Saltita catuitui, saltita,
esvoaça catuitui, esvoaça;
diz-me aí do alto o que se passa,
segue-a, e sê a minha vista.
Descortina-lhe livres caminhos,
dá-lhe rumo sem presentir
que de mim foi enamorado pedir,
como de teu cuidado são os ninhos.
Leva-a em tuas asas, se preciso for,
delicada e cuidadosa não te ferirá,
não lhe digas quem sempre a amará,
Nem que do sol e da lua, se preciso for,
luz de mil anos que sejam guardarei
para que na Noite dos Tempos seja seu Astro Rei.
04-06-2005
Fonte: Blogue "A Poesia de Valério Guerra", post de 04Jun2005.
sexta-feira, 31 de março de 2017
Catuitui
quinta-feira, 30 de março de 2017
Il «Pater Noster» Orazione di Giesù Cristo
Padre, che stai nel ciel, santificato
perché sia il nome tuo, venga oramai
il regno tuo; che in terra sia osservato
il tuo voler, sì come in ciel fatto hai.
E ’l cibo all’alma ed al corpo pregiato
danne oggi; e ci perdona obblighi e guai,
come noi perdoniamo agli altri ancora.
Né ci tentar; ma d’ogni mal siam fuora.
Fonte: in Poesie de Tommaso Campanella, Pág. 108
quarta-feira, 29 de março de 2017
Dantes (En los tiempos antiguos)
Os vendedores
De fruta
Cereais
Plantas e peixe
Estendiam a mercadoria
Nas tendas
Do mercado
E depois iam
Visitar-se uns aos outros
E cumprimentar-se
Desejando
Mutuamente
Um bom negócio.
Uns e outros
Não tinham
O mesmo culto,
Mas sabiam
Que existir
Depende sempre dum contrato.
Agora
Aos sábados
Têm as costas voltadas
Uns para os outros
Nos olhos
Lê-se-lhes a desconfiança e
A uni-los,
Circulam entre eles
Os cães
Vadios.
Fonte: ALBERTO PIMENTA, ANTOLOGIA DE POEMAS AQUI E LÁ ESCARBADOS
terça-feira, 28 de março de 2017
Vêm agora
Vêm agora
Empoleirados em camiões.
O único contacto
Com a terra
É quando saltam
Para a pisar.
Têm um coração
Que deve ser cego,
Por isso amparam-se
A uma espingarda,
Como os cegos
A uma bengala.
Caminham dos pés à cabeça
Carregando com a morte:
São muitos
Os que tropeçam já
Num sulco de terra.
Esses
Não tornarão a ver
O disco da aurora.
Outros se seguirão,
Um a um.
Esta
É a palavra
Dum coração que vê.
in Marthiya de Abdel Hamid Segundo Alberto Pimenta, 2005
Fonte: ALBERTO PIMENTA, ANTOLOGIA DE POEMAS AQUI E LÁ ESCARBADOS
segunda-feira, 27 de março de 2017
Elegia
já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja
Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'
Fonte. Blogue "Citador"
domingo, 26 de março de 2017
Aquela negra
aquela negra, de enxada em punho,
lutando pela minha fome;
aquela preta que jorra suores na minha sede;
e que vai de lenha à cabeça
porque o frio me consome;
aquela negra pobre, sem nada,
que vende os panos para me vestir,
que chora nas ruas o meu nome,
aquela negra é minha mãe
Jorge Macedo (1941-2009)
Fonte. Blogue "Angola: os poetas", post de 31Jan2009
sábado, 25 de março de 2017
Colar de missangas
naquela rua da praça…
foi ali que a encontrei
e conheci
e gostei
de a ver passar
com a quinda na cabeça…
não notei as cores dos panos,
não notei o que levava
para vender.
só reparei
e gostei
do seu colar de missangas.
soube depois
que era recordação
dum homem com quem vivera…
um dia
- quantos já passados –
estava ela na baía
quando o guerreiro,
fogueiro
ou marinheiro
de cabotagem,
apareceu por ali.
encontrou-a
convidou-a,
ela foi
e ofereceu-lhe o colar.
depois seguiu a viagem
e a vida seguiu também.
meses passados
nasceu-lhe o filho.
gostou,
ficou contente.
Depois
morreu-lhe o filho.
chorou,
enlouqueceu de repente.
e agora
todas as manhãs
quem quiser a vê passar
a caminho da quitanda
com a quinda na cabeça.
e conta os dias
passados á espera do filho,
pelas missangas
rubras, da cor das pitangas,
que vai pondo,
dia a dia,
no fio do seu colar.
ontem
quando a vi passar
o colar
tinha dez voltas…
Fonte. Blogue "Angola: os poetas", post de 17Dez2010
sexta-feira, 24 de março de 2017
Queixa
toda a noite te esperei.
quando cheguei
não estava ainda luar.
e fiquei
a esperar
que viesses
como tinhas prometido.
toda a noite te esperei
e afinal não apareceste.
fiquei esperando,
esperando,
e as horas foram caindo,
uma a uma
como gotas de cacimbo.
entretanto,
surgiu detrás da igreja
o disco em prata,
da lua.
debaixo da cajadeira,
junto à valeta da rua
e sob a luz que me encanta,
vi nascer a madrugada
da cor da semana santa
vi como a noite fugia
e como raiava o dia.
…toda a noite te esperei
E afinal não apareceste…
Fonte: Blogue "Angola: os poetas", post de 06Jul2009.
