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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Poema de Luto Pesado II - [Homenagem de Rodrigo Emílio ao Comandante Francisco Daniel Roxo]

Nota
O Comandante Daniel Roxo faleceu heroicamente em combate e ao serviço da Portugalidade no sul de Angola a 23 de Agosto de 1976. Faz hoje 37 anos.
O grande poeta nacionalista Rodrigo Emílio prestou-lhe esta homenagem que foi publicada no seu livro "Reunião de Ruínas", 1976.
Rui Moio


O teu habitat há-de sempre ser à prova de devassa.
Está nesse mato
Mulato
Em que assentaste praça,
E que já hoje, de raiz, te abraça
- Viriato
Do Niassa!

Ao peso da verde capa de capim, que te revista,
Ou sob o tórrido tampão de terra que assista
À tua ausência
- É de pé, e bem a prumo, que o teu corpo agora jaz!

E, ao terrorista
Sem rumo,
Ainda hoje impões tenência
E passo atrás!

Tu cuidaste apenas de arriscar a pele…
Até ao fim, fizeste a guerra
Por amor de um país chocho,
E frouxo,
Hoje por hoje entregue à cobardia.

(ouves-me aí, Daniel,
DANIEL ROXO?...

- Esta pobre terra não te merecia!)

Mas, lá do regaço – ingrato –
Desse mato tropical,
Em que tu, afinal, ficaste intacto
- Já nem a própria morte te rechassa,
Viriato
Do Niassa!

E daí que eu cante
E que te conte,
Comandante,
No horizonte d´este instante
Sem horizontes defronte;
E que daqui em diante
Não me cale –
Em recado encomendado
Para o solo, sacral
E tão sagrado,
Ao colo do qual Já tu estás soldado.
Vivo horas d´um Outro Horto
Mortal,
Meu herói morto…

Irado,
Absorto e reclinado
Sobre a sombra do teu corpo
Ou aos pés da tua alma
Ajoelhado,
Eu sei que estou, afinal,
Perante o desconforto,
Sem igual,
De ver baixar ao teu coval,
Portugal amortalhado!

Acolhe-te, agora à sombra lisa d´uma lousa.
E, na sempre abrasadora asa da brisa,
Em paz repousa
De todo o esforço quinto-imperial,
Que tens levado.

Dá longas tréguas de sono
A esse teu corpo moço
- De colono
E de colosso;
De soldado
Ao solo dado!...

Fonte: Blogue "Dos Veteranos da Guerra do Ultramar  (1959 a 1975)"

sábado, 12 de janeiro de 2013

IRMÃOS D'ARMAS

Morreremos no mesmo dia
Pedras do mesmo padrão
Todo o condão e a magia
Toda a magia da acção
Gerando a interior geografia
De mapas sem dimensão

Morreremos no mesmo dia
Noivos do mesmo nevão
Solidão por companhia
Manhã d'armas meu irmão!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Prefa(s)cio-II - TERÇA-FEIRA, MARÇO 28, 2006

TERÇA-FEIRA, MARÇO 28, 2006

Rodrigo Emílio
Passam hoje dois anos sobre a morte do poeta.

Prefa(s)cio-II

De entre todos os motivos
porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,

sobressaem, sempre vivos:

os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.

Rodrigo Emílio
PUBLICADA POR RODRIGO N.P. ÀS 3/28/2006

Fonte: Blogue "Batalha Final" - post de 28Mar2006http://batalhafinal.blogspot.com/2006/03/rodrigo-emlio.html

terça-feira, 30 de março de 2010

Rodrigo Emílio (18/02/1944 — 28/03/2004)

via INCONFORMISTA.INFO by DB on 3/29/10
Quando eu morrer,
não haja alarme!
Não deitem nada,
a tapar-me:
— nem mortalha.

Deixem-me recolher
à intimidade da minha carne,
como quem se acolhe a um pano de muralha
ou a uma nova morada,
talhada pela malha
da jornada...

— E que uma lágrima me valha...!
Uma lágrima — e mais nada...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Poema de Luto Pesado por Rodrigo Emílio

via nonas by nonas on 12/14/09
(Em memória e louvor do Tenente-Coronel
MAGGIOLO DE GOUVEIA e de mais sessenta
PORTUGUESES, fuzilados em TIMOR pelos
facínoras comunistas da Fretilin)

Para o Pedro Rocha, a quem este poema e
respectivo autor tantíssimo devem...

Tu viste, do céu?...
Assististe, Senhor,
à chacina de Ailéu
(algures, em Timor)?!...

Viste a morte cruenta
e sangrenta
— tal como aquela que se dá às rezes... —
que sofreram 50 ou 60
Portugueses?!...

Viste como esses perseguidos
se persignaram, em português,
por môr de Dili
— e à hora da morte, unidos,
ali ajoelharam,
uma última vez
diante de Ti?...

E viste, viste também
(à flor da ilha que lhes foi berço
e lhes foi cova duradoura),
como todos, em côro, rezaram o terço
a Tua Santa Mãe,
Nossa Senhora?!...

Não deixaste sequer de reparar
que, mal a oração final
por ali se pronuncia —
eles, todos, em coral,
desataram a cantar
ao Coração Virginal
de Maria!...
... ... ...

Finalmente,
puseram-se de pé.

E à frente
de tão nobre gente,
há então quem dê
um último e ardente
testemunho de fé.

É o Tenente-Coronel
MAGGIOLO DE GOUVEIA
— que não cura de salvar a pele,
mas a epopeia!

Em nome de todos, disse isto,
Senhor!,
às fardas cruéis
que os iam matar:

«Morremos por CRISTO
e por TIMOR.
Podeis
disparar».

Rodrigo Emílio

In Poemas de Braço ao Alto, págs. 98/99.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Velada de Almas, em véspera da Perda da Independência

Velada de Almas, em véspera da Perda da Independência

via MANLIUS by José Carlos on 11/30/09
VELADAS D'ARMAS E D'ALMAS

À memória do 1.º cabo, António de Oliveira
Paulino, meu devoto e sempre lembrado
condutor-auto.

1.

A dois dedos da madrugada
me adianto
para o camarada
morto — e canto, canto

como quem aponta uma espada
ao espaço do próprio espanto!...

Fixar-lhe a face fechada
é agasalhá-lo no manto
do tempo que arrecada
e cujo tampo levanto

É calcorrear uma estrada
com memórias a cada canto,
entoar a mais bela balada
do desencanto.

E não há nada
que valha tanto!

A dois dedos da madrugada
— canto!, canto…
Camarada:
Em pranto, canto!

2.

Quedou sempre manhã cedo
Na vida do camarada
Que o degredo não degrada,
Vem a medo, bem-amada

E singra e sangra em segredo
(E singra e sangra, sagrada)

3.

Pelas alturas se altera
Que outra vida o persuade
A ficar, em sonho, à espera
— À espera da eternidade…

Hoje é indício de enseadas
Além-Morte (A Morte vence-o,
Com o cilício e as ciladas
Do seu solene silêncio…)

4.

Agora, ei-lo a sós
Por trás da muralha
Do sono, e da voz
Que o silêncio agasalha

Da guerra descansa,
Em paz — tal maré
Sobre quem só é lembrança
Ou mais que lembrança é.

5.

Moída mais que por mós
A memória dá recado
De um coração que por nós
Bate apesar de enterrado.

Concha do chão, sonho a sós,
Na morte o encontro marcado
Do silêncio com a voz,
Do presente com o passado.

Veio a noite, e a paz após.
De vala a vala embalado,
Ali jaz, sono sem foz,
Em solidão o soldado

Atrás do remorso atroz
Que punge e chaga do lado
De um coração que por nós
Bate apesar de enterrado…

Pela dádiva desmedida
Do eterno camarada

Levo o tempo de vencida
E trago na minha vida
A morte dele hospedada!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

BALADA DE CAMPAMENTO

As manhãs de Campamento
vinham ter comigo à cama,
com as rajadas de vento
da Serra de Guadarrama.

De Campamento me lembro
sete dias na semana.
Panorama friorento...
Nevoento panorama...

O suor do esquecimento
já aos poucos se derrama
sobre o rosto do Convento,
que me chama... Que me chama!...

Convento de Campamento,
pousada samaritana:
— por fora, vento; por dentro,
acalanto e acalento,
à tona de tão mau tempo...,
ao lume de tanta lama.

Foi-me palco de advento
e adro de muito drama.
Confiei-lhe o meu lamento.
Solfejou-me o seu hosana.
(O meu último rebento,
que a três «manos» — mais — se irmana,
é natural do Convento
de Campamento; e lá dentro
teve berço, colo e... mama).

Cobrou lá, chama e alento.
Lá, ganhou alento e chama,
como em qualquer sonolento
regaço de velha ama.

Lá lhe grangeei sustento;
e, grão a grão, grama a grama,
lá lhe meti boca dentro
a papa quotidiana.
(Era de escasso alimento
essa niña franciscana...)

Revejo-a, a todo o momento,
de xalinho e em pijama,
no xadrês do pavimento
do Convento, que a aclama
— mesmo se o seu turbulento
feitio de catavento
desponta por la mañana.

Lá «gatinhou» a contento...
Lá, colheu mimos... e fama.
Lá lhe modelou o tempo
seu perfil de filigrana.

Ai dias de Campamento,
cinzelados a cinzento...,
bordados de renda e rama...,
na cerca desse Convento
que, adentro de mim adentro,
se protege do relento
da Meseta castelhana!...

Ora absorto, ora atento
ao isento isolamento
que azuladamente o banha,
alevanta-se o Convento —
, ali, naquele epicentro
espiritual da Espanha...

— ...Alevanta-se o Convento;
e levita, paira, plana...
, como que a dar tempo ao tempo
e montanhas à montanha!...

Convento de Campamento,
minha tenda de campanha
entranhada serra dentro,
mas que a serra desentranha
num girassol de cimento —
— armado — por — quem — no — ama:

— Mete a proa a contravento,
e faz, como as naus do Gama,
guerra ao tempo
e à moirama!...

Ai tardes de alheamento...
Serões de noite serrana...
Ai tempo à prova de tempo,
no bento recolhimento
das faldas de Guadarrama!

Ai tardes de alheamento
— e manhãs de cinerama!...

De Campamento me lembro
sete dias na semana.
Persiana... Paramento...
Paramento e persiana...

O suor do esquecimento
já aos poucos se derrama
sobre o rosto do Convento
que me chama...

... Convento de Campamento,
templo de Marte e Diana,
a impôr ao firmamento —
com expressões de nirvana...
— seu recorte corpulento,
seu aspecto macilento,
sua fronte soberana...


quarta-feira, 29 de abril de 2009

De Santa Maria de Belém para Santa Maria da Vitória

Quem, do alto
de tanta sela
e montada,
tanta vez, em sobressalto,
pôs Castela
em debandada...,

— ...pode lá ver, pela frente
pode lá ter, por diante
(sem que se exalte e se zangue
o seu rompante guerreiro)
, apenas gente aparente... gente
de sangue rafeiro?!...

Na imagem de vitral 
do espiritual cavaleiro —
medalhão medieval,
aos pés do qual
me consterno...
—, está ou não PORTUGAL
DE PORTUGAL?...
Está ou não PORTUGAL, inteiro,
e eterno?!...

É mister que, aferro e fogo,
quase tudo, aqui, de novo,
como novo se consagre...

De tal sorte que este povo
possa pôr cobro ao malogro
e opere, em Si, o milagre!

(— Assim nos valha
uma outra
batalha
d’Aljubarrota...)

A coroa da descrença
não há fronte que a suporte
da nascença
até à morte.

(Quanta vez o simples brado
d’uma voz d’além, remota,
tem tirado de cuidado
todo este Povo — e arredado,
do espírito mais crispado,
o espectro da derrota?!...

— Foi, ou não foi, ao mandado
de certa força ignota
que a gente formou quadrado
nos campos d’Aljubarrota?...)

Sob o alto e estuante historial
deste Mosteiro —
Mosteiro de pedra e cal,
perante o qual
me prosterno...
—, está ou não PORTUGAL
DE PORTUGAL?...
Está ou não PORTUGAL inteiro e
eterno?!...

... Mas, enquanto a esperança
não se abre ou entreabre,
dia-a-dia se agiganta
a abadia da memória
— à luz da lança
com que o Santo Condestabre
talhou Santa Maria
da Vitória!...

E ali, é que eu a mim me reúno,
debaixo daquela antiga bandeira
que me quis sagrar aluno
de D. Nuno
Álvares Pereira.

Do alto, lá do Seu posto,
atenda Ele, ao recado
que me foi lançado em rosto,
derramado o Seu desgosto
sobre a data já remota.
— Dia 14 d’Agosto:
Quadrado
d’Aljubarrota!

Quem já deu como morto
o Condestável,
esqueceu que o Seu corpo
é insepultável!...

Esqueceu que d’Ele descendo;
e que o fogo que ora acendo,
e em mais peitos vai ardendo,
só não passa a lume brando
— porque eu d’aqui me encomendo,
outra vez, ao Seu comando!

E a façanha que, de longe,
se desenha para hoje,
traça ali todo um roteiro
— que une a estamenha
do monge
à couraça do guerreiro!

Saia, de novo, a terreiro
— d’atalaia
e a dar ajuda —
todo o povo. O povo inteiro
outra vez contra o estrangeiro
nos acuda:
ponha a andar d’aqui o Andeiro
a tal arraia-miúda!

Arraial, Arraial
(de porrada)
Por PORTUGAL
— e mais nada.

Que sinal d’orfandade
sinal te amarfanha,
Orfeu ofendido?...

— ...Ou sempre é verdade
que a teia d’aranha
que ganha a cidade
te deixa transido?!...

Rodrigo Emílio - In Poemas de Braço ao Alto, 1982, págs. 543/557

domingo, 12 de abril de 2009

ROSÁCEA D`ALJUBARROTA

À vista do Mosteiro
da Batalha
— há conquista
que resista,
há lá guerreiro
que valha?!...

...Deixai, então, que vos fale
(— porque me dá cuidado
e por mais nada!)
d`aqueloutro Portugal
talhado à espada
e condenado, afinal,
a não ser nada... —

...Sala d`aula do Além,
anfiteatro do Mar,
— que ninguém, que já ninguém
hoje vem
contemplar...

Rodrigo Emílio, In Poemas de Braço ao Alto, 1982, págs. 541/542

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dei asas ao azedume

Dei asas ao azedume.
Saciei-me, a poder d'ácido!

(Permita Deus que se esfume,
do átrio deste volume,
qualquer perfume a prefácio...)

— ... Dá-me licença que fume,
Senhor Conselheiro Acácio?...
Tem lume, aí? Dá-me lume?...
(Com o seu beneplácito,

Vou pegar fogo ao negrume:
dar-lhe o fascínio d’um fascio
— como o que ardeu em Fiume,
como os que arderam no Lácio!...)

Já, contudo, subo ao cume
do desencanto mais árido.
— Por costume? — Por costume.
— Mau costume... — Questão d'hábito!

Ando a ver se arranjo lume
violento, e violáceo,
para o queimar sem queixume —
Senhor Conselheiro Acácio!

(Trespasso-o a fio de gume,
cravo em si inglório gládio;
à espera que se aprume
e se apronte em seu cenário
— entaipo-o, então, num tapume,
sem direito a epitáfio).

E bem se me dá que espume
de raiva, e esperneie ao máximo —
seu galinácio implume...
Seu palhaço de palácio!

Contra a prosápia que assume,
criei crosta de crustáceo.
Haja o que houver, fico imune:
fico impávido e plácido.

(— Desafio-o a que vislumbre
coração mais coriáceo
do que este meu, que reune
o romântico e o clássico...)

... Dá-me licença que fume,
Senhor Conselheiro Acácio?...
Tem lume, aí? Dá-me lume?...
— Sem o seu beneplácito,

vou pegar fogo ao negrume:
dar-lhe o fascínio d’um fascio
— como o que ardeu em Fiume,
como os que arderam no Lácio!...


quarta-feira, 28 de maio de 2008

28 de Maio, Sempre

Eu não nasci para lacaio
dos papagaios da mentira.
De Maio é que já não saio.
De Maio ninguém me tira!

Fonte: Blogue "Nonas" - post de 28Mai2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Voltei /Ao casarão velho

Voltei
ao casarão velho,
onde já tudo morreu...
Tirei
a venda ao espelho,
e olhei. Olhei, recuei.
Recuei, gritei:
- Era EU!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Piparotes satíricos no 25 d' Abril

MALAS-ARTES, PARTES-GAGAS, UNS ÀPARTES E UMAS PRAGAS
PRIMEIRO PIPAROTE — MOVIMENTO DAS FARSAS (AL)ARMADAS

25 d`Abril. Peca data
em que só desertores agem,
renegados, e uma data
d`acéfalos cheios de lata,
de cobardes sem contagem…

A traição brota em cascata.
—Vá de fartar, vilanagem!...

Andam vendilhões à cata
de não sei bem que homenagem
à pilhagem…

E a Nação em peso acata
a heroicidade barata
que sem cessar se desata
d'um capitão-democrata,
e a tiritar de coragem!...

SEGUNDO PIPAROTE — MOVIMENTO DAS FORÇAS... A ARMAR

Em tom de viva bravata,
Soa um grito formidando:
— «Ó Capitão-democrata,
Vai p'ró mato, meu malandro!...»

(Ai, como dói, como dói
Ver tanto filho-da-puta
A apregoar que é herói
Todo aquele que foge à luta...)

TERCEIRO PIPAROTE — MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS… EM FORÇAS

O major, na manjedoura,
Vai chuchando caramelos.
Por trás dele, em lugar d'honra,
Dois retratos paralelos:
— O do Cristovão de Moura
E o do Miguel Vasconcelos.

(Melhor nos fôra, melhor,
Que ao democrata-major
O bom-bom fosse indigesto.
— Talvez, então, o major
Desse o corpo-ao-manifesto...)

Mas, degustado o primeiro
Chupa-chupa,
Já o chalupa do major é brigadeiro,
E upa! Upa!

Promoções em espiral
Ascensional:
— À garupa, os galões
De general!

QUARTO PIPAROTE — NA HORA DA PLEBE: COM UM CRAVO À BANDA
E DOIS DEDOS EM GALHO

Ora, enfim!
Por mais gozo,
Contrafeito,
Que me dê,

Ver-te, assim,
De cravo piroso
Ao peito,
E com os dedos em V,

— Nada iludirá o alarme
Que me pôs de sentinela,
Para o caso de tentares vir profanar-me
A lapela...

QUINTO PIPAROTE — RIFÃO D'ABRIL

Foi à guerra,
Como nós para os empregos
Da lei!

(Mas nesta terra
De cegos,
Quem tem monóculo é rei...)

PIPAROTE FINAL — GLOSA D'UMA SÁTIRA DE JOÃO DE DEUS, PARA A HORA ACTUAL

Há mil e tantos dias, simplesmente,
Que este sistema nos governa, e vêde
Comércio, indústria, tudo florescente!
Os caminhos-de-ferro é uma rede.
E quanto a instrução, toda esta gente
Faz riscos de carvão numa parede.

Fonte: Blogue Nonas - post de 25Abr2008

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

EPÍGRAFE

Sempre que a Pátria decreta
Vem-nos de Deus o recado
- E veste-se cada poeta
De soldado.

Já de Macau me despeço para sempre e nunca mais


Já de Macau me Despeço para Sempre e Nunca Mais

Soubesse eu dar expressão
à mágoa que me domina…!

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China”…)

Traição atrás de Traição,
Está consumada, à pressão,
A geral carnificina…!

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China.)

Portugal caíu ao chão.
Cresce, em montão, a ruína…

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China.)

Já Macau baixa ao porão
De um galeão à bolina…

… E o peso da cerração
Sem tino, que tem em cima,
Tolda a visão da monção
Que o destino lhe destina.

Já Macau baixa ao porão;
e, em cega navegação,
recolhe, atrás da cortina…

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)

Não há palavras à mão
de semear, metro ou rima
que dêem voz ou vazão
ao vazio da erosão
que tudo mina e fulmina!

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)

O Império (Diz-se) foi chão
que deu uvas p´rá vindima
ao primeiro capitão
ou capataz da esquina…

(Tenho, hoje, o coração
da cõr da Tinta-da-China…!)

Entra em zona de Tufão
Todas a pátria ultramarina
- e é que, da costa ao sertão,
já nem rota nem rotina…!

Sofre cada possessão,
sopra um suão de chacina!
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)

Porca de sorte, a que estão
Tendo o reino e os que lhe são
seiva de cada Talhão!
Porca de sorte suína!...

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)

Da Eslávia ao Industão,
na Nipónia à Palestina,
do Malabar a Ceilão,
da Ameríndia até Damão,
Goa, Diu… e Hiroschima,
- só marés de perdição
e turbilhões de má sina…!

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)

Póde haver lá tradução
Para a mortificação,
Face à agonia, a aflição
Que me alucina e lancina?!...

(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)

Anda à solta, um furação
que, de roldão, tudo mina…
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)

Rodrigo Emílio, Lisboa, aos 18 de Dezembro de 1999
OBS: Cópia de Rui Moio

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