Poder dormir
Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra se morrer em paz.
Fonte: Blogue "Sedimentos...", post de 01Dez2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A Terra Prometida
sábado, 15 de dezembro de 2012
Serra dos Macópios
Serra dos Macópios,
Colina por mim chamada
Mistério no miradouro ao alto
Caminho ou descaminho
De pedras de granito ponteagudas
Com lagartos barulhentos
Mexidos e amedrontadores
De pescoços cheios e vermelhos
A gritarem zangados
Ao cimo uns pilares caiados de branca cal
Talvez uma coberta em esqueleto
Ar abandonado e só
Mistério na fundação
Ali fui em brincadeira
Várias vezes
Era uma aventura
Aqueles lagartos feios e barulhentos
Aqueles barulhos de mato…
Que apareciam de todos os cantos
Aqueles pedregulhos cinzentos
E, em volta, ninguém
Mato, uma sanzala do outro lado.
Ao nascente
Era a avenida das laranjeiras
A casa do velho Primo
Por trás da escola, o comboio
Que passa devagar
O jardim, o parque
Com as árvores grandes
Com o tanque da horta
Onde furtivamente se tomava banho
Mais além a mulola
De ruído tão forte
Que mais parecia uma tempestade
Que trazia do alto paredão da Chela
Pedregulhos, calhaus
E outros perigos imaginados.
Poema realizado às 11h00 no cadeirão preto localizado no hall de entrada para o grande auditório da Culturgest em Lisboa.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Por tantas vezes ter ido à "Severa"
Por tantas vezes ter ido à "Severa"
Eu, que era simplesmente um locutor
Sinto-me agora, embora muito bera,
Do fado, um terrível cantador.
E quando p'ra cova fôr por destino,
Em "squife" bizarro vou nesse dia,
Irei num caixão super-heterodino
Do feito duma telefonia.
À cabeceira a servir d' almofada
Levarei um transmissor d'onda curta!
Co'á voz feita em pó, cinza, terra e nada
Ninguém a ouvir-me, creio, se furta.
E então, lá de longínquas paragens
Eu vos falarei nas noites de inverno
Fazendo divertidas reportagens...
Só não sei se do Céu... se do Inferno!
Letra de Fernando Pessa com música do Fado Marceneiro
Fonte: Fernando Pessa 1902-2002 Jornalista, Lisboa-Abril-2005.
Publicação da Câmara Municipal de Lisboa - Comissão Municipal de Toponímia.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Meu Pai
Três de Setembro de 1918
No quilómetro cento e tal
Filho terceiro de um casal pobre
Cercado de mato
Sem queixas de incomodidades
Um bébé nascia
Órfão de mãe quase à partida
Mãe Josefa
Que nunca soubemos d’ onde viera
De Pernambuco, Talvez!
D´onde se apartara
Para que não se sentisse estrangeira
Em terra própria
Órfão de pai aos onze anos
Fez-se criança de pé descalço
Cresce com mamã negra e de panos
Nos anexos da casa do pai defundo
Seu pai, um número
Na estatística de Paiva Couceiro
Fora obreiro-construtor do Caminho de Ferro de Moçâmedes
Adolescente trabalhador
Carpinteiro e barbeiro
Estudante por vontade própria
Inicia carreira de sertanejo
Com 19 anos apenas
Casa com jovem
De família importante com palmarés de mato
Cria três filhos
Paga instrução a quase dois mil quilómetros de distância
E quinze dias de viagem
Por estradas do fim-do-mundo
De tipóia, a pé, a cavalo, de bicicleta…
Percorre caminhos gentílicos e novos
Fez carreira de tarimbeiro
Por todo o mato de Angola
Tornou-se pessoa importante
Discursava em reuniões
De pretos e de brancos
Continentava a bandeira da Pátria una
Este construtor de pontes e de estradas
Este que fez de ambulância
Este que foi empreendedor para outros
Do negócio da touqueia
Este “Pai de pretos” como o tratavam
O cidadão de segunda de província distante
Fazia Império
E dava sentido de vida ás populações
Serviu a Pátria una
E a Pátria africana
Com pioneira angolanidade
Orientou a defesa
Ajudou as populações
Contra a guerra que vinha de fora
Recebido em festa
Por multidões agradecidas
Que abriam alas
Com niquiches e batucadas
Cantares e palmas
êêiaaiô, êêiaaiô
amistadôl aiêtu uápossoca uápandula
e em coro frenético e ritmado
todos cantavam
amistadôl aiêtu uápossoca uápandula
amistadôl aiêtu uápossoca uápandula
O corpo cansou-se
De anos de esforço insano
E cedo tombou
No funeral
Na secular Igreja do Carmo
Houve missa com igreja cheia
No cemitério
Milhares de pretos e brancos o acompanharam
E dezenas de mamãs negras de preto o choraram.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Prefa(s)cio-II - TERÇA-FEIRA, MARÇO 28, 2006
TERÇA-FEIRA, MARÇO 28, 2006
Rodrigo Emílio
Passam hoje dois anos sobre a morte do poeta.
Prefa(s)cio-II
De entre todos os motivos
porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,
sobressaem, sempre vivos:
os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.
Rodrigo Emílio
PUBLICADA POR RODRIGO N.P. ÀS 3/28/2006
Fonte: Blogue "Batalha Final" - post de 28Mar2006http://batalhafinal.blogspot.com/2006/03/rodrigo-emlio.html
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Mãe
Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Miguel Torga, in 'Diário IV'
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Sorriso Audível das Folhas

terça-feira, 20 de novembro de 2012
BIBALA
Fonte: Blogue "Querer e não poder", post de 28Ago2011.


