Os musseques são bairros humildes
de gente humilde
e logo ali se confunde com a própria vida
transformada em desespero
em esperança e em mística ansiedade
no significado das coisas
e dos seres
acesa em vez de candeeiros
de iluminação pública
que pobreza e luar
casam bem
sentida nos barulhos
e no cheiro a bebidas alcoólicas
espalhadas no ar
com gritos de dor e alegria
misturados em estranha orquestração
no homem fardado
alcançando outro homem
que domina e leva aos pontapés
e depois de ter feito escorrer sangue
enche o peito de satisfação
por ter maltratado um homem
onde o casse-tête derrubou o homem
darão voltas
saltarão muros
pisarão espinhos
pés descalços se cortarão
sobre cacos de garrafas
quebradas por crianças inocentes
e cada mulher
suspirará de alívio
quando o seu homem entrar em casa
Ansiedade
nos soldados que se divertem
emboscados à sombra de cajueiros
à espera de incautos transeuntes
ais de dor
lancinam ouvidos
ferem corações tímidos
e afastam-se passos
em correia angustiante
e depois dos risos da matula
desenfreada
só silêncio mistério lágrimas e ódio
e carnes laceradas
pelas fivelas dos cinturões
nos que passam
à procura do prazer fácil
escondido em recanto escuro
violando uma criança
e a criança
só tarde
clamará contra o destino
na contenda da taberna
escandalosamente
velha dívida de cem mil réis
entre os murmúrios
da numerosa assistência
nas mulheres
abandonaram os homens
para ouvir
a vizinha aos gritos
ralhando contra a pobreza do marido
choros histéricos
ruídos de cadeiras caídas
respirações ofegantes
tilintar doloroso
de louça de ferro esmaltado
e a multidão invade a casa
os desavindos expulsam-na
e depois vem a reconciliação
com risinhos de prazer
nos alto-falantes do cinema
de bocas escancaradas
a gritar swing
ao pé das bilheteiras
enquanto um carrocel
arrasta em turbilhões de sonho
luzinhas vermelhas verdes azuis
e também
a troco de dois mil e quinhentos
namorados e crianças
nos batuques saudosos
dos kiocos contratados
o fundo de todo o ruído
A derrubar o sussuro
Da ânsia tumultante
na humilde criança
que foge amedrontada do polícia
de serviço
no som da viola
acompanhado uma voz
que canta sambas indefinidos
deliciosamente preguiçosos
pejando o ar
do desejo de romper em pranto
possa o grito de saudade
que a multidão tem dos dias não vividos
dos dias de liberdade
e a noite
bebe-lhes os anseios de vida
Ansiedade
nos bêbedos caídos nas ruas
alta noite
nas mãos aos gritos
à procura de filhos desaparecidos
que consulta o kimbanda
para conservar o emprego
que pede drogas ao feiticeiro
para conservar o marido
que pergunta ao advinho
se a filhinha se salvará
da pneumonia
na cubata
de velhas latas esburacadas
compaixão
as nossas senhoras
nas famílias rezando
bêbedos urinam na rua
encostadas à parede
afastando-se depois
a ridicularizar as vezes
que perceberam
através das persianas das janelas
dançada à luz do acetileno
ou do candeeiro Petromax
em sala pintada de azul
cheia de pó
e do cheiro a suor dos corpos
e de maneios de ancas
e de contactos de sexos
nos que riem e nos que choram
e nos que respiram sem compreender
nas salas de dança
regurgitantes de gente
onde daí a instantes
o namorado repreende a noiva
insultos são atirados para o ar
enchendo o recinto de questões
que extravasam para a rua
acudindo polícias aos assobios
no esqueleto de pau a pique
ameaçadoramente inclinado
a sustentar pesado tecto de zinco
e nos quintais
semeados de dejectos e maus cheiros
nas mobílias sujas de gordura
nos lençóis esburacados
e nas camas sem colchão
nos que descobrem multidões passivas
esperando a hora
ferve o desejo de fazer o esforço supremo
para que o Homem
e a esperança
não mais se torne
em lamentos da multidão
faz desabrochar mais vontades
nos olhares ansiosos dos que passam
nos musseques
com mística ansiedade
vai desfraldando heróicas bandeiras
nas almas escravizadas.



