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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Luanda

Gosto dela à noite
a horas esquecidas

Gosto dela quando mais
ninguém anda cá fora
e a sinto toda minha…

O sei corpo grande e negro
é quente e generoso,
e os ruídos no escuro
cães ladrando, carros longe
galos, meninos chorando…
fazem uma sinfonia
morna, calma e tropical
como se fosso o respirar
de alguém que descansa.

É por isso

Que eu gosto de Luanda
a horas esquecidas…

Olho o seu corpo, grande,
o seu corpo negro e generoso
e sinto uma ternura especial

Como se fosse o corpo conhecido
duma amante saciada e adormecida
que se olha com amor e com cansaço
e depois se recorda com saudade.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Lembrança

passa um vento morno,
um vento morno
na trémula palmeira,
na neblina prateada.

envoltos na ténue distância
morros azuis de mata
já ao longe.
algures um sino suave tange.

no vento ondula como flâmula
uma saia berrante cor de sangue.

ávores de fruto pão
bailando, mãos abertas,
leques de bananeiras
oscilando lentamente.

visão fugidia, retratada
por inteiro
no livro silencioso da memória.

lembrança de s. Tomé,
sangue, trémula e prateada…

saudade de s. tomé


sábado, 8 de agosto de 2009

Viagem ao Sul

via O Lupango da Jinha em 04/08/09

Esta beleza agonizante do Cuanhama

espraiando-se até à linha do horizonte

como um tapete estafado

que se desfaz sob os nossos pés

fala-me de guerras passadas e de reinos

já dos homens olvidados…

Morrem como a terra as tradições

numa infinita tristeza

numa apática indiferença

que magoa como uma lembrança triste.

Secam as cacimbas, as talas, o capim

só não secam as lágrimas.

Só não morre em mim esta pungente

faculdade de sofrer junto com a terra.

É por isso que eu gosto de cá vir

e é por isso que me custa vir aqui

e ver alvejar a carcassa daquele boi

que morreu o ano passado!

E os paus caídos nos eumbos poeirentos

e os gongueiros sem folhas nem frutos

secos, secos como os braços dos mutiátis…

É por isso que me custa vir aqui!

Sofro e compreendo

O Cuanhama que busca em vão a esperança

que o sol inclemente lhe arrancou

da terra que lentamente se recusa

aos nossos passos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Welwitchia Mirabilis

Como esquecidos esqueletos
dormindo...
Na poeira de oiro desbotado
pedras brancas
alvejadas na triste secura do chão.

Formas estranhas de gravetos
cheios de quebras e espinhos
negrejam de quando em vez
neste chão viúvo de caminhos.

Crucificada
numa encruzilhada que não existe
a forma triste e estatelada
duma Welwitchia sem cor
marca o lugar do encontro
do nada com o esquecimento.

O céu cor de cinza, carregado
de destino
olha para o quadro deserto
Fechado...
A coisa não merece céu aberto...
Com ar desconsolado
de quem já não vale a pena.

Estou ali também--- sentado
sou o toque de humano e pungente
naquela paisagem do deserto.

A. Neves de Sousa, In Batuque
Blogue: "AMORE" - post de 02Dez2008

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Limites dos Sete Cantos da Cidade de S. Filipe de Benguela

     Recreei-te em saudade e cor
Quando me afastei de ti
E os limites que te fiz
São dentro do meu sentir.

Por cima a cor neutra e desdobrada
Dum céu de cinzas de passado.

O Sombreiro como um marco
marco um lado.

As curvas nuas e douradas
de montes femininos
Nus até à cintura verde
Verde dos longos canaviais
Anunciam o limite de Benguela.

Na areia a longa e estreita ferida
Do Cavaco
Escorrendo o sangue de água
Que abre em bananais sombrios
Caminhos às fábulas de antanho
Marca outra fronteira da Cidade.

Para outro lado estende-se o sertão
Palmeiras espetadas pelo mato
Como flechas da aljava
do Soba Caparandanda
Sombreiam a curva dos caminhos
Perdidos na imensidão...

Por outro limite tem Benguela
Saudade no meu coração
E pela frente aberto e vasto
Tem este mar ardente de oiro e poentes
Este mar imenso que sorri ao longe.

Este mar imenso que também chora
E conta histórias de espumas e naufrágios,

Mar que também banha os seios jovens
Das moças que embalam sonhos
Nas sombras azuis dos quintalões

Altas paredes de adobe
Cheias de sonhos e histórias

Que viram as longas caravanas da borracha
E passos perdidos pelos caminhos sem glórias

Molhadas de lágrimas,
Salobras lágrimas
De anseios há muito mortos...
Mais amargos do que o mar
O mar salgado que chora
Cantos de não mais voltar...

Lábios de mar, feitos de espuma, beijando o céu...

Sons dos sinos da Senhora do Pópulo
(Que sabem tudo e que viram tudo,
e nunca contam nada...)
Aconchegam os amantes que se beijam
nos velhos bancos verdes do jardim...

Sob as árvores antigas
Que o vento sul esporeia
Como uma zebra azul
Feita de nuvens e céu.

Coração quente e generoso de Benguela
Bairros do Benfica, Cassôco,
Águas da Cacimba da Rua Nove
Repouso claro e lento
De luas nascidas longe
Na noite semeada de astros
Como olhos de Cazumbis,...

Na noite enorme e feiticeira da cidade

Bruxuleante do bruxedo de fogueiras
Feitas de amores velhos, carcomidos,
Adormecidos, nas velhas casas compridas.

E de fogueiras de verdade que acalentam
Ritmos de guardas da noite
tocados em quissanges melodiosos
Subtis como a própria alma da brisa
Que arranca da terra o sangue vivo
Duma pena antiga que se perde...

Noite semeada de batuques
Batuques que me parecem

O palpitar dum coração imenso
Que se esvai nas noites desdobradas
Num rosário de auroras sucessivas.

Minha Benguela nocturna e antiga
Das amplas ruas cheirando a mar
Colmeia de lembranças que me ferem
Perante a dura realidade do progresso...

Volta:
Volta para os sete limites deste sonho
Sob a grande tristeza vegetal das frondes
Cheias de mistérios ancestrais
Do meu passado que não volta mais...

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Lembrança

    Passa um vento morno,
Um vento morno
Na trémula palmeira,
Na neblina prateada.

Envoltos na ténue distância
Morros azuis de mata
Lá ao longe.
Algures um sino suave tange.

No vento ondula como flâmula
Uma saia berrante cor de sangue.

Árvores de fruta pão
Bailando, mãos abertas,
Leques de bananeiras
Oscilando lentamente.

Visão fugidia, retratada
Por inteiro
No livro silencioso da memória.

Lembrança de São Tomé,
Sangué, trémula e prateada...

Saudade de São Tomé...

domingo, 22 de julho de 2007

Ilha de Moçambique

Ilha de oiro e angustia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.

Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...

Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.

Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.

Riquexos vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados

E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...

Portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...

Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.

"ANGOLANO"

Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?

Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...

A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!

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