É Domingo
Tronco nu, toalha a tiracolo
Sabão macaco
Vão todos ao banho
Pr´á ponte do Cubanguí
Lá, onde 6 ou 7 já são multidão
É Domingo.
È festa! Há banho
Na ponte do Cubanguí
Todos espreitam para as águas mansas
Lá no fundo, só areia
Mais além, é escuridão
Esconderijo do jacaré
Quem se atreve?
O mais afoito
Da prancha da ponte
Atira-se de chapa
E chapinha furiosamente
Com medo do jacaré
Seguem-se os outros
Um a um
E chapinham furiosamente
Todos com medo do jacaré
Depois, julgando-se seguros
Alguns ensaboam-se num cantinho
outros chapinham furiosamente
Todos com medo do jacaré
É domingo, é festa
Há banho na ponte do Cubanguí
Alguns, em canoa de tronco de árvore grande
Descem o rio
Olham o fundo
Todos com medo do jacaré.
Rui Moio – 13Out2004
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Banho no Cubanguí
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domingo, 25 de julho de 2010
Anúncio - Alda Lara
via O Lupango da Jinha on 7/25/10
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Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...
Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...
Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...
Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...
Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...
Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...
Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...
E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...
Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...
Alda Lara - Livro: Poemas
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Alda Lara
Mensagem do desassossego
via Mundo Pessoa on 7/19/10
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
Gazetilha, Álvaro de Campos
In Da República (1910-1935), Fernando Pessoa, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Ática, 1978, p. 165.
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Álvaro de Campos
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Se um inglês ao passar me olhar com desdém
via A bem da Nação by Elos Clube de Tavira on 6/23/10
Afonso Lopes Vieira
1878-1946
Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
Fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
Fui eu que t'as cedi num dote de princesa.
E para te ensinar a ser correcto já,
Coloquei-te na mão a xícara de chá...
E se for um francês que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
De ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
Fui eu que as depenei primeiro, e às gloriosas
O Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
Por essa Espanha acima, até casa a coxear.
E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Quando um dia arribei à orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
- eu era então o João Fernandes Labrador...
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.
Se for um Alemão que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor...
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.
Se for um Japonês que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa à tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
Belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
Foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.
Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
E penso que não são oceanos, continentes,
As pérolas em monte e os diamantes ardentes,
Que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
- São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
Extasiado fixou pela primeira vez...
Estrelas coroai meu sonho Português!
P.S.
A um Espanhol, claro está, nunca direi: - Pois bem !
Não concebo sequer que me olhe com desdém.
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Afonso Lopes Vieira
Para meu coração basta teu peito
via Sedimentos... by teca on 7/19/10
foto: internet
para tua liberdade bastam minhas asas.
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma.
E em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o sereno às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que cantavas no vento
como os pinheiros e como os hastes.
Como eles és alta e taciturna.
e entristeces prontamente, como uma viagem.
Acolhedora como um velho caminho.
Te povoa ecos e vozes nostálgicas.
eu despertei e as vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.
**************
Para mi corazón basta tu pecho,
para tu libertad bastan mis alas.
Desde mi boca llegará hasta el cielo
lo que estaba dormido sobre tu alma.
Es en ti la ilusión de cada día.
Llegas como el rocío a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausencia.
Eternamente en fuga como la ola.
He dicho que cantabas en el viento
como los pinos y como los mástiles.
Como ellos eres alta y taciturna.
y entristeces de pronto, como un viaje.
Acogedora como un viejo camino.
Te pueblan ecos y voces nostálgicas.
yo desperté y a veces emigran y huyen
pájaros que dormían en tu alma.
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Pablo Neruda
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Kicóla!
via Angola: os poetas by kinaxixi on 7/18/10
Nesta pequena cidade,
vi uma certa donzella
que muito tinha de bella,
de fada, huri e deidade –
a quem disse:- "minha q'rida,
peço um beijo por favor;
bem sabes, oh meu amor,~
q'eu por ti daria a vida!"
- nquâmi-âmi, ngua – iame
"não quero caro senhor"
disse sem mudar de cor;
- macûto, quangandall'ami.
"não creio no seu amor".
eu querendo-a convencer,
- muámôno!? – "querem ver!?"
exclamou a minha flor,
- "o que t'assombra donzella
n'esta minha confissão?"
tornei com muita paixão.
olhando sério pr'ella –
- "não é dado" – continuei –
"o que se sente dizer?!...
sem ti não posso viver;
só contigo f'liz serei."
- kiri ki amonequê,
"ninguém a verdade falla"
ósso a kua-macuto – âla!
"toda a gente falsa é!"
emé, ngana, nguixicána,
"aceitar não sou capaz"
o maca mé ma dilage,
" a sua falla que engana!"
- oh! q'rida não há motivo
para descreres de todos;
cada qual tem seus modos,
eu a enganar não vivo
- eie ngana úarimûca,
"o senhor é muito esperto"
queria dizer, decerto;
uzuêla câlá úa cûca!
"falla como homem d'edade!
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Cordeiro da Matta
domingo, 18 de julho de 2010
Sinos de Goa
Para o Adolfo Lizón
De longe, muito de longe, ao longe
Oiço tanger os sinos de Goa!
Quais sinos? De quem soam?!...
Por quem soam?!...
Chove! Chove em Goa e na Igreja do Apóstolo.
E chove pelos caminhos
Quem caminham para lá.
As palmeiras, nos palmares, dobram com a chuva.
E os rios, nos leitos, alargaram com a chuva.
E chove. Chove. Não pára de chover,
Como se a chuva fosse só prenúncio
Das lágrimas futuras…
E o sino, por quem tange?
Por quem tange?
Por quem soa?
- Ó portugueses, ó dramáticos sinos de Goa!
Goa, 11 de Julho de 1961
Fonte: livro "Não posso Dizer Adeus Às Armas", Págs. 34 e 35 de Amândio César
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Amândio César
Ruínas
Da passada, longínqua grandeza
Resta de pé
O rendilhado, esburacado pórtico mourisco
Do Palácio da Fortaleza.
Palmeiras, longe, acenam
Aos presentes
Goa perene de tristeza…
Como a têmpera dos homens,
O palácio foi ruindo
Até que de todo ruiu:
Ficou o rendilhado do pórtico
Que ao tempo antigo fugiu.
Explendor, timbre real,
A morte tudo levou:
Ficou o desgarrado pórtico
Que doutro tempo sobrou!
E quem um dia aqui passe,
Se acaso ainda existir
Esta ruína passada,
Por certo há-de sofrer
Por certo há-de sentir
Sua boca amordaçada.
Palácio da Fortaleza!...
Reduzido
A uma porta arruinada!
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Amândio César
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