Sem lápides, sem chumbo, sem jazigo;
caixão de tábuas, derradeira casa,
onde repousarei, frágil abrigo,
até me libertar num golpe de asa.
Então, quando estiver a sós comigo,
que ninguém chore porque o choro atrasa,
mas que alguém, se quiser, num gesto amigo,
ponha roseiras sobre a campa rasa.
Será medo o que sinto? Não é medo.
Serei, não serei digna do Segredo?
Ah, meu Deus, para lá das nebulosas,
Mereça ou não a expiação, a dor,
entrego-Te a minha alma sem temor.
O que resta, o que sobrar, é para as rosas.
Fonte: Audioblogue de Luís Gaspar, post de 15Jan2012.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Testamento
domingo, 1 de agosto de 2010
Reminiscência
"...Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..."
(eu sabia de cor toda a geografia)
O Senhor Inspector
deu-me a nota mais alta em geografia
e disse gravemente:
- "Continua. Hás-de ser gente..." -
"Ângulo recto, agudo,
cateto, hipotenusa..."
(Já manchara de giz a minha blusa
mas respondia a tudo
e a Professora sorria
enquanto eu papagueava a Geometria)
- "...D.Sancho, o Povoador...
D.Dinis, o Lavrador...
(Tinha então boa memória,
sabia as datas da história...)
1380
1640
1143
em Arcos de Valdevez...
(Muito bem, a pequena é simpática).
- "Vamos lá à gramática." -
"...E, nem, não só, mas também...
conjunções copulativas"
(Eu pensava na alegria
que ia dar a minha mãe,
nas frases admirativas
da velha D.Maria,
a minha primeira mestra:
- Tão novinha e ficou "bem"!" -
e esta suavíssima orquestra
acompanhava, em surdina,
o meu primeiro exame de menina
aplicada, orgulhosa e inteligente...)
- "Vá ao quadro, menina! Docilmente
fiz os problemas, dividi fracções,
disse as regras das quatro operações
e finalmente
O Senhor Inspector felicitou-me,
quis saber o meu nome
e declarou-me
que ficara "distinta" sem favor.
Ah! que esplendor!
Que alegria total e sem mistura,
que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol e a claridade
não me cegou.
As estrelas, fitei-as como iguais.
Melhor: como rivais,
e a Humanidade
pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)
Pouco depois, em casa,
a testa em fogo, o olhar em brasa,
gritei num desafio
à Terra, ao Céu, ao Mar, ao Rio:
- "O mãe, eu já sei tudo!"
No seu olhar tranquilo, de veludo,
no seu olhar profundo,
que era todo o meu mundo,
passou uma ironia tão velada,
uma ironia
tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro, cada dia:
"- Ó mãe, eu não sei nada!"
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Menina Perdida
no bosque da vida.
Os olhos desertos,
os gestos errados,
os passos incertos,
os sonhos cansados.
Menina perdida,
desaparecida
nos longos caminhos
de pedras e espinhos.
Cabelos molhados,
pés nús, alma exangue,
vestidos rasgados,
mãos frias, em sangue.
Menina encontrada
na berma da estrada.
Andava perdida
mas já foi achada,
de branco vestida,
de branco calçada.
Menina perdida
no bosque da vida.
terça-feira, 25 de maio de 2010
O Aterro
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Meditação
de segredo e mistério. Noite densa.
Invisível, tirânica presença
povoou a minha noite solitária.
Ah, a insónia com longas mãos de opala
e fundos olhos cegos!
E o pensamento à solta como o vento
- montes e vales, oceanos, pegos!...
e a cabeça que estala,
a cabeça que estala!
Pensar! Como se o humano entendimento
para tanto chegasse! Meditar
em sofás de ridículas saletas
no sábio movimento dos planetas.
Filosofar, oh irrisão,
enquanto mal ou bem
se faz a digestão,
sobre a morte, o devir,
o mistério do ser e do não ser,
e tudo isto a sério, sem sorrir,
como se enfim tudo estivesse dito:
o Caos, a Criação, Deus e o Infinito.
E nem sequer escondes por decoro,
triste mortal com asas de besouro,
ó depenado arcanjo,
que te crês Deus ou pelo menos anjo.
Esta noite foi longa. Longa em mim,
auroral e lunar, sem princípio nem fim.
Meditação
inútil sobre as grades da prisão.
Meditação sobre a existência,
(Existirá ou não?,
ou será tudo simples aparência,
colectiva ilusão?)
Esta noite foi longa. Longa e bela,
calma e branca vigília.
Um fio de luar entrou pela janela
e um doce cheiro a tília.
Abstracções metafísicas, problemas?
O firmamento era um brocado azul bordado a ouro,
fabuloso tesouro
de incomparáveis gemas.
Tudo era silêncio, quietação.
Compreendi então
que o essencial não era compreender
mas sentir e aceitar
a vida e a morte, o bem e o mal,
a flor, o luar
e a ignorância total.
Não mais filosofias de vaidoso esteta
e não mais este orgulho: sou poeta.
Razão
tem-na, talvez, o louco sem razão,
tem-na o monge na cela,
o cego de nascença, a pedra, o sapo,
a boneca de trapo.
O mais é tudo igual: poetas, corifeus...
Esta noite foi longa. Longa e bela.
Encontrei Deus.
Fernanda de Castro - (Exílio, Livraria Bertrand, 1952)
sábado, 17 de abril de 2010
Mulher Perdida
que aconteceu
à tua vida?
Ave caída,
ninguém te disse
que é bela a vida?
Quem te mandou,
asa ferida,
brincar com a vida?
E hoje, perdida,
quem te há-de achar?
A morte ou a vida?
Fernanda de Castro - (Exílio, Livraria Bertrand, 1952)
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Um grande amor
como a vida não cabe num jardim,
como não cabe Deus no Universo
nem o meu coração dentro de mim.
A noite é mais pequena do que o luar,
e é mais vasto o perfume do que a flor.
É a onda mais alta do que o mar.
Não cabe em nenhum verso um grande amor.
Dizer em verso aquilo que se pensa,
ideia de poeta, ideia louca.
Não é bastante a frase mais extensa,
diz mais o beijo do que diz a boca.
Ninguém deve contar o seu segredo.
Versos de amor, só se os fizer assim:
como os pássaros cantam no arvoredo,
como as flores se beijam no jardim.
Que verso incomparável, infinito,
feito de sol, de misterioso brilho,
poderia dizer o que, num grito,
diz a mulher quando lhe nasce um filho?
E quando sobre nós desce a tristeza,
como desce a penumbra sobre o dia,
uma lágrima triste e sem beleza,
diz mais do que a palavra nua e fria.
Redondilha de amor... Para fazê-la,
desse-me Deus a tinta do luar,
a candeia suspensa de uma estrela
e o tinteiro vastíssimo do mar.
Fernanda de Castro - Jardim, (1928)
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O Saco de Retalhos
Até que um Dia...
sábado, 27 de dezembro de 2008
Minha Senhora Goa
Não te conheço o rosto. Nunca vi
a tua luz, minha senhora Goa,
mas vejo-te envolvida no sari
da tua dor, que na minha alma ecoa.
Vejo subir, crescer o Mandovi
das lágrimas, do mal que te magoa;
e a tua voz de exausto co9libri,
de rola prisioneira, ouve-a Lisboa,
esta Lisboa que de longe espera
ver-te sorrir à nova Primavera,
já no mundo espalhada em mil sementes
que um dia hão-de florir, pela vontade
desta invencível Pátria da Saudade,
que somos nós, nos cinco continentes.
Fonte: Obras Completas de Fernanda de Castro - Poesia II, pág 244
A Índia foi verdade?
Chegou da Índia o apelo da aventura,
Quando eu tinha dez anos, pouco mais,
mas como separar-me de meus pais,
tão pequena, tão frágil e insegura?
Contudo a velha mágoa ainda perdura.
Sonho com elefantes e arrozais,
com palmares, com chuvas torrenciais
e olhos verdes, de tigre, entre a verdura.
Fiquei, mas o navio foi por mim
para as terras do âmbar, do jasmim,
e eu, ficando, segui sua viagem.
Agora, a tantos anos de distância,
Já não sei se inventei a minha infância,
se a Índia foi verdade ou foi miragem?
Fonte: Obras Completas de Fernanda de Castro - Poesia II, pág 199
Marvão
São de granito as pedras de Marvão,
mas, ainda mais, são páginas de História.
Houve sangue, houve dor mas houve glória
neste castelo há séculos cristão.
Esta glória é de todos, da Nação
que a mereceu e a guarda na memória.
Foi muito caro o preço da vitória,
quantas vezes a fome em vez de pão.
Castelo de Marvão, águia-real,
asas abertas sobre Portugal
pousada no granito da montanha.
Em torno a mata, as silvas, os penedos;
em baixo o rio, a várzea, os arvoredos,
e ao longe a Estremadura, a velha Espanha.
Fonte: Obras Completas de Fernanda de Castro - Poesia II, pág 185
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Natal
Quando chegava o Natal,
E essa usança continua,
Era já tradicional
Imolar-se uma perua.
Nesse dias, às avessas
Da negrança dos avós,
Atulhavam-se as travessas
De folares e filhós
Fonte: Obras completas de Fernanda de Castro - Poesia I
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
A Sombra de um Salgueiro
Fugi das chaminés.
do fumo, que era um denso nevoeiro.
e procurei, na beira dum regato.
a sombra de um salgueiro.
O silêncio, era música do céu;
o ar parado, absorto,
mas na água tranquila
vogava um peixe morto.
Fernanda de Castro, «Urgente» (1989)
Fonte: Blogue Fernanda de Castro
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Herdei uns olhos claros, sem pecado
Herdei uns olhos claros, sem pecado,toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração.
Fonte: Blogue: Fernanda de Castro
Primeira Hora
"Lisboa, Cais das Colunas (1940-50)", foto de João MartinsO ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol,
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha cansada melodia
de velho rouxinol.
Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas,
e deitou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.
Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
- E eu? - pensei - Que posso deitar fora?
Que poderemos todos deitar fora?
Ai, Senhor, tanta coisa!
Nem cacos, nem farrapos,
nem latas velhas nem trapos
mas tanta dor,
Senhor,
mal empregada!
Tantos gestos errados,
as pequenas traições,
os pequenos pecados.
As calúnias subtis,
as flores venenosas
da alma envenenada,
e a cicatriz
da culpa inconfessada,
e as palavras que ferem como gumes
de afiadas adagas.
Ressentimentos, azedumes
que Te fazem sangrar as Cinco Chagas.
As larvas dos ciúmes
e as cobras rastejantes
dos pensamentos impuros.
Egoísmos sem fim
e os altos muros
das torres de marfim.
Descrença,
indiferença,
despeitos recalcados,
amassados com ódio, com rancor,
e o amargo sabor
da solidão.
Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos deitar fora!
Fernanda de Castro, In "70 anos de Poesia",
Fund. Eng. António de Almeida, 1989, p. 311/2.
sábado, 29 de março de 2008
Asa no espaço, vai pensamento
Asa no espaço, vai pensamento!
Na noite azul, minha alma flutua!
Quero voar nos braços do vento
Quero vogar nos barcos da Lua!
Vai minha alma, branco veleiro
Vai sem destino, a bússola tonta
Por oceanos de nevoeiro
Corre o impossível, de ponta a ponta
Quebra a gaiola, pássaro louco
Não mais fronteiras, foge de mim
Que a terra é curta, que o mar é pouco
Que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma
Ilhas de gelo, névoas, cristais
Palácios de ondas, terras de bruma
Asa, mais alta, mais alta mais
Fonte: Blogue "Estado Sentido" - post de Cristina Ribeiro de 28Mar08
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Eu
O homem de génio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
O ambicioso: eu quero.
Eu! Eu! Eu!
E, afinal,
esses que vivem sós, completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós.
Perdão
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.
Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.
Perdão para os meus pecados conscientes
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...
Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.




