segunda-feira, 13 de março de 2017

Sábado nos Musseques

Os  musseques  são  bairros  humildes 
de  gente  humilde


Vem o sábado
e logo ali se confunde com a própria vida
transformada em desespero
em esperança e em mística ansiedade
Ansiedade encontrada
no significado das coisas
e dos seres
na lua cheia
acesa em vez de candeeiros
de iluminação pública
que pobreza e luar
casam bem
Ansiedade
sentida nos barulhos
e no cheiro a bebidas alcoólicas
espalhadas no ar
com gritos de dor e alegria
misturados em estranha orquestração
Ansiedade
no homem fardado
alcançando outro homem
que domina e leva aos pontapés
e depois de ter feito escorrer sangue
enche o peito de satisfação
por ter maltratado um homem
Outros evitarão passar
onde o casse-tête derrubou o homem
darão voltas
saltarão muros
pisarão espinhos
pés descalços se cortarão
sobre cacos de garrafas
quebradas por crianças inocentes
e cada mulher
suspirará de alívio
quando o seu homem entrar em casa

Ansiedade

nos soldados que se divertem
emboscados à sombra de cajueiros
à espera de incautos transeuntes
A intervalos
ais de dor
lancinam ouvidos
ferem corações tímidos
e afastam-se passos
em correia angustiante
e depois dos risos da matula
desenfreada
só silêncio mistério lágrimas e ódio
e carnes laceradas
pelas fivelas dos cinturões
Ansiedade
nos que passam
à procura do prazer fácil
Ansiedade no homem
escondido em recanto escuro
violando uma criança
Sua riqueza calará o pai
e a criança
só tarde
clamará contra o destino
Ansiedade ouvida
na contenda da taberna
Compadres discutindo
escandalosamente
velha dívida de cem mil réis
entre os murmúrios
da numerosa assistência
Ansiedade
nas mulheres
abandonaram os homens
para ouvir
a vizinha aos gritos
ralhando contra a pobreza do marido
Ouvem-se
choros histéricos
ruídos de cadeiras caídas
respirações ofegantes
tilintar doloroso
de louça de ferro esmaltado
e a multidão invade a casa
os desavindos expulsam-na
e depois vem a reconciliação
com risinhos de prazer
Ansiedade
nos alto-falantes do cinema
de bocas escancaradas
a gritar swing
ao pé das bilheteiras
enquanto um carrocel
arrasta em turbilhões de sonho
luzinhas vermelhas verdes azuis
e também
a troco de dois mil e quinhentos
namorados e crianças
Ansiedade
nos batuques saudosos
dos kiocos contratados
o fundo de todo o ruído
Lunda sem fronteiras
A derrubar o sussuro
Da ânsia tumultante
Ansiedade
na humilde criança
que foge amedrontada do polícia
de serviço
Ansiedade
no som da viola
acompanhado uma voz
que canta sambas indefinidos
deliciosamente preguiçosos
pejando o ar
do desejo de romper em pranto
Com a voz
possa o grito de saudade
que a multidão tem dos dias não vividos
dos dias de liberdade
e a noite
bebe-lhes os anseios de vida

Ansiedade

nos bêbedos caídos nas ruas
alta noite
Ansiedade
nas mãos aos gritos
à procura de filhos desaparecidos
nas mulheres que passam embriagadas
no homem
que consulta o kimbanda
para conservar o emprego
na mulher
que pede drogas ao feiticeiro
para conservar o marido
na mãe
que pergunta ao advinho
se a filhinha se salvará
da pneumonia
na cubata
de velhas latas esburacadas
nas mulheres implorando
compaixão
as nossas senhoras
nas famílias rezando
enquanto oram
bêbedos urinam na rua
encostadas à parede
afastando-se depois
a ridicularizar as vezes
que perceberam
através das persianas das janelas
Ansiedade na kazukuta
dançada à luz do acetileno
ou do candeeiro Petromax
em sala pintada de azul
cheia de pó
e do cheiro a suor dos corpos
e de maneios de ancas
e de contactos de sexos
Ansiedade
nos que riem e nos que choram
nos que entendem
e nos que respiram sem compreender
Ansiedade
nas salas de dança
regurgitantes de gente
onde daí a instantes
o namorado repreende a noiva
insultos são atirados para o ar
enchendo o recinto de questões
que extravasam para a rua
acudindo polícias aos assobios
Ansiedade
no esqueleto de pau a pique
ameaçadoramente inclinado
a sustentar pesado tecto de zinco
e nos quintais
semeados de dejectos e maus cheiros
nas mobílias sujas de gordura
nos lençóis esburacados
e nas camas sem colchão
Ansiedade
nos que descobrem multidões passivas
esperando a hora
Nos homens
ferve o desejo de fazer o esforço supremo
para que o Homem
e a esperança
não mais se torne
em lamentos da multidão
A própria vida
faz desabrochar mais vontades
nos olhares ansiosos dos que passam
O sábado misturou a noite
nos musseques
com mística ansiedade
e implacavelmente
vai desfraldando heróicas bandeiras
nas almas escravizadas.
1948
Fonte: Fundação António Agostinho Neto


domingo, 12 de março de 2017

Coqueiro

Ali, na rua do Carmo
um coqueiro ficou abandonado
quando destruiram a casa velha
a que deu sombra.

E onde um par enamorado
teve sonhos de Amor,
nesse pedaço de Luanda antiga
agora modernizada.

E o coqueiro ligado à terra,
tombado na direcção
da Rua da Pedreira,
como filho nos maternos braços
ali ficou.

Talvez para saudar alguém
que muito sofreu e amou...


Mas tudo acaba e o tempo
tudo anda a destruir,
- porque tudo é passageiro,
quando se vive a mentir.

Ó pincelada verde na cidade,
ruina e gótica coluna
de marmore verde...

Morre, coqueiro morre,
Antes que os homens, tão maus,
cometam a crueldade
de te expulsar e matar.

Morre de pura saudade...

E perdoa, mas sofre como um homem,
coqueiro das verdes palmas,
porque tudo, afinal, na vida, é triste
quando se matam almas...

sábado, 11 de março de 2017

HINO DA EICAP


Quantas saudades eu sinto

Dessa escola abençoada
Académico recinto
Artur de Paiva chamada
Saudoso relicário
De serenatas, baladas
Que no nosso imaginário,
Parecem contos de fadas.
REFRÃO
Oh minha escola, velho berço de estudantes,
Onde sonhámos nossos sonhos debutantes;
Confessionário de secretas confissões,
Muro sagrado das nossas lamentações.
Oh velha escola, que nos lembra, já distante,
Sá da Bandeira, nossa terra, terra amante
E a Senhora que no Monte em orações,
Nos abençoa para sempre os corações.
E quantas juras de amor,
Se fizeram no teu seio,
Entre um beijo e uma flôr
Nos recantos do recreio.
Promessas quentes sentidas,
Com a voz do coração,
Tantas vezes repetidas
Nos versos de uma canção
REFRÃO

Poema de TELMORO - Música de HUGO SOUSA (Ex Kiowa)
Fonte: sanzalaangola, publicado por Helder Gomes

sexta-feira, 10 de março de 2017

Namibe

Grande é o Namibe
Aquém e além Cunene
Vida em murmúrio a passar.


Grande é o Namibe
e a alma-poeta
uma grande Welwitschia Mirabilis
macho e fêmea
cio em flor
no deserto vida teimosa a rasgar.

Fonte: "Gente do meu tempo" - post de 28Abr2008

quinta-feira, 9 de março de 2017

Liberdade! Por Fernando Pessoa



Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira.
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original,
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papeis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quando é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Muito se pode dizer acerca deste poema de Fernando Pessoa, mas para mim a ideia principal é chegar a um estado de liberdade através das coisas simples da vida… mas isso é simplesmente cada vez mais impossível nos dias que correm!

Fonte: via Salpicos by Pedro Correia Santos on 8/19/08

quarta-feira, 8 de março de 2017

E desde então, sou porque tu és

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Fonte: Blogue "AMORE" - post de 16Jan2009

terça-feira, 7 de março de 2017

As Bolas de Sabão



As Bolas de Sabão

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda. 
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea, 
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Fonte: via O Lupango da Jinha em 23/02/09

segunda-feira, 6 de março de 2017

Vou de comboio...

Vou
Mecanizado e duro como sou
Neste dia,
E mesmo assim tu vens, tu me visitas!
Tu ranges nestes ferros e palpitas
Dentro de mim, Poesia!

Vão homens a meu lado distraídos
Da sua condição de almas penadas;
Vão outros à janela, diluídos
Nas paisagens passadas...
E porque hei-de ter eu nos meus sentidos
As tuas formas brancas e aladas?

Os campos, imprecisos, nos meus olhos,
Vão de braços abertos às montanhas;
O mar protesta contra não sei quê;
E eu, movido por ti, por tuas manhas,
A sonhar um painel que se não vê!

Porque me tocas? Porque me destinas
Este cilício vivo de cantar?
Porque hei-de eu padecer e ter matinas
Sem sequer acordar?

Porque há-de a tua voz chamar a estrela
Onde descansa e dorme a minha lira?
Que razão te dei eu
Para que a um gesto teu
A harmonia me fira?

Poeta sou e a ti me escravizei,
Incapaz de fugir ao meu destino.
Mas, se todo me dei,
Porque não há-de haver na tua lei
O lugar do menino
Que a fazer versos e a crescer fiquei?

Tanto me apetecia agora ser
Alguém que não cantasse nem sentisse!
Alguém que visse padecer,
E não visse...

Alguém que fosse pelo dia fora
Neutro como um rapaz
Que come e bebe a cada hora
Sem saber o que faz...

Alguém que não tivesse sentimentos,
Pressentimentos,
E coisas de escrever e de exprimir...
Alguém que se deitasse
No banco mais comprido que vagasse,
E pudesse dormir...

Mas eu sei que não posso.
Sei que sou todo vosso,
Ritmos, imagens, emoções!
Sei que serve quem ama,
E que eu jurei amor à minha dama,
À mágica senhora das paixões.

Musa bela, terrível e sagrada,
Imaculada Deusa do condão:
Aqui vou de longada;
Mas aqui estou, e aqui serás louvada,
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!


Miguel Torga
Fonte: Blogue "Ar da Guarda", post de 16Out2009.

Related Posts with Thumbnails