sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ACORDAR, VIVER

ACORDAR, VIVER

via Sedimentos... by teca on 8/18/10

foto: internet

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

ÁS VEZES, EM SONHO TRISTE

ÁS VEZES, EM SONHO TRISTE

via Sedimentos... by teca on 8/16/10

foto: internet

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Hojas al viento

Allá van! son hojas sueltas
De un árbol escaso en fruto;
Humildísimo tributo
Que da al mundo un corazón.

Allá van, secas, revueltas
En confuso torbellino,
Sin aroma, sin destino,
A merced del aquilón.

Esas hojas los ensueños
De la vida simbolizan,
Cuando puros divinizan,
La ventura o el afán;

Son emblemas de risueños
Devaneos que en su aurora
La ilusión virgen colora,
¡Y que nunca ¡ay! volverán!

¡Hojas mustias y sombrías!
ya las ramas que adornaron,
Tristemente se doblaron;
El pampero sopló allí.

Las agrestes armonías
Que otro tiempo al aire dieron,
De la tarde se perdieron
En la bruma carmesí.

Allá van, sí, desprendidas
Por las ráfagas de otoño.
Sin que dejen ni un retoño
En su tránsito fugaz;

¡Pobres hojas esparcidas,
Por el viento arrebatadas,
de las vegas encantadas
A que dieron sombra y paz!

Fonte: Wikisource

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Meu amor da Rua Onze

Meu amor da Rua Onze

via Angola: os poetas by kinaxixi on 8/10/10

Tantas juras nos trocámos,
tantas promessas fizemos,
tantos beijos nos roubamos
tantos abraços nos demos.

meu amor da rua onze,
meu amor da rua onze,
já não quero
mais mentir.

meu amor da rua onze,
meu amor da rua onze,
já não quero mais fingir.

era tão grande e tão belo
nosso romance de amor
que ainda sinto o calor
das juras que nos trocámos.

era tão bela, tão doce
nossa maneira de amar
que ainda pairam no ar
as promessas que fizemos,

nossa maneira de amar
era tão doida, tão louca
qu'inda me queimam a boca
os beijos que nos roubamos.

tanta loucura e doidice
tinha o nosso amor desfeito
que ainda sinto no peito
os abraços que nos demos.

e agora
tudo acabou.
terminou
nosso romance.

quando te vejo passar
com o teu andar
senhoril,
sinto nascer

e crescer
uma saudade infinita
do teu corpo gentil
de escultura
cor de bronze,
meu amor da rua onze.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Meu amigo está longe

via Lupango Angolano on 8/6/10

Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a distância é tão grande.

Nem um som, nem um grito, nem um ai
Tudo calado, todos sem mãe nem pai
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a tristeza é tão grande.

Ai esta magoa, ai este pranto, ai esta dor
Dor do amor sózinho, o amor maior
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a saudade é tão grande.

OBS: Poema de Ary dos Santos dedicado a Fernando Tordo, quando este cumpria o serviço militar na Guiné

AS MÃOS DE MEU PAI

AS MÃOS DE MEU PAI

via Sedimentos... by teca on 8/7/10

foto: internet

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
- como são belas as tuas mãos -
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos
e tenta acendê-los contra o vento?

Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida - que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma... 


Cem anos

FALECEU MARIA AMÉLIA PINTO DE CARVALHO E ALMEIDA

via Associação Portuguesa de Poetas by appoetas on 8/1/10


Caros Amigos e Associados:

Tantos Amigos que perdemos este ano! Cada vez se torna mais doloroso, para mim, dar estas notícias tristes. Num curto espaço de tempo, perdemos António Manuel Couto Viana, Embaixador Dário de Castro Alves, Fausta Ripado e, agora,  a nossa querida Senhora D. Maria Amélia Pinto de Carvalho e Almeida. 
Há algum tempo que fora internada,  depois de uma queda. Sabia que não estava bem, mas não queria aceitar a ideia de que a poderíamos perder. E no Boletim, que já está na Tipografia, coloquei alguns poemas seus. Era uma forma de lhe demonstrar o nosso carinho, a nossa ternura. 
Faleceu no Domingo,dia 1 de Agosto de 2010, ao fim da tarde, e o funeral segue hoje de manhã para Travanca de Lagos, onde nasceu, onde tem uma rua com o seu nome.
A Família pediu-me que informasse os Amigos e os Associados da APP, pois em Lisboa não se realizou qualquer cerimónia fúnebre.

Em Dezembro de 2006, o Restaurante VáVá foi pequeno para os muitos Associados da APP que a quiseram homenagear pelo seu 100.º Aniversário.
Todos lhe ofereceram flores e poemas. E ela retribuíu-nos desta forma admirável:  

CEM ANOS

CEM ANOS soma hoje a vida minha
Que ansiei fosse digna, excelente.
Mas sem ser admirável nem mesquinha
Foi a vida vulgar de toda a gente.

E neste incessante desfilar
De dias e semanas, meses e anos,
Vivi teimosamente a pelejar
Por esperanças, ilusões, sonhos e planos.

Calharam-me vitórias e fracassos,
Numa viva explosão de sentimentos
E deixei ecoar pelos espaços
Cantares e risos, prantos e lamentos.

Adorei toda a espécie de trabalho
E as viagens que fiz p'lo mundo fora
E é dessas lembranças que me valho
Pra amenizar este vazio agora.

E assim, face aos anos já vividos
Ora em senda agitada, ora serena,
Feito o balanço desses tempos idos
Vejo que tudo valeu sempre a pena!

Pois tudo teve uma razão de ser
E em tudo adquiri sabedoria
Que pôde minha alma enriquecer
Fez parte da missão que me cabia.

E agradeço a Deus quanto me deu
E este dom da Poesia tão selecto,
Mas sobretudo essa bênção do Céu
Que é o amor dos meus filhos e meu neto.

Deles me orgulho p'lo labor fecundo
E a nobreza que n'alma lhes actua,
Eles são o rasto que deixo no mundo
E neles minha existência continua.

E agradeço aos que em meu longo caminho
- Familiares e amigos, em junção -
Me animaram com o seu carinho,
Me quebraram grilhões de solidão.

Lembro também os meus grandes ausentes
Que ascenderam já à Eternidade
E todavia estão sempre presentes
No altar florido da minha saudade.

E a vós, queridos amigos que aqui estão
A honrar-me com a vossa companhia,
Meu abraço de todo o coração,
Meu BEM HAJAM p'la vossa cortesia.

E que o Céu recompense em bens sem fim
Esta amizade que mostrais por mim!
 Maria Amélia de Carvalho e Almeida



(colocado por Maria Ivone Vairinho)

sábado, 7 de agosto de 2010

Era no tempo dos tamarindos

Era no tempo dos tamarindos

via Angola: os poetas by kinaxixi on 8/6/10

Era no tempo dos tamarindos

meu pai sempre acordava p'la manhã
e ia cantando pró quintal
enquanto fazia a barba
debaixo do caramanchão
da buganvília cor-de-violeta.

era no tempo dos tamarindos.

zenza niala vinha entrando na cancela
à cabeça a quinda carregadinha de fruta
sempre cumprimentava minha mãe:
- "sápere, dona!"
minha mãe respondia:
- "olá"
ela aganchava no chão
destapava a quinda
e por sob as folhas frescas de mamoeiro
mostrava papaias e pitangas saborosas.

às vezes trazia fruta-pinha e sápe-sápe.

era sempre o mesmo dialogo.
minha mãe. "chingamin?"
zenga niala do chão sorria
mostrava os dentes de marfim
e respondia:
- "meia-cinco, sinhóra!"

era no tempo dos tamarindos.

e havia "bigodes" e " bicos de lacre"
cantando nas acácias do quintal.

depois zenza niala ia embora,
as ancas baloiçando
a quinda na cabeça.

era no tempo dos tamarindos em flor.

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