segunda-feira, 19 de julho de 2010

Kicóla!

Kicóla!

via Angola: os poetas by kinaxixi on 7/18/10

Nesta pequena cidade,
vi uma certa donzella
que muito tinha de bella,
de fada, huri e deidade –



a quem disse:- "minha q'rida,
peço um beijo por favor;
bem sabes, oh meu amor,~
q'eu por ti daria a vida!"



- nquâmi-âmi, ngua – iame
"não quero caro senhor"
disse sem mudar de cor;
- macûto, quangandall'ami.
"não creio no seu amor".
eu querendo-a convencer,
- muámôno!? – "querem ver!?"
exclamou a minha flor,
- "o que t'assombra donzella
n'esta minha confissão?"
tornei com muita paixão.



olhando sério pr'ella –
- "não é dado" – continuei –
"o que se sente dizer?!...
sem ti não posso viver;
só contigo f'liz serei."
- kiri ki amonequê,
"ninguém a verdade falla"
ósso a kua-macuto – âla!
"toda a gente falsa é!"
emé, ngana, nguixicána,
"aceitar não sou capaz"
o maca mé ma dilage,
" a sua falla que engana!"
- oh! q'rida não há motivo
para descreres de todos;
cada qual tem seus modos,
eu a enganar não vivo
- eie ngana úarimûca,
"o senhor é muito esperto"
queria dizer, decerto;
uzuêla câlá úa cûca!



"falla como homem d'edade!

domingo, 18 de julho de 2010

Sinos de Goa

Para o Adolfo Lizón

De longe, muito de longe, ao longe
Oiço tanger os sinos de Goa!
Quais sinos? De quem soam?!...
Por quem soam?!...

Chove! Chove em Goa e na Igreja do Apóstolo.
E chove pelos caminhos
Quem caminham para lá.

As palmeiras, nos palmares, dobram com a chuva.
E os rios, nos leitos, alargaram com a chuva.
E chove. Chove. Não pára de chover,
Como se a chuva fosse só prenúncio
Das lágrimas futuras…

E o sino, por quem tange?
Por quem tange?
Por quem soa?
- Ó portugueses, ó dramáticos sinos de Goa!

Goa, 11 de Julho de 1961
Fonte: livro "Não posso Dizer Adeus Às Armas", Págs. 34 e 35 de Amândio César

Ruínas

Da passada, longínqua grandeza
Resta de pé
O rendilhado, esburacado pórtico mourisco
Do Palácio da Fortaleza.

Palmeiras, longe, acenam
Aos presentes
Goa perene de tristeza…

Como a têmpera dos homens,
O palácio foi ruindo
Até que de todo ruiu:
Ficou o rendilhado do pórtico
Que ao tempo antigo fugiu.

Explendor, timbre real,
A morte tudo levou:
Ficou o desgarrado pórtico
Que doutro tempo sobrou!

E quem um dia aqui passe,
Se acaso ainda existir
Esta ruína passada,
Por certo há-de sofrer
Por certo há-de sentir
Sua boca amordaçada.

Palácio da Fortaleza!...
Reduzido
A uma porta arruinada!

Fonte: livro "Não Posso Dizer Adeus Às Armas", Págs. 32 e 33 de Amândio César

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Arco dos vice-reis

Para o Jorge Cid Proença
  
Senhor Dom Vasco da Gama!
Pelo arco de granito onde tu estás
Passei reverente e abismado
Olhando o futuro do passado!

Lembrei-me do Poeta que te adivinhou
E não te viu,
Mas que te pressentiu
Em mármore taqlhado.

Júlio Simão te desenhou
E fez.
Ontem e hoje,
Abandonado,
E triste
No descampado,
És o Arco do Triunfo português.

Fonte: Livro “Não Posso Dizer Adeus Às Armas” de Amândio César, págs. 28 e 29.

Os mortos perguntam

via Angola: os poetas by kinaxixi on 7/13/10

Nos rumos perdidos dos ventos trocados,
todos os rumos,
nos fumos das piras dos mortos cremados,
todos os fumos,
de todas as piras...
nas iras dos mares
que beberam sangue
todas as iras...
na ânsia enlutada de todos os lares
vazios de esperança
todas as ânsias
de todos os lares...
nos sexos sangrentos das virgens violadas
os farrapos
a sangrar
de todos os sonhos que homens sonharam
e homens violaram...
em todas as dores dos vivos da terra
todas as dores dos mortos da guerra...
e os rumos perdidos
e os corpos ardidos,
e as iras inúteis,
e as ânsias caladas,
e os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas,
e todas as dores
de todos os mortos que a guerra matou,
e todos os lutos
de todos os vivos
que a guerra enlutou,
perguntam,
perguntam,
perguntam
a todos os ventos
a todos os mares
às roupas de luto de todos os lares,
se valeu a pena...
... os mortos perguntam...
mas os ventos trocam-se,
o mar não serena,
as viúvas continuam a chorar,
e os mortos não param de perguntar
se valeu a pena...
... mas a esperança é longa
e bela de agarrar no fundo dos martírios...
os mortos perguntam,
os mortos protestam...
... irmãos, os braços são magros,
mas longos,
longos da ânsia de querer...
...a pergunta é grande e a força é pequena,
mas só nós podemos, irmãos, responder,
se valeu a pena...

És pequenina e ris... A boca breve


via Sedimentos... by teca on 7/10/10
És pequenina e ris...A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!
Doce quimera que nossa alma deve
Ao céu que assim te fez tão graciosa!

Palácio do Hidalcão!

Palácio do Hidalcão!
Vazio de corpos e almas,
Os Vice-Reis já lá não estão.
Foram levados nos caixilhos dourados,
Foram dispersos nas telas restauradas,
Foram banidos, sem gala, da sala de recepção!
Palácio do Hidalcão!

As tábuas de sândalo chorarão monções
Nos maviosos móveis criminosos
Daqueles que as arrancaram,
As roubaram por despojos
Das suas ocultas ambições.
Palácio do Hidalcão!

Vazio, lúgubre e sombrio,
Testemunha de sofrimentos, choros e suores,
Talvez um dia longe, muito longe,
A luz do sol doire as entradas pobres
Por onde entrarão os teus senhores,
Palácio do Hidalcão!

Agora… o tempo que faz é outro,
E outra a vida diferente.
Fantasmas escorrem de tuas paredes
Pedindo aos céus, aos oceanos, às gaivotas,
Que levem saudades de outros tempos,
De outros senhores capitães-generais,
De outra gente…
Palácio do Hidalcão!
Chaga rasgada ao pé do coração!

Fonte: Livro "Não Posso Dizer Adeus Às Armas" de Amândio César, Págs. 81 e 82

terça-feira, 6 de julho de 2010

DEIXA ACONTECER

via Sedimentos... by teca on 7/5/10
foto: internet

Ah, não tente explicar
Nem se desculpar
Nem tente esconder
Se vem do coração
Não tem jeito, não
Deixa acontecer

O amor é essa força incontida
Desarruma a cama e a vida
Nos fere, maltrata e seduz
É feito uma estrela cadente
Que risca o caminho da gente
Nos enche de força e de luz

Vai debochar da dor
Sem nenhum pudor
Nem medo qualquer
Ah, sendo por amor
Seja como for
E o que Deus quiser

Vinícius de Morais/Toquinho

Related Posts with Thumbnails