quarta-feira, 16 de junho de 2010

Menina Perdida

via Fernanda de Castro by António Quadros Ferro on 6/16/10
Menina perdida
no bosque da vida.


Os olhos desertos,
os gestos errados,
os passos incertos,
os sonhos cansados.

Menina perdida,
desaparecida
nos longos caminhos
de pedras e espinhos.
Cabelos molhados,
pés nús, alma exangue,
vestidos rasgados,
mãos frias, em sangue.

Menina encontrada
na berma da estrada.
Andava perdida
mas já foi achada,
de branco vestida,
de branco calçada.

Menina perdida
no bosque da vida.

Fernanda de Castro
Poesia I (1969) pp.163-164

quinta-feira, 10 de junho de 2010

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

Nota
António Manuel Couto Viana, um homem que comecei a admirar pela sua poesia patriótica e nacionalista quando eu tinha apenas uns 14 ou 15 anos. Após o 25 de Abril de 1974 admirei-o ainda mais por se manter integro e coerente perante todas as campanhas que lhe moveram para o silenciarem.
Há menos de três anos tive o privilégio e a suprema honra de o conhecer pessoalmente. Então, apercebi-me da sua grande humanidade e simplicidade. De admirador, tornei-me amigo e amigo para sempre.

O que resta da nossa nação acaba de perder um dos maiores vultos nacionais de todos os tempos. A nossa Pátria está muito mais pobre com a perda deste homem de letras e de virtudes. Perdeu-se também um homem que, nestes tempos de cobardia e negação da Pátria, se manteve como um homem de "H" grande.
Obrigado meu poeta e meu mestre.
Rui Moio

via Comunidades - RTP by Irene Maria F. Blayer on 6/9/10

"O escritor António Manuel Couto Viana morreu esta tarde aos 87 anos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa."(via Público 8-6-2010).



As nossas condolências à família de António Manuel Couto Viana.


Este é um momento de forte emoção, e em homenagem a este grande poeta, escritor, dramaturgo, ensaísta, encenador e tradutor, deixamos o leitor com estes links do Público, e da Associação Portuguesa de Poetas (http://appoetas.blogs.sapo.pt/) onde se destaca referência à sua obra.
Da sua poesia saliento e transcrevo aqui este poema que António Manuel Couto Viana dedicou ao seu querido Amigo, Eduíno de Jesus. É natural que os seus amigos se sintam com os mesmos sentimentos de quem está de luto.

Ilha de São Miguel
Para Eduíno de Jesus

António Manuel Couto Viana


Vejo os romeiros da Semana Santa
Atravessando os campos plo sol-posto:
O cajado na mão; ao ombro, a manta,
E a fé em cada rosto.

Na alba do domingo, assisto
(Ainda luzem estrelas)
À missa cantada ao Senhor Santo Cristo,
Entre a pompa dos oiros, flores e velas.

À porta do Convento da Esperança,
Rezo ao banco de Antero.
A sua alma, em paz, ali descansa,
Depois do tiro do desespero.

E a paisagem bucólica,
Com lagoas de névoas e frescuras,
Melancólica,
Escorre das alturas.

Até onde o olhar se perde,
Vacas pretas e brancas
Mancham o pasto verde,
De úberes túmidos, de pesadas ancas.

Tão alvas e tão azuis, nas bermas das estradas,
As hortenses floriram os fuzis liberais,
Por serem dessas cores as bandeiras ousadas
Que iriam invadir as areias e os cais.

Enfeitam-na, também, as rosas do Japão
(Vai-lhe bem o cetim!).
E respira da boca do extinto vulcão
Hálitos de jardim.

Nas Furnas,
Arde o coração da terra.
E, das caldeiras soturnas,
Um fumo sobe, ondula e erra.

Fui ao Nordeste, um dia,
Comer cracas, beber vinho de cheiro,
Enquanto a Ilha bebia
Nevoeiro.
E porque não beber chá
(Chá chinês da Gorreana):
O Oriente que dá
Delicadeza à flora açoriana?

Beber, na estufa, até, um sumo de ananaz,
Como um sol ruivo, acre e tropical
Que ao severo da Ilha satisfaz
a sede sensual.

No sabor das bananas, que novos exotismos!
Verdes, se verdes, depois, doiradas,
Frente a espessuras, prados, abismos,
Fontes, levadas...

Ilha a emergir da espuma,
Sê sinal de salvação:
Traz-me, perdido na bruma,
El-Rei Dom Sebastião.

(20.2.08)

António Manuel Couto Viana "Sobre Eduíno de Jesus". Eduíno de Jesus: A ca(u)sa dos Açores em Lisboa - homenagem de amigos e admiradores. Eds. Onésimo T. Almeida e Leonor Simas-Almeida. Terceira: IAC, 2009. 32-33.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cecília Meireles na Índia

via Lusofonia Horizontal by Lusofonia Horizontal on 6/6/10
Àquele lado do tempo
onde abre a rosa da aurora,
e onde mais do que a ventura
a dor é perfeita e pura,
chegaremos de mãos dadas.

Chegaremos de mãos dadas,
Tagore, ao divino mundo
em que o amor eterno mora
e onde a alma é o sonho profundo
da rosa dentro da aurora.

Assim foi expressa em verso a reverência de Cecília Meireles ao mestre, o poeta, pintor e educador indiano Rabindranath Tagore, falecido em 1941. Este era, para ela, "o portador do verbo novo, de um grande verbo de estímulo", que "guardava em sua palavra e em sua figura uma expressão de eternidade que o tornava como irreal, sem princípio nem fim, como uma bela aparição, um fantasma esplêndido".

Cecília Meireles, assim como os demais poetas espiritualistas da revista carioca Festa, desde cedo mergulharam nos estudos sobre as culturas asiáticas, em especial a da vasta civilização indiana. E sobre ela fizeram leituras em profundidade, assim como também o fará o poeta mexicano Octavio Paz, autor do extraordinário Vislumbres de la India. Mas a ênfase da "pastora de nuvens" será não na Índia unificada e majestosa refundada pelo nortenho Jalaluddin Akbar, a preferida de Paz, mas na religião-filosofia hinduísta e nas culturas do Sul e de Leste, de Madras a Calcutá, da velha Vijayanagar à Costa Coromandel.

Consta que os poemas de Cecília estão prenhes de metáforas, prosopopeias e outras figuras de linguagem inspiradas do Rig-Veda, além de referências constantes a rodas, giros, cirandas, mandalas e ao atman (partícula manifesta do Uno), enfim, a tudo que representa o circular, o permanente, imperecível e divino, em eterno contrate com o transitório, circunstancial, mundano e material. Um exemplo:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

A dedicação de Cecília à filosofia e literatura hinduísta a levou a traduzir, de Tagore, o livro de poemas Puravi e a peça teatral O carteiro do rei. Além disso, escreveu Rabindranath Tagore and the East West Unity, publicação de 1961 da UNESCO, além de estudos sobre a pintura de Tagore, publicados na Índia. Também estudou o sânscrito. Em 1953, recebeu das mãos de Mahatma Gandhi o título de Doutor Honoris Causa, na Universidade de Nova Delhi.

No Brasil, a educadora Cecília Meireles teve papel protagônico na aplicação das teorias educacionais criadas pelo também educador Tagore, que por sua vez inspirou a criação de muitas universidades na Índia. Ela se sentia tão influenciada pelo eminente erudito indiano que julgava ser sua plagiadora. A verdade é que foi sua fiel aprendiz, e esta é uma relação de sublime cumplicidade que merece ser melhor conhecida. (Para mais detalhes, ver o artigo e as indicações do antropólogo Djalma Cavalcante publicado na Cult, nº 51, de 2001.)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

FADO DO MARINHEIRO de Estêvão Amarante

via Gago Coutinho by costapinto on 5/19/10

O marujo criou fama.
Desde um tal Vasco da Gama
Que no mar foi o primeiro;
E o Pedro Álvares Cabral
Só foi grande em Portugal
Por ter sido marinheiro.
A lutar como um soldado,
Peito ao léu, rosto queimado,
Ao sol da terra africana,
Com a farda em desalinho,
(Foi às ordens de Mouzinho
Que deu caça ao Gungunhana !
Quando o mar era um segredo,
Os antigos tinham medo
De perder-se ou ir a pique;
Só zombavam das porcelas
As primeiras caravelas
Do Infante Dom Henrique!
Fartos já de andar nos mares,
Também vamos pelos ares
Sem temor, abrir caminho;
Pois bem sabe toda a gente
Que o marujo mais valente
É o avô Gago Coutinho!
Nessa Alcântara afamada,
O marujo anda à pancada
E arma sempre espalhafato;
É que guarda na memória
O banzé que houve na história
Do António Prior do Crato.
Quando vai p'rá Fonte Santa
E dá largas à garganta,
P'la guitarra acompanhado.
Até chora o mundo inteiro,
Porque a voz do marinheiro
É a voz do próprio Fado!…

Com o russo em Berlim

via POEMBLOG by JOSE ANTONIO LEAO RAMOS on 5/7/10

Com o russo em Berlim


Esperei (tanta espera), mas agora,
nem cansaço nem dor. Estou tranquilo,
Um dia chegarei, ponta de lança,
com o russo em Berlim.

O tempo que esperei não foi em vão.
Na rua, no telhado. Espera em casa.
No curral; na oficina:um dia entrar
com o russo em Berlim.

Minha boca fechada se crispava.
Ai tempo de ódio e mãos descompassadas.
Como lutar, sem armas, penetrando
com o russo em Berlim?

Só palavras a dar, só pensamentos
ou nem isso: calados num café,
graves, lendo o jornal. Oh, tão melhor
com o russo em Berlim.


Pois também a palavra era proibida.
As bocas não diziam. Só os olhos
no retrato, no mapa. Só os olhos
com o russo em Berlim.

Eu esperei com esperança fria,
calei meu sentimento e ele ressurge
pisado de cavalos e de rádios
com o russo em Berlim.

Eu esperei na China e em todo canto,
em Paris, em Tobruc e nas Ardenas
para chegar, de um ponto em Stalingrado,
com o russo em Berlim.

Cidades que perdi, horas queimando
na pele e na visão: meus homens mortos,
colheita devastada, que ressurge
com o russo em Berlim.

O campo, o campo, sobretudo o campo
espalhado no mundo: prisioneiros
entre cordas e moscas; desfazendo-se
com o russo em Berlim.

Nas camadas marítimas, os peixes
me devorando; e a carga se perdendo,
a carga mais preciosa: para entrar
com o russo em Berlim.

Essa batalha no ar, que me traspassa
(mas estou no cinema,e tão pequeno
e volto triste à casa; por que não
com o russo em Berlim?).

Muitos de mim saíram pelo mar.
Em mim o que é melhor está lutando.
Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim.

Mas que não pare aí. Não chega o termo.
Um vento varre o mundo, varre a vida.
Este vento que passa, irretratável,
com o russo em Berlim.

Olha a esperança à frente dos exércitos,
olha a certeza. Nunca assim tão forte.
Nós que tanto esperamos, nós a temos
com o russo em Berlim.


Uma cidade existe poderosa
a conquistar. E não cairá tão cedo.
Colar de chamas forma-se a enlaçá-la,
com o russo em Berlim.

Uma cidade atroz, ventre metálico
pernas de escravos, boca de negócio,
ajuntamento estúpido, já treme
com o russo em Berlim.

Esta cidade oculta em mil cidades,
trabalhadores do mundo, reuni-vos
para esmagá-la, vós que penetrais
com o russo em Berlim.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

Mais sobre Carlos Drummond de Andrade em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Drummond_de_Andrade

quarta-feira, 2 de junho de 2010

o que me dói

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


terça-feira, 1 de junho de 2010

Ilha do Corvo

Serenamente declinando,a tarde.
Sentadas alguns velhos,lado a lado,
no longo banco de pedra do largo do Outeiro,
bem junto à Casa do Divino Espírito Santo.
E eu,discreto forasteiro,começo por daudá-los,
e com eles me decido a conviver um instante,
porque é bom escutar o seu falar antigo.

Ilha pequena,por certo,- digo eu -,
(de quatrocentas almas)
porém não tão pequena
que não pudesse ter um outro povoado
algures,mais ao norte da costa oriental-
E mais ainda,coisa estranha:
Por que foram ali as casas construídas naquele extremo sul,
todas tão abraçadas,
mutuamente amparadas? -
perguntoeu depois. (...)

Norberto Ávila, In: Percurso de Poeta,2000:65

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