Vem meu menino vadio, vem sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia,
Que da noite pro dia você não vai crescer
Vem, por favor não me evites,
Meu amor, meu convites
Minha dor meu apelos
Vou te envolver nos cabelos,
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de deus
Vem que eu te quero fraco,
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu
Ah! eu quero te dizer que o instante de te ver
Custou tanto penar, não vou me arrepender
Só vim te converncer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
E quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
E quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei,
Nas discussões com deus
E agora que cheguei eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa dos carinhos teus
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Sem Fantasia
Caçada
Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando seu grito
Me aproximo rodando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta sua agonia louca
Água que borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu fervor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia caça e do caçador
Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
Que num impulso me expulsa e abraça
Nossa peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia caça e do caçador
De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pelo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia caça e do caçador
A Banda
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada, sorriu
A rosa triste que vivia fechada, se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivi escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
A Bailarina Gorda
Como toda bailarina ela sonhava com mil saltos mortais
Os dedos do destino a desenharam gorda demais
Cada volta ou pirueta era um desastre, eram risadas gerais
E os olhos do menino que ela amava a amavam magra de mais
Cada bola de sorvete é tanta culpa, era remorso demais
E o mais lindo vestido tá guardado: gorda demais
Cada abraço, um arrepio, ai, por um fio ele me apalpa por trás
E sente a carne mole, frouxa, coxa, gorda demais
Como toda bailarina ela sonhava com mil saltos mortais
Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda
Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile lembro ainda
Era branco todo branco meu amor
A orquestra tocou uma valsa dolente
Tomei-te aos braços fomos dançando ambos silentes
E os pares que rodeavam entre nós
Trocavam juras diziam coisas a meia voz
Violinos enchiam o ar de emoções
E de ternura uma centena e corações
Pra despertar teu ciúme
Tentei flertar alguém
Mas tu não flertastes ninguém
Olhavas só para mim
Vitórias de amor cantei
Mas foi tudo um sonho acordei
Deus lhe pague
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí”
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
Agora Falando Sério
Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver banda passar
Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu tédio
Pedindo para eu cantar
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério
Agora falando sério
Preferia não falar
Falando sério
A Lista
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você
Eu não existo sem você
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você
A Primeira Noite
A primeira noite de quem parte em busca do seu sonho
É a primeira sem tudo o que passou
A primeira noite na cidade distante do seu quarto
Gera insônias felizes e aflição
Não só. Por que não? Só, por que não?
A primeira noite de quem larga o conforto do previsto
É a primeira sem colo, pai e mãe
A primeira noite traz na mala o que te restou de antes
Traz aperto e euforia ao coração
Não, só, não. Por que não? Só, por que não?
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Metade
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é o silêncio
Que a música que ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo
Seja p´ra sempre amada
mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade
Que as palavras que eu falo
Não seja, ouvidas como prece
Nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a a única coisa
Que resta a um homem
Inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma
E na paz que eu mereço
E que essa tensão
Que me corroe por dentro
Seja um dia recompensada
Porquer metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão
Que a medo da solidão se afaste
E que o conívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável
Porque metade de mim
É a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei
Que o espelho reflicta
Em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim
É a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei
Que não seja preciso
Mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio
Me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade
Para fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
e a outra metade é canção
E que a minha loucura
Seja perdoada
Porque metade de mim
É amor
E a outra metade
Também
