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quinta-feira, 26 de julho de 2007

AEROPORTO

    É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no preca'rio registo das palavras.

Mangas verdes com sal

Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida.

(1972)

MATINÉS DO SCALA

    Obrigatoriamente aos sábados à tarde.
O episódio da série, os desenhos animados
e a coboiada. Ao intervalo, a surtida
ao Hazis para comprar scones e laranjada.
Devolvida a senha de entrada, recomeçava

o espectáculo. Na fila Z, rente
à pantalha, gesticulante, o Piricas
regia a partitura. Hopalong Cassidy
jogava à porrada, sem que o sacana
do chapéu de aba larga lhe caísse,

alguma vez, da pinha. Empinando,
enfunadas as crinas ondulantes, palominos
amestrados completavam o circo. Mas,
neste embuste, o único herói autêntico
era, no comando das operações, o Piricas.




Nota:
Do livro "O monhé das cobras", autoria de Rui Knopfli, edição da
Caminho em 1997, página 43:

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Naturalidade

   Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provaável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente Postagem
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.


Nota: Extraído do livro "O país dos outros", 1959

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