Mostrar mensagens com a etiqueta Maria José Praça. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria José Praça. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de abril de 2010

GUINÉ (sei que só eu entendo...)

Carrego o ventre
d'essa terra de veias
onde os rios escrevem os caminhos...

Nada sei d'ela...
Nunca os meus pés pisaram o seu chão
sulcado por rodas que invento...

Era um jeep jogado ao infinito
e um fundo de poente
desatado do céu...

As palavras falavam de vida
e na necessidade de a respirarmos
em todos os seus ventos e águas.

Tentei beber-lhe a terra
e desaguar, oceânica,
entre rosmaninho inventado e estevas de primavera
onde um bote planava como uma ave d'asas.

Desatei-me ao caminho da picada
porque os rios recortavam ausências
e rasguei-me por trilhos sem foz...

OBS: Estou a falar da Guiné...

MariaJoséPraça (N.126080 da SPA) - Julho de 1995

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

PONHO A MESA DE AZEVINHO

Neste mosto de Natal
Com luzes sem tal e qual
Como as que guardo da infância
Rasgo o poema num galho
Que desdobro na memória
À lareira da lembrança

É feito das minhas ondas
Que se derretem no olhar
Entre presépios desfeitos
E sinos a badalar

E na toalha de linho
D'uma avó que já não tenho
Celebro a pauta da vida
Em canto sem ter tamanho

É Hino aberto ao pulsar
D'uma Estrela sem Belém
Vai no regato do sangue
P'ró musgo da minha Mãe

Ponho a mesa d'azevinho
Com palhas de fios de lã
Com chaminés de poemas
Soltos em grãos de romã

E em jantar onde me sento
Com olhos de ver em mim
Trilho saudades do tempo
Em ceia de mar sem fim

Nozes,passas,figos secos
Licores-doces,doces-vinhos
Rabanadas,filhós,sonhos
Cantilenas de carinhos

Sapatinhos, botas,socas
Mais um madeiro a queimar
O frio da Missa do Galo
E a neve deste gelar

E no cruzar do caminho
Num alpendre sem ter nome
Um Cristo a dormir sozinho
Em Natal que foge a monte...

Maria José Praça (N.126080 da SPA)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

SE FORES À FONTE, LISBOA !

Sentei-me à mesa do fado
Embriaguei-me de mim
Deitei-me em pontos finais
Entre memórias de cantos
Soluçando mares de prantos
À vela dos meus sinais

Não me levaram de mim
Que o Fado não é assim
Não vai indo nem vogando
É impressão digital
É A -Dê -Ene fatal
Que finge a fingir que é dor
A dor que vai na corrente
A dor que deveras sente

Se fores à fonte, Lisboa
Bebe a água dos meus ais
E no manto do teu rio
Escreve o meu cantar a fio
Com retinas soletradas
E ondas enrodilhadas
No tempo do teu navio ...

mariajosépraça. (N.126080 da SPA) -Setembro 2009 -

domingo, 8 de novembro de 2009

DÁ-ME UM TRAGO DE TRIPEIRO

Dá-me uma gota de ti
N'uma palavra que seja
Despida d'outros sinais
Que não sejam vendavais
De rasgos soltos aos ais
De gaivotas a cantar
Do peito do teu lugar

Dá-me uma flor desfolhada
Com seiva d'água na boca
E lonjuras de moinhos
Com alquimias de vento
A rasgar céus em pedaços
E a bater no coração
Das espigas da minha mão

Dá-me um chá preto-das-cinco
E o Bolero de Ravel
Com a pauta trauteada no pulso da tua pele
Dá-me um trago de tripeiro
Em qualquer cave sem pé
Com medronhos soletrados
Ao sabor da tua fé...

Maria José Praça (N.126080 da SPA)

sábado, 8 de agosto de 2009

Maria José Praça - Poetisa

Lisboa é chão de rua

É calçada de escravos e de sol
É promontório de corvos e de luas
E de colinas de fado sem lençol

Lisboa é alfacinha e tem olhares
Tem luzes qu'iluminam os lugares
Tem escadinhas,letreiros e azulejos
Calçadas estreitinhas e marés
Casas de pasto,tertúlias e chalés

Lisboa é voz de marcha soletrada
É canto d'aventais e manjericos
Tem arcos d'Aqueduto e tem salpicos
De sardinheiras floridas nos postigos

Lisboa é ventre d'asas, tem gaivotas
Tem Pasteis de Belém e tem vielas
Casas de passe, igrejas e ruelas
Caracóis, moelas e iscas com elas

Lisboa é mãe de bairros, tem castelo
Vestem-na toponomias mouras e de coroas
Tem miradouros, ascensores e amoladores
Tem Bica do Sapato e engraxadores

Lisboa tem teclados de rio Tejo
Tem Cacaus da Ribeira e tem ginginhas
Tem sardinhas assadas e castanhas
E gatos a espreitar entre rendinhas

Bebe café com Bocage no Nicola
Na Brasileira, desassossego d'astros
E folheando na Bertrand, vai respirando
O Grandela em cinzas, sem ter pasto

Tem Martinho d'Arcada com lembranças
Tem livros multicores, alfarrabistas
Tem Praça d'Alegria com coristas
Bombeiros voluntários e fadistas

Tem a Feira da Ladra aos quadradinhos
Com pechisbeques, valores, penhores e outros valores
Tem eléctricos pintados com a cor
Do milho p'rás pombinhas sem favores

Tem gavetas e armários com memórias
Tem Parque das Nações e Centros Culturais
E tem mais e mais e muito mais
Que encontra no Roteiro de Lisboa
Gizado como em tela por Fernando Pessoa.

Maria José Praça (N.126080 da SPA)

Related Posts with Thumbnails