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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Não / Não poderei fazer de ti / Um só poema

Não.
Não poderei fazer de ti
Um só poema.
Não poderei jamais cantar
Este desejo,
Este anseio que tenho por ti.
Desvendar-te tudo qu’escondo
E obter de ti,
Palavras de plenitude e d’esperança.
Porque p’ra ti,
Seria como trair um bem
Seria  matar essa imagem
Que não vive no teu corpo
Mas só no teu coração.
Seria desejar… e não amar…
Seria enganar tanta imensidão…
Seria dar corpo a uma alma
E tirar a vida à própria vida.
Ah… Como desejava que  quedasses à minha espera,
Logo, ao cair da noite,
Não com a fé de quem espera uma miragem
Mas com a ânsia férrea dum macho qu’espera a sua fêmea
Para juntos rolarem pelos espaços infinitos
Corpos unidos, lábios colados,
Na agonia lenta que explode num turbilhão d’estrelas.
Por isso, amor, não…
Não poderei escrever de ti um só poema…

Fonte: "Palavras todas as Palavras" - post de 20Jun2010

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Minha busca vã

Ao rouxinol que canta
Na noite que vai caindo
Marcado de triste dor,
Às nuvens que vão subindo
Em matizes d'esplendor,
Eu peço notícias de ti.

Ao vento que vai passando
À brisa que vem chegando,
Ao odor do mar e da flor,
Ao canto das praias varridas
Pelas ondas irritadas,
Eu peço notícias de ti.

Às gaivotas que vão deixando
Pelo ar, um risco branco,
Ao rumor leve dos buzios,
Às mil e uma coisas da terra,
Eu peço notícias de ti.

Aos homens que vêm chegando,
Aos barcos, às fontes, aos rios,
Às estrelas que vão brilhando
Em risos, em frio desdém,
Eu peço notícias de ti.

Ninguém mas dá!
Só a chuva sobre mim em pranto se cerra.
Há silêncio em toda a terra,
Silêncio seco e ruim
De ventos vergando ramos
Como se dentro de mim
O mesmo silêncio se vaze.
Não há notícias de ti!

E neste anseio cansado
Nesta pergunta tão vã
Apenas queria (vê lá)...
Ser nuvem, ser ave, ter asas,
Ter algo mais do que sonhos,
Do que cantos, do que versos,
P'ra que pudesse voar
E poder assim saber,
Algo de ti, meu amor.

Fonte: Página do Facebook de Vera Lúcia

domingo, 20 de junho de 2010

Esse homem

via Banco da Poesia by cdeassis on 6/18/10

Esse homem

Vera Lúcia Kalahari, Portugal

Queria esse homem escondido em ti mesmo,
Esse homem de que tu és apenas uma sombra…
Queria os teus silêncios e os teus sonhos
E essa melancolia que t'envolve como um véu…
Queria o gesto vago que fizeste
Como quem afugenta uma lembrança amarga…
Queria o afago indiferente dos teus dedos
Desfolhando um livro ou escrevendo um poema…
E os pensamentos que às vezes passam um instante
Nos teus olhos, fazendo-te, medroso, cerrá-los um pouco
Para que não escape nada
Queria tudo de silencioso e íntimo, de impreciso e distante
Que ocultas, avaro, em tua grave solidão,
Essa solidão que mesmo nos instantes mais livres
E mais despreocupados, é a atmosfera que respiras,
A nuvem em que t'escondes,
Tua agreste e invisa solidão.
Queria as palavras que não dizes, que não vêm aos teus lábios,
Mais do que num leve e breve sorriso meio triste…
Queria um beijo da tua boca, em tua boca.
Um beijo em que estivesses fremente e palpitante,
Com os teus anseios e os teus mistérios revelados,
E teu corpo ardente estremecendo
De amor intenso, de entrega absoluta,
Na ânsia de revelar-se, de dar-se, de doar-se completamente…
Queria esse homem escondido em ti mesmo.
____________
Ilustração: C. de A.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sonho Pagão

De noite,
Nessas noites mornas e lentas,
Iluminadas pela lua sensual,
Quando as flores se abrem languescentes,
De corolas abertas, carnais,
Como corpos que se entregam
Vou, como uma deusa pagã em desvario,
De narinas dilatadas,
Procurar o excitante odor da tua pele.
A boca sedenta, quer beber-te no ar em brasa…
Ávido o olhar, busco encontrar-te
Nas trevas que m’envolvem…
Vejo-te em cada sombra que se adensa…
Ouço no canto das fontes,
A tua voz, que desconheço…
Tem o langor deste desejo que voa até ti…
Quebro de raiva os ramos que me ferem,
sôfrega dos teus beijos…
Piso…Mastigo as folhas secas que m’acolhem
Com a ilusão de morder-te a carne ardente…
Depois, caída na realidade da minha solidão,
Clamo por ti…
Berro na noite teu nome d’amor…
Aperto em meus braços a forma do teu corpo
E mergulho meus lábios nessa imagem,
Soltando uivos de prazer e desespero…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vontade de Deus

via Banco da Poesia by cdeassis on 12/3/09

Se é vontade de Deus
Eu ser um pingo de chuva
Na esquecida sonolência
Dum rastro d'onda perdida
Eu ser eco ou ser brisa
Ser suspiro ou ser grito
Ou ser uma estrela cadente
Morrendo no infinito…

Se é vontade de Deus
Eu ter de lutar, de gemer,
E de sentir o que sente
O dia fugindo desfeito
Nos dedos frios da noite…

Se é vontade de Deus
Eu ser una ou ser múltipla…
Ser segundo, hora ou dia…
Ser raiz feita flor
Ou ser um caminho aberto
Por onde os pobres desfilam,

Esse será o meu destino
E será minha ventura…
Porque aquele que procura
E anseia por um além
Encontra sempre um bem
No mal que a vida tem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Viagem

Criei o meu mundo irreal e distante…
É lá que vivo, calma e sozinha,
isolada de tudo, no tempo que parou,
como se andasse pelos vales silentes da lua,
nas crateras d’algum astro ignorado,
nas vertigens dum meteoro
ou vagueasse nas paisagens submersas de Ís…
Não chegam lá o ruído, o movimento
dos mares e dos ventos, das cidades e dos campos.
Tudo é silencioso, calmo e sobrenatural,
na sombra do mistério que m’envolve e qu’esconde
como numa ilha de bruma, o meu mundo à parte…
Será terra? Ou céu? Ou mar? Ou astro? Ou nebulosa?
Não sei, não vejo, não sinto
o cenário impalpável e informe que me cerca.
Vivo em mim, tudo sou eu, em mim mesma…
só as minhas mãos estendidas, a minha boca muda,
meus cabelos esparsos que m’envolvem como algas,
como nuvens, e ocultam meus seios,
frementes d’amor, palpitantes e ardentes…
a ânsia duns braços num abraço sem fim…
Meu coração pulsando junto a outro, tão confundidos
como nosso hálito, nossa epiderme, nossas almas…
Tudo sou eu, nesse mundo que criei, perdido,
rolando pelo espaço, entre poeiras de astros,
turbilhões de estrelas, ondas de azul, harmonias…
O meu mundo fulgurante e longínquo
a milênios de luz da terra desprezível,
de onde sairei de mim, sozinha e forte
e pararei a vida, num instante imortal.


segunda-feira, 20 de abril de 2009

AMOR SACRÍLEGO


No meu negro pretérito já passado
Há a sombra triste dum amor imenso.
Imenso mas cruel por ter deixado
O perfume doce do seu incenso.
Amei-o, sim, em doce chama
Meu coração de menina lhe concedi.
Perdi a fé, a paz, perdi a alma,
E era um sacrilégio amar assim.
Era um sacrilégio, mas no seu todo,
Nosso amor era um raro sortilégio…
Criamo-lo neve e era lodo,
Criamo-lo santo e era sacrilégio.
Esse amor, esse amor, foi todo meu.
Em mim, seus laços ficaram impressos.
Nosso amor era luz e era sombra
E eram prantos e risos os nossos beijos.
E foi um sacrilégio e foi loucura
Foi loucura de amor, foi um lamento,
Como um hino imenso de amargura
Como um imenso, lento tormento.

Fonte: Blogue "Infinito"

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

LIVRE

Ser livre…
Deixar para trás os meus desejos
E todos estes loucos preconceitos E partir…
Partir e ter o e nsejo
De ser aquilo que não sou
E que sempre ansiei ser.
Poder caminhar sem um destino
Como errante, pobre peregrino
Tendo apenas como amigas as estrelas
Contando os meus sonhos só a elas.
Misturar-me com os negros nas sanzalas,
Comendo sem rodeios do seu pão,
Ver dançar as chamas das fogueiras
E dormir na dureza duna esteira.
Poder saber por onde vou
E marcar a cada hora o meu dia
Sem sentir a cada passo o grilhão
De se seguir apenas a razão.
Poder provar de cada fruto
Qu’encontrasse nascendo nos pomares
E poder misturar-me com os miúdos
Descalços, livres, vagabundos,
Que vagueiam às portas dos casais
Sem vãos temores e sem barreiras.
Por esta vida simples mas verdadeira
Eu daria a minha vida só de incertezas
E todos os meus sonhos de grandeza.

Fonte: E-mail enviado pela autora

sábado, 13 de dezembro de 2008

POEMA DO MENINO DEUS

Nasceste.
Chegaste num dia frio
De sol cadente.
Dormiras sobre estrelas
E trazias no cabelo
O ouro que tiraras delas.
Nas mãos, um tesouro:
O peso assustador,
Esmagador,
Do mundo.
Trazes nos olhos
A pureza duma açucena,
O brilhar de prantos
Que jamais choraste.
Nasceste.
Não vieste para reinar
Entre prata, ouro ou pedras.
Chegaste só
Com a neve que tombava
E a chuva que tamborilava
No telhado em ruina.
Agora, dormes num monte de feno quente
Cheirando a campo. Perto,tua mãe vela docemente,
Com o peso desse filho que é seu
E salvador do mundo.
Ninguém sabe que vieste.
Nasceste menino, Homem-Deus, para reinar.
Mas não ficaste.
Encontraste em cada esquina,
Um Judas p'ra te trair
Uma coroa d'espinhos p'ra te ferir,
E o peso de pecados a curvar-te,
A enterrar-se
Até ao fundo do teu coração.
Estás em tudo, Menino Deus...
Pena teres partido...
Não teres mantido teu reinado,
Tua humildade imensa de cordeiro
Entre os homens.
Porque entao, Menino Deus,
Esta não seria a terra
De rios entumescidos
De prantos e gemidos,
E nós não seríamos
Estes vermes rastejantes
De olhos suplicantes
Virados para Ti,
Numa ansia agónica de Te tocar
Sem termos forças
Para Te alcançar.

Fonte: E-mail enviado pela autora

sábado, 6 de dezembro de 2008

MORROS DE BENGUELA

Vós que vos ergueis agrestes
Sob o azul do céu nevoado,
Vós que pareceis negros gigantes
Que a Terra (santa mãe)
Não sepultou no ventre ubérrimo,
Dizei-me: Quem sois?
Sim! Contai a glória, ou martírio
(Mistério transcendente)
Dessa vossa vida surpreendente.
Sois monumentos sagrados
De feros dramas e façanhas?
Quem pisou o vosso chão?
Tu, pedra escura,
Que linguagem estranha,
Que mistério escondes?
Dalgum santo missionário
Que pisou e sagrou a tua gleba?
Dum valente, indómito colono
Que com galhardia e amor pátrio
Fecundou Angola, que era Portugal?
Falai-me, por Deus,
Da vossa vida, da vossa lenda,
Penedos escuros de estranhas vidas.
No silêncio perpétuo e eterno
Oh morros de Benguela,
Concedei-me que eu, um dia,
Feita pó, feita lodo,
Durma prostrada, em paz.
Mas depois da minha morte
Feito pedra, pedra forte,
Meu pobre coração
Permaneça eternamente
Repousando a vosso lado.

Fonte: E-mail enviado pela autora

sábado, 8 de novembro de 2008

À minha mãe

A casa da minha infância,
Era real, era verdade?
Tinha flores, tinha alegria,
Sem sombra de dor ou saudade.
E meu vestido branco
Como açucenas mimosas?
Onde estará?
Em farrapos pelos caminhos?
Nas silvas? Nos espinhos das rosas?
(Qu'importa agora sabê-lo?)
Foi pena, Senhor, foi pena,
Que tudo, tudo se fosse.
A ribeirinha perdida
Bem longe, lá na distância,
Onde meu corpo boiava
Como airosa caravela,
Cabelos soltos ao vento,
Olhos negros, anciosos,
Numa busca esperançosa.
(Silêncio à minha volta
Na noite agreste e fria.
Silêncio de ventos gemendo
De folhas soltas, errantes,
De doce aroma de rosas,
De árvores, de galopadas,
Em asas desdobradas
Voando sem direcção).
Tenho medo de querer,
De querer e não ser capaz.
De saltar esta barreira
Para o tempo imaginário,
Em que chorava, gritava,
Por não poder ser rapaz.
De ter que ser menina fina,
De andar amortalhada
Em laços, rendas e sedas,
Cabelos rebeldes, entrançados,
De ouvir a toda a hora:
-Tens que ser uma senhora!
Porquê, minha mãe?
Que foi feito da minha trança?
Do velho pomar
Onde corria provando de cada fruto,
Cheirando todas as flores?
Dos meus bibes de menina
Sujos, rasgados,
Nos ninhos, nos valados?
Ah! Que ânsia, que sede,
De encontrar, enfim,
O meu jardim encantado,
O jardim da minha infância
Perdido para sempre no passado,
Tão distante, mas tão perto!
(Donde vem esta canção
De m'embalar?
Como prender cada nota que escuto
E se afasta de mim,
Como onda a soluçar?
Porque razão a vida mudou?
E se mudou, se tudo passou,
Porque não poder esquecer?
Porque não secar este pranto
E não mais ouvir o canto
Que s'introduz pela alma
Como raios finos de lua,
A amargar, amargar?)
Magoa-me o som desta lembrança
Como um lamento,
Como o vento,
Como uma ária de dor
De ânsia, de amor e saudade?
Oh! Minha mãe,
Que voltas a horas mortas
No silêncio da noite escura
Com passos feitos de lua
Com mãos suaves de flor
Em vestes brancas, aladas,
Em horas de nostalgia.
Nada dizes, nada perguntas,
Mas és tu, minha mãe,
Meu passado já perdido,
Encontrado, reencontrado
(Será isto uma ilusão?
Tudo ouço, tudo escuto:
O canto frio do mar,
O ciciar da floresta,
O sono puro das flores,
O vento das colinas,
A chuva a tamborilar,
A vida de cada hora...
Será isto uma ilusão?)
Oh! Minha mãe, minha mãe...
Lembras-te?
Uma noite, altas horas,
Acordei sobressaltada.
Era um choro à janela
Era o uivo dos chacais
E do vento, misturados.
Lá fui descalça, chorando,
Correndo apavorada,
Em busca dos braços teus,
Que dissipavam as sombras,
O vento, as trevas, os lobos,
Os duendes encantados.
Agora, embora o medo me volte,
Noite a noite, à porfia,
Sem entender a razão,
Levanto-me a horas mortas,
Descalça, apavorada,
Sem encontrar tua mão.
(Chove dentro de mim.
Pressinto-te em meu redor,
A flutuar,
E tenho de fugir,
Saltar o muro,
E correr, correr, sem nunca olhar para trás,
Como fera acossada,
P'ra não te ver, minha mãe,
Com cravos, lírios e rosas,
Dormindo, sem amargura,
Com velas acesas
A rebrilharem nos teus olhos
Na boca cerrada, mas firme
Como se a vida não te tivesse vencido,
Como se tudo valesse a pena
Os risos, as dores,
Os espinhos, as flores.
Para onde irias? Por onde?
( Ah! Sei, enfim, Que brilhas numa estrela:
Na maior, na mais bela: na minha estrela,)
...................
A lua apareceu.
Um raio de luar aquece-me o coração.
Estarei a sonhar?
Por um caminho d'ouro,
Entre nuvens cor de rosa,
Apareces, radiosa.
Ondas de luz, chuva d'estrelas,
Embriagam-me os olhos,
Há pétalas de flores desfolhadas,
Há perfumes, e hinos, cantos de anjos e arcanjos.
Vens de leve, devagar, a estender-me os braços
Feliz e sem idade,
Sem sombra d'alguma saudade
Nos teus olhos deslumbrados.
Tomas-me a mão e partimos,
Entre nuvens de arminho
Plumas de neve.
Sou novamente menina
A galopar, galopar,
No meu cavalo de pau, no meu cavalo de sol.
Sou novamente um anjo!
Um anjo de belas asas,
Pesadas, mal pintadas,
Mas que me fazem cantar,
Porque as perdi, procurei
E voltei a encontrar.
E corro, toco na lua,
Pego com geito em estrelas,
Que se desfazem em pó,
Em nuvens de ouro e de luz.
E lá vou subindo, galopando,
No meu cavalo de fogo, rumo ao sol,
Entre grinaldas de flores,
O coração a palpitar,
De rosas brancas nas mãos.
.............................
Onde estou?
Aqui, onde não estou,
À espera dum amanhã,
A recordar ,
Num tempo sem horas, sem fim,
Num sonho feito de dor,
Que eu não quero sonhar,
Num sono de fumo e esperança,
De que não quero acordar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Contratados

Ah! Caravanas que passais
De homens cansados,
Esfaimados,
Cantando vergados
Ao peso da saudade,
Bandeira branca a tremular ao vento...
Caravanas de homens de pés descalços
Sangrando por tortuosos caminhos...
Como eu vos amo a todos, todos!
Oh mulheres de ancar largas, bamboleantes,
Com filhos ranhosos e famintos
Que vindes em algazarra acenardes adeus,
E gritais, gritais, palavras, impropérios,
Cobrindo o choro dos que partem...
Oh mães velhinhas, doloridas,
Que chorais por não poderdes partir
A dizerdes adeus,
Um adeus distante
A quem não esperais tornar a ver...
Ah! As caravanas, as caravanas!
Caravanas de homens esperançosos
De corpos quebrados
Que vêm de longe e se perdem à distância...

E só o mundo irado,
A fome, o cansaço.
E lá longe, a casa, as terras, as noites luarentas,
O brilho ardente das fogueiras...
E vão nas caravanas, coração pulsando,
E a esperança, sempre a esperança,
Num sonho de riqueza.
E voltam de novo, famintos,
Das terras do fim do mundo.
Voltam à terra onde andaram em pequeninos,
Com o choro dos filhos nus
Esfaimados, a pedir pão.
Deixem, homens, deixem que o tempo
Marque o trilho das caravanas em que ides partir.
Dia a dia, hora a hora,
Ele se rasgará mais brilhante,
Sem que o bafo dum vento quente
Murche as flores da tua esperança.
Partireis, triunfantes,
À demanda, à conquista,
Des terras dum novo mundo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

TEMPO PERDIDO

Sinto raiva só de pensar
Em todo esse tempo perdido,
Nesse oco, esquivo tempo,
Nesse tempo não vivido
Porque o tempo eras tu.
Tempo que nada levou
Porque nele nada valia.
Eras tu a noite e o dia
E como eras tempo te foste
Deixando só amargura.
E porque o tempo tem pó
E é vago tempo sòmente
Não me doi o ficar só.
Tenho raiva unicamente
De ter perdido esse tempo.

Fonte: Blogue "A Minha Sanzala" -post de 05Out2008

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Origens

Eu vim da terra dos traídos
Vim dum monte de sonhos destroçados
Vim de cidades em ruinas
Dum bando de famintos revoltados.
Amei os pobres, as crianças, as mães amarguradas.
Fui choro, fui pranto de muitos lares,
Fui o roçar de facas, de chibatadas.
Entrei nos templos, p'ra achar pureza,
Desci às ruas, p'ra conhecer tristeza.
Fui bandeira branca, desfraldada,
Fui lágrima de noiva abandonada.
Fui grito de dor, brado de morte,
Fui brinquedo morrendo com um menino.
Fui solidão e fui miséria
Fui flor de sangue derramado.
Eu vim da terra dos traídos...
Da terra sem lares, ou maternas mãos...
Sem portos, sem ruas, sem amores,
Sem Credos, sem Deus, sem alvoradas...
Vim dum bando de crianças inocentes
Qu´esperavam com fé p´la madrugada,
Que não conheciam ódios raciais
E tinham direito à sua sobrevivência.
Eu sou a que está convosco, incompreendidos,
Que não querem curvar-se ao cativeiro,
Que querem ser livres, encontrarem-se,
E acreditam que num futuro aurifulgente,
Num mundo sem ódios, nem concessões,
Tudo será melhor, será diferente.

Fonte: Blogue "A minha Sanzala"- post de 24Ago2008

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