terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Por tantas vezes ter ido à "Severa"


Por tantas vezes ter ido à "Severa"
Eu, que era simplesmente um locutor
Sinto-me agora, embora muito bera,
Do fado, um terrível cantador.

E quando p'ra cova fôr por destino,
Em "squife" bizarro vou nesse dia,
Irei num caixão super-heterodino
Do feito duma telefonia.

À cabeceira a servir d' almofada
Levarei um transmissor d'onda curta!
Co'á voz feita em pó, cinza, terra e nada
Ninguém a ouvir-me, creio, se furta.

E então, lá de longínquas paragens
Eu vos falarei nas noites de inverno
Fazendo divertidas reportagens...
Só não sei se do Céu... se do Inferno!

Letra de Fernando Pessa com música do Fado Marceneiro
Fonte: Fernando Pessa 1902-2002 Jornalista, Lisboa-Abril-2005.
Publicação da Câmara Municipal de Lisboa - Comissão Municipal de Toponímia.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Meu Pai

Três de Setembro de 1918
No quilómetro cento e tal
Filho terceiro de um casal pobre
Cercado de mato
Sem queixas de incomodidades
Um bébé nascia

Órfão de mãe quase à partida
Mãe Josefa
Que nunca soubemos d’ onde viera
De Pernambuco, Talvez!
D´onde se apartara
Para que não se sentisse estrangeira
Em terra própria

Órfão de pai aos onze anos
Fez-se criança de pé descalço
Cresce com mamã negra e de panos
Nos anexos da casa do pai defundo

Seu pai, um número
Na estatística de Paiva Couceiro
Fora obreiro-construtor do Caminho de Ferro de Moçâmedes

Adolescente trabalhador
Carpinteiro e barbeiro
Estudante por vontade própria
Inicia carreira de sertanejo
Com 19 anos apenas

Casa com jovem
De família importante com palmarés de mato
Cria três filhos
Paga instrução a quase dois mil quilómetros de distância
E quinze dias de viagem
Por estradas do fim-do-mundo

De tipóia, a pé, a cavalo, de bicicleta…
Percorre caminhos gentílicos e novos

Fez carreira de tarimbeiro
Por todo o mato de Angola

Tornou-se pessoa importante
Discursava em reuniões
De pretos e de brancos
Continentava a bandeira da Pátria una
Este construtor de pontes e de estradas
Este que fez de ambulância
Este que foi empreendedor para outros
Do negócio da touqueia
Este “Pai de pretos” como o tratavam

O cidadão de segunda de província distante
Fazia Império
E dava sentido de vida ás populações
Serviu a Pátria una
E a Pátria africana
Com pioneira angolanidade
Orientou a defesa
Ajudou as populações
Contra a guerra que vinha de fora

Recebido em festa
Por multidões agradecidas
Que abriam alas
Com niquiches e batucadas
Cantares e palmas

êêiaaiô, êêiaaiô
amistadôl aiêtu uápossoca uápandula

e em coro frenético e ritmado
todos cantavam

amistadôl aiêtu uápossoca uápandula
amistadôl aiêtu uápossoca uápandula

O corpo cansou-se
De anos de esforço insano
E cedo tombou

No funeral
Na secular Igreja do Carmo
Houve missa com igreja cheia

No cemitério
Milhares de pretos e brancos o acompanharam
E dezenas de mamãs negras de preto o choraram.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Prefa(s)cio-II - TERÇA-FEIRA, MARÇO 28, 2006

TERÇA-FEIRA, MARÇO 28, 2006

Rodrigo Emílio
Passam hoje dois anos sobre a morte do poeta.

Prefa(s)cio-II

De entre todos os motivos
porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,

sobressaem, sempre vivos:

os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.

Rodrigo Emílio
PUBLICADA POR RODRIGO N.P. ÀS 3/28/2006

Fonte: Blogue "Batalha Final" - post de 28Mar2006http://batalhafinal.blogspot.com/2006/03/rodrigo-emlio.html

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mãe


Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in 'Diário IV'

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sorriso Audível das Folhas

A Teca, proprietária do blogue "Sedimentos", mais uma vez nos surpreende com uma harmoniosa combinação de poesia e imagem: o poema "Sorriso Audível das Folhas" de Fernando Pessoa e o campo vermelho de papoilas. 
Um dia, também eu me surpreendi com um campo vermelho de papoilas e também tirei uma fotografia; e isso foi em Vendas Novas num terreno baldio pegado a uma antiga vivenda perto da estação dos caminhos de ferro onde por décadas viveu e criou família um meu tio-avô.
Rui Moio

foto: amapolas - presente do amigo ANTONIO CAMPILLO

Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando 
Onde não olha, voltou 
E estamos os dois falando 
O que se não conversou 
Isto acaba ou começou? 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

BIBALA


No sopé da serra da chela
Uma linda Vila surgiu!...
Bibala, és a mais bela,
Do Império que se partiu.

Mangueiras grandes em flor,
Fruta da mais variada.
Terra com tamanho sabor,
Só em Angola se achava.

Pertinho do céu se encontrava,
As gentes que lá vivia!...
E a linda terra que amava…

Lugar onde o Sol mais brilhava,
E com o grande calor que fazia,
A maldade lá não entrava.

Fonte: Blogue "Querer e não poder", post de 28Ago2011.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

QUIETUDE

foto: internet

E então ficamos os dois em silêncio,
tão quietos como dois pássaros na sombra,
recolhidos ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite,
dois caminhos que se juntam num mesmo caminho...
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso,
e a quietude tamanha que qualquer palavra bateria estranha como um viajante,
altas horas...
Nada há mais a dizer,
depois que as próprias mãos silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro como se estivéssemos sozinhos...

Fonte: Blogue "Sedimentos", post de 03Jul2012.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Daddy


You do not do, you do not do Any more, black shoe In which I have lived like a foot For thirty years, poor and white, Barely daring to breathe or Achoo. Daddy, I have had to kill you. You died before I had time-- Marble-heavy, a bag full of God, Ghastly statue with one gray toe Big as a Frisco seal And a head in the freakish Atlantic Where it pours bean green over blue In the waters off beautiful Nauset. I used to pray to recover you. Ach, du. In the German tongue, in the Polish town Scraped flat by the roller Of wars, wars, wars. But the name of the town is common. My Polack friend Says there are a dozen or two. So I never could tell where you Put your foot, your root, I never could talk to you. The tongue stuck in my jaw. It stuck in a barb wire snare. Ich, ich, ich, ich, I could hardly speak. I thought every German was you. And the language obscene An engine, an engine Chuffing me off like a Jew. A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen. I began to talk like a Jew. I think I may well be a Jew. The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna Are not very pure or true. With my gipsy ancestress and my weird luck And my Taroc pack and my Taroc pack I may be a bit of a Jew. I have always been scared of you, With your Luftwaffe, your gobbledygoo. And your neat mustache And your Aryan eye, bright blue. Panzer-man, panzer-man, O You-- Not God but a swastika So black no sky could squeak through. Every woman adores a Fascist, The boot in the face, the brute Brute heart of a brute like you. You stand at the blackboard, daddy, In the picture I have of you, A cleft in your chin instead of your foot But no less a devil for that, no not Any less the black man who Bit my pretty red heart in two. I was ten when they buried you. At twenty I tried to die And get back, back, back to you. I thought even the bones would do. But they pulled me out of the sack, And they stuck me together with glue. And then I knew what to do. I made a model of you, A man in black with a Meinkampf look And a love of the rack and the screw. And I said I do, I do. So daddy, I'm finally through. The black telephone's off at the root, The voices just can't worm through. If I've killed one man, I've killed two-- The vampire who said he was you And drank my blood for a year, Seven years, if you want to know. Daddy, you can lie back now. There's a stake in your fat black heart And the villagers never liked you. They are dancing and stamping on you. They always knew it was you. Daddy, daddy, you bastard, I'm through.
Fonte. Site "Internal.org" poets/Sylvia_Path

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