Alma de humilde tem asas,
De ambicioso, rasteja.
O incenso morre nas brasas
E perfuma toda a igreja...
Pedaços de espelho são
Espelhos do mesmo modo...
Reparte o meu coração
E em cada parte irás todo!
Porque fui dançar na boda,
Em que foi que te ofendi?
Andei sempre à roda, à roda,
- Mas sempre à roda de ti...
Não anda sem companheira
O amor, a eterna criança...
Quando não é a Cegueira,
É sempre a Desconfiança
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Quadras
Luar de Janeiro
Quando as andorinhas partiam...
Boca talhada em milagrosas linhas,
A luz aumenta com o seu falar.
Esta manhã, um bando de andorinhas
Ia-se embora, atravessava o mar.
Chegou-lhes às alturas, pela aragem,
Um adeus suave que ela lhes dissera,
- E suspenderam todas a viagem,
Julgando que voltara a Primavera...
Balada da Neve
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Em Wagon
A chaminé vomita fumarada.
A máquina assobia. Parto enfim
Na gare, ao lonje aminha namorada
Agita o lenço branco para mim.
Como restos traçados a nanquim,
Sobre um fundo cenúleo de aguadas
Vejo no espaço nítido, enfim,
As linhas telegráficas da estrada.
O Sol, hóstia de luz resplandecente,
Vai-se elevando gloriosamente,
Na abóbada vastíssima dos céus
E dois choupos batidos pelo vento
Crirvam-se num ligeiuro cumprimento,
Cerimoniosamente, a dizer-me adeus...


