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terça-feira, 21 de abril de 2009

Ela foi vestida à belle époque

Ela foi vestida à belle époque,
quando surgiram os sapatos a preto
e branco
os anos loucos do foxtrot.
Uma fantasia de carnacal.
Raposas espiando
sinais misteriosos.
Na Luanda troopical. Penteado
de brilhantina
ele quer uns sapatos com
música
para dançar swing, rumba
e tango.
Anos quarenta. São sapatos pretos
e brancos.
Trinta anos depois, em Brazaville,
pegou a moda chamarem-lhes
- a dois tempos.
Anos oitenta,
ao som do jazz de Keith Jarret
os sapatso com música anunciavam
o baile a dois tempos
ao ritmo do samba.

Fonte: Lágrimas e Laranjas de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 42

À Miete Marcelino

À Miete Marcelino

A casa grande
risos
azáfama na cozinha.
Nós as meninas brincávamos
no jardim.
Tinhas a palavra certa
a delixadeza do gesto
com paciência e carinho.
Tu
que nos contaste as estórias
do Jesus menino
foste esperada por fuzis.

Fonte: Lágrimas e Laranjas de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 33

Fomos peregrinos de tantos lugares

Fomos peregrinos de tantos lugares
e de gentes de outras línguas
bebemos água de muitas fontes.

Mas àquela cachoeira
que nos pertencia
não podíamos chegar.
Prenderam-nos no exílio
e na tortura de a sonhar.

Não somos mais peregrinos,
estamos em outro lugar.
Mas viaja a alma
para nessa cachoeira mergulhar.

Fonte: Lá grimas e Laranjas de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 31

No temporal da revolução

No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casdadoiras
naufragaram.

Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi o meu enxoval.

Fonte: Do Tempo Supenso de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 37

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