuel Couto Viana
(21.11.1976) - In “Sou quem fui – Antologia Poética”, p. 127. Edições Ática,2000

quinta-feira, 10 de junho de 2010

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

Nota
António Manuel Couto Viana, um homem que comecei a admirar pela sua poesia patriótica e nacionalista quando eu tinha apenas uns 14 ou 15 anos. Após o 25 de Abril de 1974 admirei-o ainda mais por se manter integro e coerente perante todas as campanhas que lhe moveram para o silenciarem.
Há menos de três anos tive o privilégio e a suprema honra de o conhecer pessoalmente. Então, apercebi-me da sua grande humanidade e simplicidade. De admirador, tornei-me amigo e amigo para sempre.

O que resta da nossa nação acaba de perder um dos maiores vultos nacionais de todos os tempos. A nossa Pátria está muito mais pobre com a perda deste homem de letras e de virtudes. Perdeu-se também um homem que, nestes tempos de cobardia e negação da Pátria, se manteve como um homem de "H" grande.
Obrigado meu poeta e meu mestre.
Rui Moio

via Comunidades - RTP by Irene Maria F. Blayer on 6/9/10

"O escritor António Manuel Couto Viana morreu esta tarde aos 87 anos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa."(via Público 8-6-2010).



As nossas condolências à família de António Manuel Couto Viana.


Este é um momento de forte emoção, e em homenagem a este grande poeta, escritor, dramaturgo, ensaísta, encenador e tradutor, deixamos o leitor com estes links do Público, e da Associação Portuguesa de Poetas (http://appoetas.blogs.sapo.pt/) onde se destaca referência à sua obra.
Da sua poesia saliento e transcrevo aqui este poema que António Manuel Couto Viana dedicou ao seu querido Amigo, Eduíno de Jesus. É natural que os seus amigos se sintam com os mesmos sentimentos de quem está de luto.

Ilha de São Miguel
Para Eduíno de Jesus

António Manuel Couto Viana


Vejo os romeiros da Semana Santa
Atravessando os campos plo sol-posto:
O cajado na mão; ao ombro, a manta,
E a fé em cada rosto.

Na alba do domingo, assisto
(Ainda luzem estrelas)
À missa cantada ao Senhor Santo Cristo,
Entre a pompa dos oiros, flores e velas.

À porta do Convento da Esperança,
Rezo ao banco de Antero.
A sua alma, em paz, ali descansa,
Depois do tiro do desespero.

E a paisagem bucólica,
Com lagoas de névoas e frescuras,
Melancólica,
Escorre das alturas.

Até onde o olhar se perde,
Vacas pretas e brancas
Mancham o pasto verde,
De úberes túmidos, de pesadas ancas.

Tão alvas e tão azuis, nas bermas das estradas,
As hortenses floriram os fuzis liberais,
Por serem dessas cores as bandeiras ousadas
Que iriam invadir as areias e os cais.

Enfeitam-na, também, as rosas do Japão
(Vai-lhe bem o cetim!).
E respira da boca do extinto vulcão
Hálitos de jardim.

Nas Furnas,
Arde o coração da terra.
E, das caldeiras soturnas,
Um fumo sobe, ondula e erra.

Fui ao Nordeste, um dia,
Comer cracas, beber vinho de cheiro,
Enquanto a Ilha bebia
Nevoeiro.
E porque não beber chá
(Chá chinês da Gorreana):
O Oriente que dá
Delicadeza à flora açoriana?

Beber, na estufa, até, um sumo de ananaz,
Como um sol ruivo, acre e tropical
Que ao severo da Ilha satisfaz
a sede sensual.

No sabor das bananas, que novos exotismos!
Verdes, se verdes, depois, doiradas,
Frente a espessuras, prados, abismos,
Fontes, levadas...

Ilha a emergir da espuma,
Sê sinal de salvação:
Traz-me, perdido na bruma,
El-Rei Dom Sebastião.

(20.2.08)

António Manuel Couto Viana "Sobre Eduíno de Jesus". Eduíno de Jesus: A ca(u)sa dos Açores em Lisboa - homenagem de amigos e admiradores. Eds. Onésimo T. Almeida e Leonor Simas-Almeida. Terceira: IAC, 2009. 32-33.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Carta-Prefácio de Couto Viana para Rodrigo Emílio

Carta-Prefácio de Couto Viana para Rodrigo Emílio

via nonas by nonas on 12/22/09
CARTA-PREFÁCIO
de António Manuel Couto Viana
Caro Rodrigo Emílio:
Deste exílio
português
que celebraste tanta vez,
venho dar-te os parabéns.
Contra o ódio e os desdéns
que te perseguem o talento,
hoje, lançam-te ao vento
da glória que mereces,
teus poemas, caudais de invectivas e preces;
sátiras de sangue
sobre quem mutilou a Pátria exangue;
os lirismos de amores
(aromas subtis de delicadas flores,
a enflorarem-te o coração);
o brado do teu não
corajoso, à nacional demência;
a resistência
e valentia
que sublimam a tua poesia;
o louvor ao herói das novas sagas,
como tu, militar em exóticas plagas.
Parabéns. Neste livro, flutuam teus versos
(quantos os desejam submersos!),
que hão-de escaldar de luz
a alma que reduz,
apontando o mais além,
a quem,
traidor, mesquinho,
quis fazer Portugal Portugalzinho.
Ao invés, tu sonhaste um alto fado,
vestido de soldado.
E a tua asa de poeta,
o teu burel de asceta
na humildade da nua solidão
recusaram o lar e o pão,
pela aleluia
da tua própria companhia.

Caro Rodrigo Emílio,
agora, em santo idílio
com Deus que te sagrou e a Virgem que cantaste,
branca rosa na haste
de Fátima dos lenços e das velas,
nunca açoitada plas procelas,
tempestades iguais aos pecados do mundo,
recebe o ser profundo,
existente na tua antologia,
nosso maior e assombroso guia.
(Também aqui saúdo quem a fez
bíblia do carácter português!).
Quem não há-de adorá-la,
evocá-la,
comungá-la,
se é o nosso pensamento em sua fala?
Templo
exemplo,
leite da nossa mãe
bebido em todo o sempre. Amen!

Sou quem busca imitar-te,
no fulgor da tua arte,
na luta sem quartel.
Perdão, se o não consigo.
Mas recolhe a admiração do amigo
António Manuel.


29 de Novembro de 2009.
In Antologia Poética de Rodrigo Emílio, págs.9/10,
Areias do Tempo Associação e Editorial, Coimbra, 2009.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

As pátrias doentes / Não prendem os poetas. Para quê?

As pátrias doentes
Não prendem os poetas. Para quê?
Prendem-lhes os amigos, os parentes.
Poetas... ninguém lê.


terça-feira, 5 de maio de 2009

CARTA A RUY ALVIM

via nonas de nonas em 05/05/09
CARTA A RUY ALVIM

Conheci-te na nossa mocidade:
Rapazes do liceu
A estudar e a gozar numa antiga cidade.
O mais novo eras tu.
O mais velho era eu.

Naquele tempo havia Portugal.
Falava-se de Império.
(Quem lhe soubera, então, o trágico final!)
E governava um Homem sábio e sério.

À jovem convivência a vida separou-a:
Tu foste pra Coimbra, pra Direito.
E eu pra Lisboa, lidando em tudo pra que tinha jeito.

Tu foste Presidente da Briosa,
Tiveste cargos de relevo no país.
Eu ia-me elevando em verso e prosa,
Numa ascensão feliz.

Quando avançou Abril com bandeiras de sangue,
Veio agredir-te o ódio triunfal
Que te levou exangue,
ao leito de Hospital.

Eu sofria a derrota do sonho português
Sagrando-me soldado
Do verso, que me fez
Defensor do Passado.

Foste exilar-te no Brasil,
Onde nasceste,
Para evitar a horda vil
Mortal como uma peste.

Amparou-te o espírito a Poesia
E a força da razão.
Até que um dia
Regressaste ao escasso deste chão.

Eu recebi-te num fraterno abraço,
Com alegria e com alívio,
A reatar o laço
Do convívio.

Mas o teu corpo voltou doente,
Cedido pela mais cruel doença.
E, lentamente,
eu perco a tua cordial presença.

Visitei-te numa Casa de Saúde,
Para dizer-te adeus e tu a mim.
E vejo que o teu mal já não ilude,
Pois, três dias depois, chegaste ao fim.

Choro com todos os teus amigos,
O sofrimento da tua ausência,
Hoje, mendigos,
do teu coração e inteligência.

E, agora, Ruy, é a maior saudade que me dói
A do jovem que foste,
A do jovem que fui,
Num Portugal que foi.

14.04.2009 - António Manuel Couto Viana

domingo, 26 de abril de 2009

Identidade

via ALMA PÁTRIA - PÁTRIA ALMA de Vítor Ramalho em 25/04/09

Um poema, que tanto nos diz, de António Manuel Couto Viana e que se recomenda na voz (um tanto silenciada, muito convenientemente...) de José Campos e Sousa:

O que diz Pátria mas não diz glória
Com um silêncio de cobardia,
E ardendo em chamas, chamou vitória,
Ao medo e à morte daquele dia

A esse eu quero negar-lhe a mão,
Negar-lhe o sangue da minha voz,
Que foi ferida pela traição
E teve o nome de todos nós

O que diz Pátria sem ter vergonha
E faz a guerra pela verdade
Que ama o futuro, constrói e sonha
Pão e poesia para a cidade

A esse eu quero chamar irmão
Sentir-lhe o ombro junto do meu
Ir a caminho de um coração
Que foi de todos e se perdeu

Autor do poema: António Manuel Couto Viana


domingo, 19 de abril de 2009

Exortação frente à estátua do Condestável na Batalha por Couto Viana

via nonas de nonas em 16/04/09
Exortação frente à estátua do Condestável na Batalha

Para Mário Saraiva

Cavalga no bronze da glória
À ilharga do túmulo real,
Aqui, onde ficou, em pedra e fé, memória
Da mais vital vitória
De Portugal.

E ergue a espada nua. (Em certo dia
Bastara meia espada
Para enfrentar a cobardia
E vencer a batalha antes de começada.)

E o peito ovante oculta, floreada,
A cruz do seu brasão:
Como a sua alma e coração (branca e encarnada),
É divina divisa devotada
Ao Mestre, ao Rei e ao Irmão.

E olha o céu, caminho seu, seguro,
Pois sabe que no céu tudo se escoa
E Deus é sempre o futuro,
O último senhor do ceptro e da coroa.

Ó português que passas, indiferente,
Frente à estátua do Santo, do Herói:
Não te dói o presente?
A tua pátria doente
Não te dói?

Não sentes o desejo, o ímpeto de orar
Àquele que nos foi o salvador;
Pedir-lhe para regressar,
Formar quadrado contra o agressor?

De ter de novo como Capitão,
Por Deus e Pátria e Rei, o Herói, o Santo?
E de poder dizer altivamente não,
Seguindo o seu pendão,
Onde arde a esperança que perdeste há tanto?

Ah, se não queres marchar, em som de guerra,
Tal como ele, por um ideal,
É que não vale a pena o sangue, a terra,
E morre Portugal.

António Manuel Couto Viana
In «Sou quem fui», Edições Ática, Lisboa, 2000, págs. 144/145.


sexta-feira, 6 de junho de 2008

MAIS UM ADEUS - À memória de Carlos Eduardo de Soveral

À memória de Carlos Eduardo de Soveral

Mais uma cruz no meu caminho.
Agora, a tua Poeta e Pensador.
Partes sozinho,
para o mais Alto e o Maior.

Folheaste, ciente, páginas da Existência
Com estudos profundos,
Onde é semente e flor a Inteligência
Dos cérebros fecundos.

Português,
Como os que o são,
Ouvi-te muita vez
Exaltar-nos a Alma e o Coração.

O Erudito, o Mestre, o Esteta,
Souberam bem gerir o seu talento.
Apenas o Poeta
Se ficou quase oculto, mas atento.

Carlos Eduardo:
Com que saudade aceno a despedida,
Daqui, onde inda sou e ardo
No fogo a esmaicer da vida!

E tardo,
Por não ser como tu,
Tão ágil na subida.


08.08.2007
(Inédito)
António Manuel Couto Viana

Fonte: Blogue "MANLIUS" - post de José Carlos em 06/06/08

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ao 28 de Maio

Ao 28 de Maio, uma vez mais,
Não falto,
Para saudar amigos de ideais,
De braço ao alto!

Fonte: Blogue "Nonas" - post de 28Mai2008

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Santo

Não é Deus
E, entretanto,
Não é Homem...

Não é Deus,
Pois nasceu
Como nasce
O Homem
Natural:
- Sem véu
Providencial
E protector,
Longe dos Céus,
Face a face
Com a peste
Moral
E com a dor...

Não é Homem
Também,
Que as angústias
Incessantes,
O desencanto
Enganador,
A saudade
E, sobretudo,
O desamor
Da Humanidade,
Que em
Tão
Rudo

Quebranto
No coração
Do Homem
Transparece
E se contêm,

Como aos seus
Semelhantes
Não o consomem...
Não os conhece
Nem
Os tem...

Enquanto
Vive,
No declive
Desta descida
Sua subida
E desprendida
Vida
Exemplar,
Vive
Da prece
E para a prece;
No encanto
E para o encanto
De rezar...

Cria
Assim,
Dia a dia,
Num contínuo
Improviso,
- Em que a Alma, cega
Pela Luz que entrevê,
Renuncia,
E se entrega,
E se extasia,

Longe da humana
E profana
Refrega,
Do Pecado
Que cresce
Em tétrica
Maré

Cria
Assim
E constrói
Deslumbrado,
Supremo herói
Da Fé,
Num sorriso
De g1ória santa,
O seu destino
Divino;
O seu próprio
Paraíso
Sem
Fim...
Como quem
Planta
E rega
Um místico
Jardim.

Ambiente
Transcendente
De infinita
E bendita
Felicidade
Interior,
Onde, no anseio
Redentor
De que anda cheio,
Palpita

Enternecidamente
O amor
De toda a gente;

E, acima
Do amor
Do próximo,
Que o sublima
Entre os crentes
Ardentes
E os míseros
Ateus,
Bem superior
A todo o amor,
O Amor de Deus!

Eis o Santo:

- Num facho espiritual
De beatitudes,
À g1ória
Incorpórea
Se junta
A graça infinda,

Virtude entre
Virtudes,
Em que há
Tanto
De humano
Reconforto
Como de sobrenatural
Amanhecer. . .

Sente,
Pensa,
Vive ainda
Nessa claridade

Imensa,
Mas já
Fora
Do seu ser...

Vive em sonho
Todo o ano,
Sonho risonho
Pela ternura
Que a Alma invade,
Alegre e pura;
Mas está,
Entretanto
Na crença
Que liberta
Do prazer,
Sempre
Morto
Por morrer...

Agora
Certa
Pergunta
Se faz mister:

SÃO JOÃO DE DEUS

Não
Quis
Ser
Santo,
Foi-o:

Trouxe
A Alma
A esvoaçar,

Sem
Lar
Nem
Pátria,
Doce,
Calma,
Feliz...

No dever
De apartar
O trigo
E o joio;
De só viver

«Será
Santo
Quem quer?»

Por bem,
Para abrigo,
Amparo
E apoio
Dos
Que não
Têm,

Seu
Claro
E puro
Espírito
Sempre em
Graça,
Luz
Acesa
Num escuro
De breu,
Muito além
Desta

Matéria,
Baça
E molesta,
Resplandeceu
Mendigo,
Bom
Amigo
Da pobreza,
Casou-se
Com
A miséria:

Nessa
Mística,
Etérea
Boda,
Mal
Começa
A promessa
Nupcial,
Qual
Se fosse
Coluna
Em
Fogo
Da Fortuna,
Que a Fé
Ergueu;
E como
Quem
- Num assomo,
Num hino -–
Ao esplendor
Do Amor
Divino
Descerra
o véu...

Logo
Espalha
Sozinho,
Espalha...
Espalha...
Mão
Que não
Falha,

À última
Migalha,
Pelo caminho
Da Terra,
Toda
A riqueza
Do céu!

[S. João de Deus na Poesia Portuguesa]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A minha pátria alçou o braço

via MANLIUS by José Carlos on 1/24/08


Início dos anos 50, com a farda da Mocidade Portuguesa em Tetuão


1976 - Couto Viana na trincheira da Rua, semanário que crismou e que ajudou a criar

“A minha pátria alçou o braço
(Pátria pacífica e pequena).
Baixou-o logo, de cansaço.
Foi pena!

(…)
Cedo se calou o ousado brado
Que unia as almas e as bandeiras
Numa velada de soldado
Junto de tendas e fogueiras.

Cedo arrasou a altiva torre
Que ergueram todos de mão dada.
(Agora sei como se morre
Por nada!)
António Manuel Couto Viana
em “Pátria Exausta”

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

PRESENTES! - Para José Ângelo Lobo do Amaral

Perante o monumento
Aos combatentes mortos do Ultramar,
Perfilo-me um momento
E canto: “Heróis do mar…”

Cada um é um herói
Ao enfrentar a morte
Pela pátria que foi,
Leal e forte.

Morreram? Quem é grato
Ao sangue derramado
Na emboscada no mato
Plo peito de soldado?

Não fosse o monumento
(Quem soube erguê-lo à vida?),
Nomes, iam no vento
Da memória perdida.

Vamos bradar: — Presentes!
Presentes neste chão
(— Meu coração, não sentes
Alar-se o coração?).

Presentes na saudade
E presentes na História.
Aqui, a eternidade!
Aqui, a glória!

04Mar2006

NOVO POSTAL A RODRIGO EMÍLIO

Caro Rodrigo:
Se insisto na correspondência,
Arrisco-me a perder o amigo.
Peço-te paciência!

Mas quero confessar com que emoção
Folheei esse fogo, febre, fé
Que a Fátima te fez voar a inspiração,
Com sacrifício do cigarro e do café.


Diante do teu livro, ajoelhei:
Pus-me a rezá-lo como a um rosário.
E, quando terminei,
Floriam rosas pelo Santuário.

Hoje, a tua alma jaz
Aos pés de Nossa Senhora:
Recebes o seu Sol como uma paz,
Plo tempo que não tem ano nem hora.


Deixa-te estar aí, esquece os males da terra.
Tua presença, aqui, nunca é esquecida.
Os teus livros és tu que se descerra.
Lê-los, é ver-te em vida.

22Fev2006

BILHETE POSTAL PARA RODRIGO EMÍLIO

A tua presença fez-me falta,
Agora, que lancei um livro mais,
Onde se exalta
O teu nome e os teus versos imortais.

Queria-te ao meu lado,
Para ouvir-te a opinião e o conselho,
Como no ano passado,
Para saber se estou demasiadoVelho.

Lê o livro por cima dos meus ombros.
É pequeno, não cansa.
Fala de mim, da Pátria reduzida a escombros,
No fatal dia, com menor esperança.

Responde-me no vento e no canto das aves,
Teus companheiros do céu,
E diz-me se achaste, ainda, novidades
Nos meus versos. Valeu?

24Jan2006

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

AQUELA MORTE NAQUELE DIA

AQUELA MORTE NAQUELE DIA
Para o Beckert d`Assumpção, descendente do Barão d`Assumpção, que mandou edificar o Farol da Guia, o primeiro das costas da China.

Os castelos e as quinas começam a sangrar.
Macau, em lágrimas, comove.
Vai engoli-la o céu? Vai naufragá-la o mar?
A névoa esconde a cor das bandeiras no ar.
Chove.

Paira o fantasma de uma igreja. Um sino
Põe-se, lento, a dobrar, moribundo e pesado.
Nenhum Natal acode. A estrela do destino
Não anuncia o Nascimento do Menino,
Mas o Nome de Deus crucificado.

Só cemitérios, cinzas, sombras vagas…
“Não suspireis. Não respireis.” (Alguém murmura?)
Escorrem solidão as faces e as chagas.
A nau-espectro afunda-se nas vagas.
Apagou-se o farol. É noite escura.

O poeta rasgou o alvor da epopeia.
Dela, aqui, não restará lembrança…
O heróico ritmar de uma túmida veia
Extinguiu-se na vaza da pátria agora alheia:
Já não pode rimar futuro com esperança.

Cinco séculos quase a existir Portugal,
Macau, em sangue e lágrimas, desfalece e comove.
Mão assassina assina, na pedra sepulcral,
Um nome ateu, traidor, sobre a data final:
Aos 20 de Dezembro. Ano 99!

O NAUFRÁGIO DE MACAU

Para a Teresa Bernardino

A derradeira nau,
Partindo o leme e o velame roto,
Naufragou em Macau,
Por traição do piloto.

E fora a mais leal:
Em quatro séculos hasteara à ré
O pavilhão de Portugal,
Para glória do Império e defensão da Fé.

E era santo dos santos o seu nome,
Mas erguia na gávea o demo de vigia
Que sem um renegar que o vença e dome
A faz varar na vaza desta maré vazia.

Tripulou-a Camões
Que ali lembrou, previu: — Dos Portugueses,
Com seus profanos corações,
Houve traidores algumas vezes.

Tripulou-a Pessanha,
Murmurando entre névoas de ópio e olvido,
Como quem num queixume e presente desdenha:
“Eu vi a luz em um país perdido.”

Da última da Armada
Que em novos mares buscou cada porto ignorado;
Da jamais apresada,
Tendo ao pirata vil o fuzil apontado,
Hoje como não resta nada
Mais do que o pranto da História e a raiva do meu brado:

— Quem impede o traidor de morrer enforcado?

sábado, 28 de julho de 2007

No Farol da Guia

Pedi ao Farol da Guia,
Pra que a nau não naufragasse
Na noite que fôr o dia,
Que fosse luz e a guiasse.

E pedi mais:
Que baloiçasse no ar
Os sinais
Do tufão que vai chegar,
Pra que ao abrigo do cais
A nau achasse lugar.

E o primeiro farol
De aviso à navegação
No mundo onde nasce o Sol,
Não me disse sim nem não.

Mas a âncora ancorada,
Como fanal de bonança,
Entre os muros da esplanada,
Disse, sem me dizer nada:
- Tem esperança!

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