Alerta estão. Alerta, tota a gente
Batalhou, num desvairo, até ao fim.
Cruzam-se as balas no ar - ninguém as sente:
Ferve a glória nos toques de clarim!
Às vagas, contra nós, continuamente,
Cresce a nova-moirama, infecta e ruim.
- Rapazes, fogo! Pelo Rei e em frente!
Eu já tombei, não pensem mais em mim...
A nossa fé, com sangue, não se esgota.
Quem não tem consciência da derrota,
Nunca é vencido, é sempre vencedor!
Sagrada a Geração que assim se bate!
Já viu romper a aurora do Resgate:
O Sol de Ourique não se torna a pôr!
[Obras do Conde de Monsaraz]
sábado, 1 de dezembro de 2007
DA SAUDADE E DO AMOR
PÁTRIA NOVA
[À Academia Monárquica]
Passa El-Rei. Vai nos braços do seu povo.
O Reino é velho, mas o Rei é novo;
Por isso vai levado
Numa onda de ternura e de carinho,
Que aflui de cada lado,
Enchendo-lhe de bençãos o caminho.
Viva El-Rei! Viva El-Rei!
E El-Rei, sorrindo,
- Meu Deus, quando sorri como ele é lindo! -
Afaga a multidão que grita e o aclama;
E no ar, bocas em brasa, olhos em chama,
O ergue na certeza
De que ergue e aclama a Pátria portuguesa.
Viva El-rei! Viva a Pàtria! … A Pátria nova
Há-de surgir da Pátria velha. O povo,
Se a Pàtria é velha, vê que o Rei é novo,
É erguendo o Rei que a Pátria se renova.
Pombas, flores, damascos, colgaduras,
Tremem no espaço. Vai El-Rei passando …
Com ele passa o coração sonhando,
Liberto de amarguras.
Passa com ele a Pátria … Mocidade,
Erguei-o, aclamai-o;
Ele é formoso como o mês de Maio
E tem a vossa idade.
E gritai: Viva a Pátria! Viva El-Rei!
Que embora o mar em fúria se encapele,
Ameaçador, se El-Rei viver, sabei
Que a Pátria nova há-de viver com ele.
[Obras do Conde de Monsaraz]
ALMA RELIGIOSA
[Na parede de uma ermida rústica]
Há uma paz infinita
Na solidão das herdades …
Ó alma das coisas mortas!
Eu sinto que me confortas
Nos campos, quando me invades,
Porque todo me penetras
De ignoradas sugestões,
De mistérios ignorados,
Que evocam os meus cuidados
À flor das minhas canções.
À tona das minhas queixas,
Levada de mundo em fora,
A minha amargura espanta,
Pelas tristezas que canta
E as alegrias que chora.
Surgem misérias e dores
De entre a charneca maninha,
E escuto as mágoas doridas
Que irrompem de tantas vidas,
Muito mais tristes que a minha.
São infelizes que choram
Sem terem consolação;
Criaturas desgraçadas,
Que vivem com sete espadas
Cravadas no coração;
Almas sem fé, almas cegas,
Aos tropeções pelo mundo,
Barcos sem remos nem velas,
Que açoitados das procelas
Naufragam no mar profundo.
Que é certo haver neste vale
De lágrimas muita gente
Que vai andando, sem tino,
À mercê do seu destino,
Da sua sorte inclemente,
E deixa-se ir no abandono
De forças que não reagem,
Como no inferno de Dante,
Por entre o horror palpitante
Duma trágica paisagem.
Vendo as reses tresmalhadas
Nossa Senhora da Guia
Por entre as reses caminha
Procurando, coitadinha,
Toda a noite e todo o dia
Guardá-las no santo aprisco,
Das durezas e amarguras
Do mundo vil, e as protervas
Fogem-lhe em busca das ervas
Salgadas, das pedras duras...
Também no mundo padeço;
Mas terei a recompensa
Num outro mundo melhor,
Se nunca deixar de pôr
Em Deus os olhos da crença.
E à hora da minha morte
Hei-de ver, de par em par,
Num resplendor que idealizo,
As portas do paraíso
Abertas para eu entrar.
Entretanto, irei na terra
Bebendo as santas verdades
O simples mel das colmeias,
Na doce paz das aldeias,
Na solidão das herdades...
[Obras do Conde de Monsaraz]


