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quinta-feira, 23 de março de 2017

Kalahári

Flor pálida dos trópicos, ó flor
de chama, com pétalas de lume...
flor gentil do jardim dum grande amor,
que tem o clima estranho do ciúme!

tens a beleza dos desertos quentes
e a tristeza anémica do sul,
filha do kalahári,
miragem do deserto
de areias de oiro,
reflectindo
o céu azul
enamorado de ti...

deserto e céu enamorados
e perseguindo
teu corpo de sonho, a despertar!

filha do kalahári,
que tentação a tua...
és linda e triste,
como à noite a branca lua!

ó rainha do deserto,
que sepulta um morto mar,
talvez tu sejas de perto
a sombra de quem morreu,
a alma de quem sofreu,
há mil anos, nesse mar,
e o milagre do amor,
quebrando o túmulo das águas,
fizesse ressuscitar!

Fonte: Blogue "Angola: os poetas, post de 04Abr2014.

domingo, 12 de março de 2017

Coqueiro

Ali, na rua do Carmo
um coqueiro ficou abandonado
quando destruiram a casa velha
a que deu sombra.

E onde um par enamorado
teve sonhos de Amor,
nesse pedaço de Luanda antiga
agora modernizada.

E o coqueiro ligado à terra,
tombado na direcção
da Rua da Pedreira,
como filho nos maternos braços
ali ficou.

Talvez para saudar alguém
que muito sofreu e amou...


Mas tudo acaba e o tempo
tudo anda a destruir,
- porque tudo é passageiro,
quando se vive a mentir.

Ó pincelada verde na cidade,
ruina e gótica coluna
de marmore verde...

Morre, coqueiro morre,
Antes que os homens, tão maus,
cometam a crueldade
de te expulsar e matar.

Morre de pura saudade...

E perdoa, mas sofre como um homem,
coqueiro das verdes palmas,
porque tudo, afinal, na vida, é triste
quando se matam almas...

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Bailundos


por esses longos caminhos
os desertos povoando,
passam negras comitivas
de bailundos...

descalços como jesus,
e os seus corpos mal cobertos,
são negras sombras na sombra,
que se eleva escuramente,
sem um carinho de luz.

a noite é um borrão de tinta preta!

mas a triste comitiva
pisando bem o caminho,
- estreito por ser tão longo
como a vida dessas gentes,
vai seguindo o seu destino
cantarolando nocturnos,
de baladas inocentes.

e quando o sol acordar
em seu berço oriental
as comitivas andando,
por carpetes de capim,
que eu não sei onde vão dar,
que eu não sei se têm fim,
vencendo, altivamente, a luta forte
desta vida de ilusão
procuram inutilmente,
mais longe, sempre mais longe,
a terra da promissão.

... ó mensageiros tristes da saudade
que trago dentro de mim:
esse caminho é eterno
e a minha dor não tem fim!

haveis de caminhar, sempre caminhar
que nunca terá fim o vosso inferno!

- não existe humanidade
e o mundo foi sempre assim!

Fonte: Blogue "Angoa: os poetas", post de 07Set2012.

terça-feira, 31 de março de 2009

A minha lira mulata

A minha lira mulata
tem acordes tão amantes
que eu julgo serem de prata
as suas cordas vibrantes.

porque fiz d’ela mulher
tem lábios cor de “pitanga”,
da “pitanga” de comer,
com adornos de missanga.

E os seus braços tão nervosos
são dois ramos de palmeira,
que me abraçam, duvidosos,
e me prendem de maneira,

que eu não sei qual é melhor,
se os seus beijos de “muamba”,
se o “jindungo” deste amor…
- amor mulato… pitanga!

Tomaz Vieira da Cruz (1900-1960) - Natural de Constança, no Ribatejo, viveu desde 1924 em Angola. Tem colaboração em vários jornais e revistas, de Angola e Portugal. Em 1950 funda no Sumbe (ex-Novo Redondo) o jornal “Mocidade”. É considerado um dos precursores da literatura angolana.


sábado, 13 de dezembro de 2008

Eterna sentinela

Abandonado e só,
o Imbomdeiro,
figura milenária do sertão,
tem a dolorosa expressão
de quem foi condenado
por toda a vida
a sofrer na costa de África
o seu destino maldito.

Não conhece os milagres do amor,
e junto a si jamais teve o carinho
ou a ternura saudável
da mais humilde flor.

Imbondeiro desgraçado,
filósofo triste e pensativo,
filósofo da paisagem,
mártir e santo que alguém tivesse encontrado
no inferno de Dante
e conduzisse a este sol abrasador:

- Tu és a estátua gigante
da minha dor!

Fonte. "Lupango da Jinha" - post de 02Dez2008

quinta-feira, 26 de julho de 2007

ROMANCE DE LUANDA

Coqueiros esguios - leques ao vento
abanando a Ilha.

Um dongo flutua
na baia.

E ela, a negra maravilha
condecorada com reflexos de prata
com que o céu a está beijando,
com que o céu a está vestindo,
- adormeceu sonhando
placidamente sorrindo.

Nas águas verdes da baia calma,
caem pétalas vermelhas
de uma linda flor de ónix!

E o timoneiro, um preto atleta,
jovem pescador
é um brutal Cupido,
- é o Deus do Amor
em bronze reproduzido!

Nas águas verdes da baia calma,
caem pétalas de sangue,
duma flor já desfolhada...

Um dongo flutua
na baia.

Vai rompendo a madrugada!

(Tatuagem - poesia d'África)
                     (1942)

Rebita

     Mulata da minha alma
    batuque dos meus sentidos,
    meus nervos encandecidos
    vibram por ti, sem ter calma.

    Por isso vou á rebita,
    quase triste e indeciso,
    a queimar minha desdita
    nas chamas do teu sorriso.

    E, triste, assim, vou dançar,
    vou dançar e vou beber
    o vinho do teu olhar,
    que me faz entontecer.

    Ouvindo, longe, tocar
    o quissange do gentio,
    que vive, além no palmar,
    onde corre o verde rio!

    E depois adormecer
    na tua esteira de prata,
    onde quero, enfim, morrer,
    oh minha linda mulata.

    ..........................................

    Mulata da minha alma,
    batuque dos meus sentidos...

    Por isso vou á rebita,
    quase triste e indeciso,
    a queimar minha desdita
    nas chamas do teu sorriso.

N'gola - Flor de Bronze

               Filha de branco que morreu na guerra
              e de uma preta linda do Libolo,
              o teu olhar até de noite encerra
              todo o luar das lendas do Catolo!

              Ó flor estranha! já não tem consolo
              a tua magoa, a tua dor na terra!
              Ó flor estranha do febril Capolo
              neta dum soba que perdeu a guerra!

              Estátua ardente em bronzeadas chamas
              que tentação e perdição derramas
              por sobre a história negra, quase finda!

              Neta dum soba que acabou chorando,
              filha de branco que morreu lutando
              e duma preta tristemente linda!

FRUTA

          Quitanda de fruta verde,
         dá-me um gomo de laranja
         para matar a sede.

         Ou, então, será melhor
         dar-me um veneno qualquer
         porque eu ando perturbado
         e o meu sonho anda queimado
         por uns olhos de mulher!

         - Minha senhora, laranja,
         limão, fresquinho, caju,
         ananás ou abacate!...

         E a quintandeira passou,
         saudável, viva, graciosa,
         com uma flor desfolhada
         no seu sorriso escarlate.

         E no ar um som de musica ficou
         e um perfume de fruta
         que não matou minha sede

         Ó agri-doce quitanda
         da fruta verde!...

Mulata

     Os teus defeitos são graças
    que mais me prendem, querida...
    Mistério de duas raças
    que se encontraram na vida.

    E, no mato, em nostalgia,
    num exílio carinhoso,
    fizeram essa alegria
    do teu olhar misterioso.

    E deram forma de sonho,
    em seu viver magoado,
    a esse estilo risonho
    do teu corpo bronzeado...

    Que é bem a grácil maneira
    em que a volúpia se anima,
    - bailado duma fogueira
    queimando quem se aproxima!

    .............................................

    A tua boca dolente,
    cicatriz de algum desgosto
    é um vermelho poente
    no lindo sol do teu rosto.

    E os beijos que pronuncias
    são palavras dolorosas...
    Teus beijos são tiranias,
    são como espinhos de rosas...

    Que me embriagam, amantes,
    no éter do seu perfume...
    Teus beijos são navegantes
    sobre as ondas do ciúme.

    .............................................

    Os teus defeitos são graças
    desse mistério profundo...
    Saudade de duas raças
    que se abraçaram no mundo!

Quissange - Saudade Negra

          Não sei, por estas noites tropicais,
         o que me encanta...
         Se é o luar que canta
         ou a floresta aos ais.

         Não sei, não sei, aqui neste sertão
         de musica dolorosa
         qual é a voz que chora
         e chega ao coração...

         Qual o som que aflora
         dos lábios da noite misteriosa!

         Sei apenas, e isso é que importa,
         que a tua voz, dolente e quase morta,
         já mal a escuto, por andar ausente,
         já mal escuto a tua voz dolente...

         Dolente, a tua voz "luena",
         lá do distante Moxico,
         que disponho e crucifico
         nesta amargura morena...

         Que é o destino selvagem
         duma canção em que tange,
         por entre a floresta virgem
         o meu saudoso "Quissange".

         Quissange, fatalidade
         deste meu triste destino...
         Quissange, negra saudade
         do teu olhar diamantino.

         Quissange, lira gentia,
         cantando o sol e o luar,
         e chorando a nostalgia
         do sertão, por sobre o mar.

         Indo mares fora, mares bravos,
         em noite primaveril
         acompanhando os escravos
         que morreram no Brasil.

         Não sei, não sei,
         neste verão infinito,
         a razão de tanto grito...

         -Se és tu, oh morte, morrei!

         Mas deixa a vida que tange,
         exaltando as amarguras,
         e as mais tristes desventuras
         do meu amado Quissange!

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