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terça-feira, 26 de maio de 2009

Esta Lisboa africana

Velhos prédios, monumentos
Donde os olhos do passado
Podem ver por todo o lado
Outras gentes e costumes.
Tão diferentes são os braços
Que constroem o cansaço
Em Lisboa.

Cai a noite e então Lisboa
È castiça, põe o xaile
E na voz duma guitarra
Morre o tempo e nasce o fado.
Cai a noite e então Lisboa
Curiosa, espreita as farras,
Deixa o corpo entrar no baile,
Solta a música nas veias.
De semana para semana
Muita coisa tem mudado
Em Lisboa, esta europeia
Cada vez mais africana.

Que mudança se operou
Ou apenas se adivinha
Dos temperos da cozinha
Ao tempero das palavras.
Quase sem se aperceber
Muda a forma de viver
Em Lisboa.

Fonte: Entre Duas Margens de Rui Manuel (Cuca), 2004, Pág. 32

Na sombra da Mulemba

No começo da tarde
Quando o sol aquecia
Toda a sombra era boa.
Mas nenhumas era igual
À da velha mulemba
Onde todos os dias
Velho Temba encostava
O seu corpo cansado.

Na sombra da mulemba
Velho Temba cachimbava,
Crianças brincavam,
Corriam, saltavam,
Na sombra da mulemba
Velho Temba Cachimbava.

Era um tempo de espera
Até vir um aceno
A chamar as crianças.
Ansiosas sentavam
No chão fresco da sombra
E o silêncio ficava
A ouvir as histórias
Que o Sékulo contava.

Fonte: Entre Duas margens de Rui Manuel (Cuca), 2004, Pág. 28

domingo, 17 de maio de 2009

Que povo é este

O som do batuque
Chega longe no recado
Avisando os atrasados
Da festa já começada.
Os corpos requebram
Sensuais, provocantes,
Seguindo a cadência
Marcada pelas palmas.

Que povo é este,
De passado tão sofrido
E que á mínima alegria
Se entrega à dança.
Que povo é este,
Que povo é este?

O som do batuque
Ganha distância no vento
E leva longe o lamento
Anunciando o velório.
Os corpos suados
Que choram dançando
Partilham o luto
À moda da terra.

Que povo é este, 
De sentir musical,
Que perante a dor mais funda
Se entrega à dança,
Que povo é este,
Que povo é este?

Nos momentos de alegria
O povo dança,
Na tristeza mais profunda
O povo dança,
Que pobvo é este,
Que povo é este?

Fonte: Livro “Entre Duas Margens” de Rui Manuel (Cuca), SeteCaminhos, 2004, Págs. 15/16

Sanzala abandonada

Na  sanzala abandonada
Já não moram gargalhadas
E há silêncio no lugar
Das antigas batucadas
A tristeza está sozinha
Na sanzala abandonada.

E lá vão grupos imensos
De inocentes desterrados
Levam quindas á cabeça
E candengues assustados.
Nada sabem do futuro
Que lhes foge tão depressa
E o passado ficou todo
Na sanzala abandonada.

Na sanzala abandonada
O capim cresceu à toa
Já tomou conta das lavras
Ficou dono das cubatas
Com ele se apaga o nome
Da sanzala abandonada.

Os que fogem escorraçados
Sem qualquer explicação
Ao perderem a identidade
Já nem sabem o que são.
Famintos e moribundos
Que entre medos se consomem
Mostram aos olhos do mundo
O que o homem faz ao homem.

Fonte: Fonte: Livro “Entre Duas Margens” de Rui Manuel (Cuca), SeteCaminhos, 2004, Págs. 26/27

sábado, 16 de maio de 2009

Frutos tropicais

Era o tempo em que os quintais
Dos vizinhos eram nossos,
Todos muros eram baixos,
E as bananas lá no cacho 
A pedir “vewm-me comer”.
A pitanga vermelhinha
Como os lábios do pecado
A dizer “prova um bocado”
Que ninguém há-de saber”:

Era o tempo em que as goiabas
Eram feitas de roubar
E a fresca água de coco
Nos sabia sempre a pouco
No calor da brincadeira.
O mamão morava alto
Mas o pau chegava lá
E ao senhor maracujá
Que subiu na trepadeira.

Mas quando a mais velha
Lá nos apanhava
A gente pagava
Com puxões de orelhas.
Ai, os frutos tropicais,
De comer, chorar por mais.
Até a saudade
É manga madura
Com sumo que deixo
Correr pelo queixo.
Ai, os frutos tropicais,
De comer, chorar por mais.

Fonte: Livro “Entre Duas Margens” de Rui Manuel (Cuca), SeteCaminhos, 2004, Págs. 22/23

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Entre Duas Margens

O meu corpo é feito um rio
E distintas são as margens
Que me demarcam o leito.

Na margem africana
Repousam as minhas raízes
E das gavetas da memória
Vão fugindo rostos e nomes
Que me ajudaram
A construir o passado.

Na margem europeia
Fica-me um tempo mais recente
Ao qual lancei gavinhas
Na procura de renascer
Para uma outra vivência.

Afluentes diversos
Me alimentam o caudal
Numa policromia de amizades
Num casamento de culturas.

Numa margem sou o Cuca
E na outra o Rui Manuel
Mas é na mistura das águas
Que me assumo por inteiro.

Transporto o som de batuques
E o trinado de guitarras.

Assim me deixo correr
Até á foz deste livro.

Fonte: Livro “Entre Duas Margens” de Rui Manuel (Cuca), SeteCaminhos, 2004, Págs. 7/8

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