Perante o monumento
Aos combatentes mortos do Ultramar,
Perfilo-me um momento
E canto: “Heróis do mar…”
Cada um é um herói
Ao enfrentar a morte
Pela pátria que foi,
Leal e forte.
Morreram? Quem é grato
Ao sangue derramado
Na emboscada no mato
Plo peito de soldado?
Não fosse o monumento
(Quem soube erguê-lo à vida?),
Nomes, iam no vento
Da memória perdida.
Vamos bradar: — Presentes!
Presentes neste chão
(— Meu coração, não sentes
Alar-se o coração?).
Presentes na saudade
E presentes na História.
Aqui, a eternidade!
Aqui, a glória!
04Mar2006
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
PRESENTES! - Para José Ângelo Lobo do Amaral
NOVO POSTAL A RODRIGO EMÍLIO
Caro Rodrigo:
Se insisto na correspondência,
Arrisco-me a perder o amigo.
Peço-te paciência!
Mas quero confessar com que emoção
Folheei esse fogo, febre, fé
Que a Fátima te fez voar a inspiração,
Com sacrifício do cigarro e do café.
Diante do teu livro, ajoelhei:
Pus-me a rezá-lo como a um rosário.
E, quando terminei,
Floriam rosas pelo Santuário.
Hoje, a tua alma jaz
Aos pés de Nossa Senhora:
Recebes o seu Sol como uma paz,
Plo tempo que não tem ano nem hora.
Deixa-te estar aí, esquece os males da terra.
Tua presença, aqui, nunca é esquecida.
Os teus livros és tu que se descerra.
Lê-los, é ver-te em vida.
22Fev2006
BILHETE POSTAL PARA RODRIGO EMÍLIO
A tua presença fez-me falta,
Agora, que lancei um livro mais,
Onde se exalta
O teu nome e os teus versos imortais.
Queria-te ao meu lado,
Para ouvir-te a opinião e o conselho,
Como no ano passado,
Para saber se estou demasiadoVelho.
Lê o livro por cima dos meus ombros.
É pequeno, não cansa.
Fala de mim, da Pátria reduzida a escombros,
No fatal dia, com menor esperança.
Responde-me no vento e no canto das aves,
Teus companheiros do céu,
E diz-me se achaste, ainda, novidades
Nos meus versos. Valeu?
24Jan2006
Já de Macau me despeço para sempre e nunca mais
Fonte:Blogue Manlius - Post de José Carlos de 20Dez2007Soubesse eu dar expressão
à mágoa que me domina…!
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China”…)
Traição atrás de Traição,
Está consumada, à pressão,
A geral carnificina…!
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China.)
Portugal caíu ao chão.
Cresce, em montão, a ruína…
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China.)
Já Macau baixa ao porão
De um galeão à bolina…
… E o peso da cerração
Sem tino, que tem em cima,
Tolda a visão da monção
Que o destino lhe destina.
Já Macau baixa ao porão;
e, em cega navegação,
recolhe, atrás da cortina…
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)
Não há palavras à mão
de semear, metro ou rima
que dêem voz ou vazão
ao vazio da erosão
que tudo mina e fulmina!
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)
O Império (Diz-se) foi chão
que deu uvas p´rá vindima
ao primeiro capitão
ou capataz da esquina…
(Tenho, hoje, o coração
da cõr da Tinta-da-China…!)
Entra em zona de Tufão
Todas a pátria ultramarina
- e é que, da costa ao sertão,
já nem rota nem rotina…!
Sofre cada possessão,
sopra um suão de chacina!
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)
Porca de sorte, a que estão
Tendo o reino e os que lhe são
seiva de cada Talhão!
Porca de sorte suína!...
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)
Da Eslávia ao Industão,
na Nipónia à Palestina,
do Malabar a Ceilão,
da Ameríndia até Damão,
Goa, Diu… e Hiroschima,
- só marés de perdição
e turbilhões de má sina…!
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)
Póde haver lá tradução
Para a mortificação,
Face à agonia, a aflição
Que me alucina e lancina?!...
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)
Anda à solta, um furação
que, de roldão, tudo mina…
(Tenho, hoje, o coração
da côr da Tinta-da-China…!)
Rodrigo Emílio, Lisboa, aos 18 de Dezembro de 1999
Fadista Velhinho
Um fadista já velhinho
Muito triste coitadinho
Contou-me quase a chorar
As saudades do passado
Em que ele cantava o fado
Que todos queriam escutar
Contou-me então como era
As noitadas que fizera
Fadistas e cavaleiros
Um alegre São Martinho
Nos retiros com bom vinho
E o calor dos fogareiros
De olhos semi-cerrados
Baixinho lembrou os fados
Sua tristeza aumentou
Mas parando de repente
Olhando-me bem de frente
Com voz mais firme afirmou
A minha grande tristeza
Não me é dada pela pobreza
Nem lembranças que contei
É o medo de morrer
Sem de novo poder ver
Portugal ter o seu rei.
Letra: João Ferreira-Rosa Música: Marcha de Alfredo Marceneiro
Fonte: Blogue A Taverna do Embuçado - Post de 02Jan2008
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
AQUELA MORTE NAQUELE DIA
AQUELA MORTE NAQUELE DIA
Para o Beckert d`Assumpção, descendente do Barão d`Assumpção, que mandou edificar o Farol da Guia, o primeiro das costas da China.
Os castelos e as quinas começam a sangrar.
Macau, em lágrimas, comove.
Vai engoli-la o céu? Vai naufragá-la o mar?
A névoa esconde a cor das bandeiras no ar.
Chove.
Paira o fantasma de uma igreja. Um sino
Põe-se, lento, a dobrar, moribundo e pesado.
Nenhum Natal acode. A estrela do destino
Não anuncia o Nascimento do Menino,
Mas o Nome de Deus crucificado.
Só cemitérios, cinzas, sombras vagas…
“Não suspireis. Não respireis.” (Alguém murmura?)
Escorrem solidão as faces e as chagas.
A nau-espectro afunda-se nas vagas.
Apagou-se o farol. É noite escura.
O poeta rasgou o alvor da epopeia.
Dela, aqui, não restará lembrança…
O heróico ritmar de uma túmida veia
Extinguiu-se na vaza da pátria agora alheia:
Já não pode rimar futuro com esperança.
Cinco séculos quase a existir Portugal,
Macau, em sangue e lágrimas, desfalece e comove.
Mão assassina assina, na pedra sepulcral,
Um nome ateu, traidor, sobre a data final:
Aos 20 de Dezembro. Ano 99!
O NAUFRÁGIO DE MACAU
Para a Teresa Bernardino
A derradeira nau,
Partindo o leme e o velame roto,
Naufragou em Macau,
Por traição do piloto.
E fora a mais leal:
Em quatro séculos hasteara à ré
O pavilhão de Portugal,
Para glória do Império e defensão da Fé.
E era santo dos santos o seu nome,
Mas erguia na gávea o demo de vigia
Que sem um renegar que o vença e dome
A faz varar na vaza desta maré vazia.
Tripulou-a Camões
Que ali lembrou, previu: — Dos Portugueses,
Com seus profanos corações,
Houve traidores algumas vezes.
Tripulou-a Pessanha,
Murmurando entre névoas de ópio e olvido,
Como quem num queixume e presente desdenha:
“Eu vi a luz em um país perdido.”
Da última da Armada
Que em novos mares buscou cada porto ignorado;
Da jamais apresada,
Tendo ao pirata vil o fuzil apontado,
Hoje como não resta nada
Mais do que o pranto da História e a raiva do meu brado:
— Quem impede o traidor de morrer enforcado?


