segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cecília Meireles na Índia

via Lusofonia Horizontal by Lusofonia Horizontal on 6/6/10
Àquele lado do tempo
onde abre a rosa da aurora,
e onde mais do que a ventura
a dor é perfeita e pura,
chegaremos de mãos dadas.

Chegaremos de mãos dadas,
Tagore, ao divino mundo
em que o amor eterno mora
e onde a alma é o sonho profundo
da rosa dentro da aurora.

Assim foi expressa em verso a reverência de Cecília Meireles ao mestre, o poeta, pintor e educador indiano Rabindranath Tagore, falecido em 1941. Este era, para ela, "o portador do verbo novo, de um grande verbo de estímulo", que "guardava em sua palavra e em sua figura uma expressão de eternidade que o tornava como irreal, sem princípio nem fim, como uma bela aparição, um fantasma esplêndido".

Cecília Meireles, assim como os demais poetas espiritualistas da revista carioca Festa, desde cedo mergulharam nos estudos sobre as culturas asiáticas, em especial a da vasta civilização indiana. E sobre ela fizeram leituras em profundidade, assim como também o fará o poeta mexicano Octavio Paz, autor do extraordinário Vislumbres de la India. Mas a ênfase da "pastora de nuvens" será não na Índia unificada e majestosa refundada pelo nortenho Jalaluddin Akbar, a preferida de Paz, mas na religião-filosofia hinduísta e nas culturas do Sul e de Leste, de Madras a Calcutá, da velha Vijayanagar à Costa Coromandel.

Consta que os poemas de Cecília estão prenhes de metáforas, prosopopeias e outras figuras de linguagem inspiradas do Rig-Veda, além de referências constantes a rodas, giros, cirandas, mandalas e ao atman (partícula manifesta do Uno), enfim, a tudo que representa o circular, o permanente, imperecível e divino, em eterno contrate com o transitório, circunstancial, mundano e material. Um exemplo:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

A dedicação de Cecília à filosofia e literatura hinduísta a levou a traduzir, de Tagore, o livro de poemas Puravi e a peça teatral O carteiro do rei. Além disso, escreveu Rabindranath Tagore and the East West Unity, publicação de 1961 da UNESCO, além de estudos sobre a pintura de Tagore, publicados na Índia. Também estudou o sânscrito. Em 1953, recebeu das mãos de Mahatma Gandhi o título de Doutor Honoris Causa, na Universidade de Nova Delhi.

No Brasil, a educadora Cecília Meireles teve papel protagônico na aplicação das teorias educacionais criadas pelo também educador Tagore, que por sua vez inspirou a criação de muitas universidades na Índia. Ela se sentia tão influenciada pelo eminente erudito indiano que julgava ser sua plagiadora. A verdade é que foi sua fiel aprendiz, e esta é uma relação de sublime cumplicidade que merece ser melhor conhecida. (Para mais detalhes, ver o artigo e as indicações do antropólogo Djalma Cavalcante publicado na Cult, nº 51, de 2001.)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

FADO DO MARINHEIRO de Estêvão Amarante

via Gago Coutinho by costapinto on 5/19/10

O marujo criou fama.
Desde um tal Vasco da Gama
Que no mar foi o primeiro;
E o Pedro Álvares Cabral
Só foi grande em Portugal
Por ter sido marinheiro.
A lutar como um soldado,
Peito ao léu, rosto queimado,
Ao sol da terra africana,
Com a farda em desalinho,
(Foi às ordens de Mouzinho
Que deu caça ao Gungunhana !
Quando o mar era um segredo,
Os antigos tinham medo
De perder-se ou ir a pique;
Só zombavam das porcelas
As primeiras caravelas
Do Infante Dom Henrique!
Fartos já de andar nos mares,
Também vamos pelos ares
Sem temor, abrir caminho;
Pois bem sabe toda a gente
Que o marujo mais valente
É o avô Gago Coutinho!
Nessa Alcântara afamada,
O marujo anda à pancada
E arma sempre espalhafato;
É que guarda na memória
O banzé que houve na história
Do António Prior do Crato.
Quando vai p'rá Fonte Santa
E dá largas à garganta,
P'la guitarra acompanhado.
Até chora o mundo inteiro,
Porque a voz do marinheiro
É a voz do próprio Fado!…

Com o russo em Berlim

via POEMBLOG by JOSE ANTONIO LEAO RAMOS on 5/7/10

Com o russo em Berlim


Esperei (tanta espera), mas agora,
nem cansaço nem dor. Estou tranquilo,
Um dia chegarei, ponta de lança,
com o russo em Berlim.

O tempo que esperei não foi em vão.
Na rua, no telhado. Espera em casa.
No curral; na oficina:um dia entrar
com o russo em Berlim.

Minha boca fechada se crispava.
Ai tempo de ódio e mãos descompassadas.
Como lutar, sem armas, penetrando
com o russo em Berlim?

Só palavras a dar, só pensamentos
ou nem isso: calados num café,
graves, lendo o jornal. Oh, tão melhor
com o russo em Berlim.


Pois também a palavra era proibida.
As bocas não diziam. Só os olhos
no retrato, no mapa. Só os olhos
com o russo em Berlim.

Eu esperei com esperança fria,
calei meu sentimento e ele ressurge
pisado de cavalos e de rádios
com o russo em Berlim.

Eu esperei na China e em todo canto,
em Paris, em Tobruc e nas Ardenas
para chegar, de um ponto em Stalingrado,
com o russo em Berlim.

Cidades que perdi, horas queimando
na pele e na visão: meus homens mortos,
colheita devastada, que ressurge
com o russo em Berlim.

O campo, o campo, sobretudo o campo
espalhado no mundo: prisioneiros
entre cordas e moscas; desfazendo-se
com o russo em Berlim.

Nas camadas marítimas, os peixes
me devorando; e a carga se perdendo,
a carga mais preciosa: para entrar
com o russo em Berlim.

Essa batalha no ar, que me traspassa
(mas estou no cinema,e tão pequeno
e volto triste à casa; por que não
com o russo em Berlim?).

Muitos de mim saíram pelo mar.
Em mim o que é melhor está lutando.
Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim.

Mas que não pare aí. Não chega o termo.
Um vento varre o mundo, varre a vida.
Este vento que passa, irretratável,
com o russo em Berlim.

Olha a esperança à frente dos exércitos,
olha a certeza. Nunca assim tão forte.
Nós que tanto esperamos, nós a temos
com o russo em Berlim.


Uma cidade existe poderosa
a conquistar. E não cairá tão cedo.
Colar de chamas forma-se a enlaçá-la,
com o russo em Berlim.

Uma cidade atroz, ventre metálico
pernas de escravos, boca de negócio,
ajuntamento estúpido, já treme
com o russo em Berlim.

Esta cidade oculta em mil cidades,
trabalhadores do mundo, reuni-vos
para esmagá-la, vós que penetrais
com o russo em Berlim.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

Mais sobre Carlos Drummond de Andrade em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Drummond_de_Andrade

quarta-feira, 2 de junho de 2010

o que me dói

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


terça-feira, 1 de junho de 2010

Ilha do Corvo

Serenamente declinando,a tarde.
Sentadas alguns velhos,lado a lado,
no longo banco de pedra do largo do Outeiro,
bem junto à Casa do Divino Espírito Santo.
E eu,discreto forasteiro,começo por daudá-los,
e com eles me decido a conviver um instante,
porque é bom escutar o seu falar antigo.

Ilha pequena,por certo,- digo eu -,
(de quatrocentas almas)
porém não tão pequena
que não pudesse ter um outro povoado
algures,mais ao norte da costa oriental-
E mais ainda,coisa estranha:
Por que foram ali as casas construídas naquele extremo sul,
todas tão abraçadas,
mutuamente amparadas? -
perguntoeu depois. (...)

Norberto Ávila, In: Percurso de Poeta,2000:65

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Sol da minha terra

via Angola eu te amo by José Sousa on 5/30/10
Quando o despertador da selva
Nos fazia acordar,
Por traz dos morros eu via...
Raios de sol a brilhar.

Quem vivesse dentro da selva
Ainda teria de esperar,
Que o cacimbo por lá existente
...Tivesse que levantar.

Ai que cacimbo tão gostoso!
Sua essência perfumada,
Com perfume tão exótico...
Que nos lembrava a nossa amada.

E o sol ia subindo
E o cacimbo desaparecendo,
Sol e nuvens á mistura...
Sem contarmos… estava chovendo.

Mínima 15, máxima 30
Era a temperatura no Amboim,
Enchendo-nos de alegria
Onde tudo o que existia... era para mim.

Cai a noite... e no horizonte
Savana e céu se misturavam
Céu cinzento, azul avermelhado,
Rugia o Lião... lá longe irado.

Na minha terra é só magia
Sentia-a como um perfeito jardim,
Por todo o lado em que olhava
Via tudo sorrindo... só para mim.

Sou suspeito por assim falar
Daquela terra tão querida,
Mas não quero nem saber...
Em mim viverá para toda a vida!

vocabulário: "Morros" = Montanhas. "Cacimbo" = Nevoeiro. "Amboim" = Nome da região onde eu vivia.

sábado, 29 de maio de 2010

CONFISSÃO

via Sedimentos... by teca on 5/27/10

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

SONS DE ANGOLA DENTRO DE MIM

Nota
Descobri encantado um homem interessante!... Bebeu a água do Kuanza e fez-se poeta. Falo de José Sousa. Para os exilados de África ou de Angola, ou de Moçambique, ou da Guiné, ou de Cabo Verde, ou de São Tomé e até de Timor ou de Macau... como caiem fundo estas palavras: "Sons de Angola dentro de mim"!...
Rui Moio

via Angola eu te amo by José Sousa on 5/26/10

Tenho os sons de Angola
Dentro de mim...

Quando a noite cai
Chegam-me ecos
de Katxa-Katxas
e Reco-Recos
Mpwitas e Tchingufos
E mãos voando
Sob a força de Marufos.
Chegam-me sons...
De Marimbas
Cruzando com Kissanges

Tenho os sons de Angola
Dentro de mim...

E quando
O Grande Tocador me chamar
Irei, de guizos nas mãos
De boca sorridente
Juntar-me... aos meus irmãos
Na Grande Festa
Na Angola mais Deserta.

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