sábado, 6 de outubro de 2007

Desencontro com a vida

Numa só bonina perdi jardins,
Numa só centelha perdi sóis,
Num instante perdi o mundo,
Não encontrei nada errado,
Cheguei tarde? Cheguei cedo? Não sei,
Talvez me tenha desencontrado da vida.

Aqui, além, outrora,
Chego tarde,
Hoje, ontem, e sabe-se lá
Se amanhã também
Chegarei tarde.
Não encontrei nada errado,
Estava tudo certo,
Cheguei tarde? Cheguei cedo? Não sei,
Talvez me tenha desencontrado da vida.

Projectos de ser

Sete poemas
Sete dúvidas
Sete apostas
Na poesia.

Sete ceetezas
Sete esferas
Sete buracos
Nos céus.

Sete sentidos
Sete signos
Sete metáforas
Em mim.

Minha angústia
È não ser livre
Quando escolho
E sigo.

Minha rosa-dos-ventos
Indica paragens distantes,,
Minhas naus estão pesadas.
Serão projectos de ser?
Desejos de completude?
Pesa muito a liberdade
E o destino de ser livre
Minha morte não será ponto final.

As origens

Não sou do Norte,
Não sou do Sul,
Minhas raízes
Pu-las ao vento.

Eu sou do país
Para onde as caravelas
Partiram e não voltaram.
Para trás deixaram,
No cais, nuas as colunas
A olhar para o céu.

À luz da Lua desgrenhada,
As caravelas suas proas
Foram mergulhar
Nas ondas de ternura
De rainhas da noite.

O começo

O ventre da minha mãe
Houvera já arredondado
Por três vezes,
E dentro dele
Despontavam sóis,
Que iluminavam
A sua existência.

Depois em grito exangue,
Ardendo na tormenta,
Esvaziava a maré
Até à preguiça das autoras.

Mas para trás
Já ficava
O entusiasmo do querer.
Para diante,
Seria apenas
O estoicismo do dever.

E nestas marés baixas
Dos sonhos a partirem,
Deu à praia,
Despida de ternunra,
Esvaziada de carinho,
Mais uma existência.
A partir daí
A viver a vida

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Os meninos do Huambo

Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos do Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia

Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já descritas
Constelações que brilham sempre sem parar

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

poema de Manuel Rui Monteiro
musicado por Paulo de Carvalho

domingo, 9 de setembro de 2007

A Salazar

"Había algo de monje en su talante,
blanca la mano sobre el libro abierto,
la soledad fecunda del desierto,
camastro pobre, ayuno, verbo orante.
Algo de bravo caballero andante
que en sus sueños vive y a la vez despierto,
algo de asceta con el gesto yerto
o la sonrisa apenas anhelante.
No discute la patria,
la defiendede la usura sin rostros humanados,
cuando las hoces siegan los sembrados,
y al trigo blanco que del cáliz pende.
Para sí nada quiere, porque entiendea
poder como oficio de abnegados.
El cetro con la cruz van hermanados:
sólo el bullicio al gobernante ofende.
La nación es su casa solariega,
ese hogar lusitano junto al río,
su cátedra, su claustro, el labrantío.
Es el imperio de la fe andariega.
Señor de la mesura a quien no ciega
el aplauso mundano del gentío.
Sacrificio es mandar, pero el bajío
remonta al agua si el amor navega.
Tiene su acción el tono esponsalicio
de los antiguos reyes medievales,
sabedor de las normas teologales,
primero en el deber y en el servicio.
Tiene acaso en Platón su natalicioen
la aldea cristiana sus puntales,
el color de las frondas terrenalesl
a viril inflexión del epinicio.
Siempre de pie lo vieron en Lisboa
jerárquico en la acción y en el sosiego
entre Guinea, Mozambique y Goa.
Quieto el sol sobre Fátima se afila,
quietud de un pueblo en paz y sin trasiego.
Silencio todos: Salazar vigila."

Poema incluído na obra "La Catedral y el Alcázar", da Série "Héroes y Santos", de autoria do Padre Alfredo Sáenz, Ediciones Gladius, Buenos Aires, 2004.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Adamastor cruel

Adamastor cruel!... De teus furores
Quantas vezes me lembro horrorizado!
Ó monstro! Quantas vezes tens tragado
Do soberbo Oriente dos domadores!

Parece-me que entregue a vis traidores
Estou vendo Sepúlveda afamado,
Co(m) a esposa, e co(m) (o)s filhinhos abraçado
Qual Mavorte com Vênus e os Amores.

Parece-me que vejo o triste esposo,
Perdida a tenra prole e a bela dama,
Às garras dos leões correr furioso.

Bem te vingaste em nós do afouto Gama!
Pelos nossos desastres és famoso:
Maldito Adamastor! Maldita fama!

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