Lisboa é chão de rua
É calçada de escravos e de sol
É promontório de corvos e de luas
E de colinas de fado sem lençol
Lisboa é alfacinha e tem olhares
Tem luzes qu'iluminam os lugares
Tem escadinhas,letreiros e azulejos
Calçadas estreitinhas e marés
Casas de pasto,tertúlias e chalés
Lisboa é voz de marcha soletrada
É canto d'aventais e manjericos
Tem arcos d'Aqueduto e tem salpicos
De sardinheiras floridas nos postigos
Lisboa é ventre d'asas, tem gaivotas
Tem Pasteis de Belém e tem vielas
Casas de passe, igrejas e ruelas
Caracóis, moelas e iscas com elas
Lisboa é mãe de bairros, tem castelo
Vestem-na toponomias mouras e de coroas
Tem miradouros, ascensores e amoladores
Tem Bica do Sapato e engraxadores
Lisboa tem teclados de rio Tejo
Tem Cacaus da Ribeira e tem ginginhas
Tem sardinhas assadas e castanhas
E gatos a espreitar entre rendinhas
Bebe café com Bocage no Nicola
Na Brasileira, desassossego d'astros
E folheando na Bertrand, vai respirando
O Grandela em cinzas, sem ter pasto
Tem Martinho d'Arcada com lembranças
Tem livros multicores, alfarrabistas
Tem Praça d'Alegria com coristas
Bombeiros voluntários e fadistas
Tem a Feira da Ladra aos quadradinhos
Com pechisbeques, valores, penhores e outros valores
Tem eléctricos pintados com a cor
Do milho p'rás pombinhas sem favores
Tem gavetas e armários com memórias
Tem Parque das Nações e Centros Culturais
E tem mais e mais e muito mais
Que encontra no Roteiro de Lisboa
Gizado como em tela por Fernando Pessoa.
Maria José Praça (N.126080 da SPA)