terça-feira, 30 de março de 2010

Angola

via Angola: os poetas by kinaxixi on 3/9/10
não nasci do teu ventre
mas amei-te em cada primavera
com a exuberância de semente…

não nasci do teu ventre
mas foi em ti que sepultei
as minhas saudades
e sofri as tempestades
de flor transplantada
prematuramente…

não nasci do teu ventre
mas bebi o teu sortilégio
em noites de poesia
transparente…

não nasci do teu ventre
mas foi à tua sombra
que fecundei rebentos novos
e abri os braços
para um destino transcendente…

angola,
não eras terra do meu berço
mas és terra do meu ventre!

O que vou ver....

via CEM raízes // SEM raízes by Pó-de-lotús on 3/22/10
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, VII Da minha aldeia

Rodrigo Emílio (18/02/1944 — 28/03/2004)

via INCONFORMISTA.INFO by DB on 3/29/10
Quando eu morrer,
não haja alarme!
Não deitem nada,
a tapar-me:
— nem mortalha.

Deixem-me recolher
à intimidade da minha carne,
como quem se acolhe a um pano de muralha
ou a uma nova morada,
talhada pela malha
da jornada...

— E que uma lágrima me valha...!
Uma lágrima — e mais nada...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Nambuangongo em Maio

Então cheguei
E eram casas
de madeira, roupa
secando sua lama
no arame em volta /

uma igreja deserta / os cães
que vinham farejar meus pés
impregnados ainda
de Luanda, mar

(mas conta, conta até ao fim:)
eram homens nas casas
e fora delas e em volta
por dentro do arame, outros
que vinham vindo e vindo
da solidão

com cigarros ardendo /
eis-me então cercado
diante das casas e em volta
descobria agora
os sinais efémeros:
lama, roupa,

enquanto tais e outras
tremendas bocas me instruíam
sobre tanto mistério
e eram (repete:) casas,
(repete:) morros, cães,
a cachorrinha Quibala
que me lambia mordia quase

e em volta: esse cheiro
das latrinas ao ar
cercando a igreja branca
(das quais?) da qual
pude salvar um verso
escrito no primeiro dia

»além dos nomes o sopro da manhã».

Fernando Assis Pacheco, in Catalabanza Quilolo e Volta, Coimbra, 1976, págs, 17 e 18

A um amigo sobre o tema da miscigenação

Chamas tu desgraça
a uns negros amores!
Bebe eu isso passa:
Há misturas piores.

Deixa lá a raça
fingir umas dores
- tudo vai na lassa
teia dos licores.

Tinha menos graça
Trazer os actores
Do Cayatte à Praça
Dos Restauradores.

Mas como isso passa
bebe-o com licores.
Deita abaixo a taça:
Há misturas piores.

Fernando Assis Pacheco, in Catalabanza Quilolo e Volta, Coimbra, 1976, pág, 62.

Recordai companheiros Bolama / Recordai Cantanhez e o Cacheu

RECORDAI COMPANHEIROS BOLAMA
RECORDAI CANTANHEZ E O CACHEU
ONDE UM DIA ACENDEMOS A FLAMA
QUE NOS CÉUS DA GUINÉ SE PERDEU

E AO LONGE O ZAIRE NOS CHAMA
CHILOANGO PERGUNTA POR NÓS
NESSA ANGOLA ONDE A DOR SE DERRAMA
FOMOS DIGNOS DE NOSSOS AVÓS

MOÇAMBIQUE, NUNCA ESQUECEREMOS
QUANTO SANGUE DEITAMOS POR TI
DO ZAMBEZE ÀS TERRAS DO NIASSA
NOSSA VOZ TE DIZIA VENCI

COMO SEMPRE GRITEMOS PRESENTE
COMO SEMPRE MARCHEMOS A PAR
SÓ TEM PÁTRIA QUEM SABE MORRER
SÓ TEM PÁTRIA QUEM SABE LUTAR

COMO SEMPRE GRITEMOS PRESENTE
COMO SEMPRE MARCHEMOS A PAR
SÓ TEM PÁTRIA QUEM SABE MORRER
SÓ TEM PÁTRIA QUEM SABE LUTAR

Fonte: Blogue "Caceteiro" - post de 21Mar2010

Ernesto Lara Filho (De o Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto) - Infância Perdida


via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MARIANJARDIM on 3/12/10

Ernesto Lara Filho: Benguela, 1932; Huambo, 1977

Infância perdida
(para o Miau)

Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Guimarães.

Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.

Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.

Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão

Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Mais tarde
vieram os passeios noturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.
Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
[essa mulata...)
Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.
Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
Infância Perdida
sonhos dos tempos de menino.

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varre das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.

Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu
de dona Ema.

Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.
Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes
grita-lhes
aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.

Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva
cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.

Nesse tempo, Edelfride,
Infância Perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...

Ernesto Lara Filho
(O Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto)
1964, Lisboa

terça-feira, 23 de março de 2010

FANTASMAS DO PASSADO

via Victor Cabral by Luisa Hingá on 10/26/08
Por: Victor "Hunter"

Um dia na minha Beira
Fui para a cama bem cedo
Durante a noite acordei
Com uma sensaçâo de medo.

Nâo era de arrepiar,
Era somente a impressâo,
Que alguem me acompanhava,
Apressou-me o coraçâo.

Vi deslisar umas sombras,
Abri os olhos em par,
Era como umas imagens,
Que me vinham visitar.

Fantasmas...logo pensei,
Aqui é tudo possível,
Vi caras que conheci antes,
Isto sim que era incrível.

Olha o velho Araujo,
Daquele jeep a baixar,
Parecia-me bem disposto
Pela praça a passear.

Levava posto um blazer
No pescoço um cachné,
Falava com o Ramchand
Um importante monhé.

Depois vi um homem passar
Deu-me um salto o coraçâo
Parecia-me conhecido,
Era o Saul Brandâo.

Lembram-se dele certamente
Muito conhecido o senhor,
Era homem de negocios
E dono do Embaixador.

Quem vem lá baixo apressado?
O Salzone, o caçador,
Vai correndo antes que feche
O Pinto & Sotto Mayor.

Naquele Mercedes lá vai,
Levantou a mâo pra mim,
Pude vê-lo muito bem,
Era o Engenheiro Jardim.

Deve ter vindo do Dondo,
Acompanhava-o a esposa,
Vi que o carro seguia,
P'ros lados do Pendray Sousa.

Ele fui o presidente,
Por isso o conhecia
Do nosso aero club,
Onde eu muitas vezes ia.

Foi um grade aventureiro,
E foi homem da elite,
Piloto aviador
Director da Lusalite.

Quando estava bem atento,
Vi um Fiat azul passar,
Era o meu tio Acácio,
Que vinha de trabalhar.

Ao Bar Rex se dirigiu,
E foi lá estacionar,
Porque pelas tardes ia,
Com os amigos jogar.

Continuava admirado
Com todos os que passavam,
Porque eu sabia que eles,
Todos mortos se encontravam.

Mas aqui nâo acabava
Era como se estisse à janela,
Passou o Magalhâes Costa
O dono da Caravela,

Isto só acontece aqui,
Nesta cidade da Beira,
Olha o meu amigo Sthamer,
Do Pertersen & Nogueira

Ia no seu Volkswagen
Por isso eu bem o vi,
Tinha a sua companhia,
Por cima do Café Capri.

Passar em frente aos correios
Vi o Virgilio Garcia,
Indo direito à Safrique,
Deles era caçador-guia.

Lembram-se dos Serras Pires?
Lhes juro que eu nâo minto,
Vi passar p'ro 100 à Hora,
O meu amigo Jacinto.

Que andará fazendo?
Com cuidado o segui,
Vi que andava organizando,
À Gorongosa um Rally.

Rallys, carros e velocidade,
Desfilando pela Beira,
Representando o Entreposto,
O José Manuel Mendes Pereira.

Vi passar um grande carro
Atrás dele uma camionete
Saiu de lá o dentista
E a sua mulher, a Gillette.

Continuava a passar,
A gente que eu conheci,
O dono do Simôes Safaris
Naquele momento eu vi.

Olha o Zé que bem o vejo,
Acenando-me com a mâo,
Vi tambem o velho Coimbra
E o Henrique Leitâo.

Olá amigo, me disseram,
Aqui te viemos a ver,
Fomos todos muito amigos
Muito antes de morrer.

Depois vi o Carlos Cruz,
Que tambem foi caçador,
Ele casou-se com a viuva
Que se chama Leonor.

Sabem quem vi eu passar
Pessoa que me deu pena?
Vi que ia muito contente,
O amigo Luis Mena.

A morte tinha-o levado,
Rápido e numa carreira,
Agora encontrava-se bem,
A passear pela Beira.

Mais tarde vi outra pessoa,
Na mâo levava um cajú,
Era o Armindo Vieira
O famoso Marabú.

Foi caçador professional,
Durante muitos anos,
Nese momento passava
Mesmo em frente à Spanos.

Atrás da Manica Trading
Vi o Arquitecto Ivo,
Caminhava devagar
Parecia que estava vivo.

Com ele e acompanhando-o
Em conversa muito amena,
Ia bastante animado,
Creio que se chamava Sena.

Que estariam planeando?
Alguma coisa digo eu,
Será que querem modificar
A entrada para o Céu?

Com calma mas com firmeza
Pelas avenidas da Beira,
Ia p'ro Aero Club,
O grande Chico Moiteira.

Sempre com um grande sorriso,
Que nele era habitual,
Acompanhava-o o Tony Ladley,
Nâo vi que estivesse mal.

Num Citroen tubarâo
Ia o Roger Sauvage,
Tambem o acompanhava,
A que foi minha manacage.

Ao olhar p'ro Pic-Nic,
Estava o amigo Teixeira,
Aterafado preparando,
Uns ovos com uma alheira.

Estava a ver muita gente
Durante essa semana,
Vi aquele que foi piloto,
Amigo Lomba Viana.

E por falar de pilotos,
Que viviam nesta terra,
Ia para o aeroporto,
O aviador Jorge Guerra.

Dizem que a Senhora Morte,
O tinha contratado,
Para levar as pessoas,
Da vida, pró outro lado.

Tambem vi outra pessoa,
E quase solto um grito,
Era um bom hoteleiro,
Do Estoril, era o Brito.

Na entrada do cinema
Que se chama Nacional,
Encontrei um velho amigo
Era o Luis Portugal.

Oh Luis meu bom amigo
Onde é que tua mâe anda?
Está na agencia agora,
E ainda se chama "Armanda".

Que coisas que estava a ver,
Isto sim era demais,
Pois no Lar Modeno vi
O Silva e o Sr. Morais.

O Torcato pobrezinho
Quando chegou aquele dia
Quiz vender ao Sào Pedro,
Bilhetes de Lotaria.

Despois vi uma pessoa
Que reconheci Deus meu,
Era o Coen das madeiras,
Que era um grande judeu.

Mesmo em frente ao Chiveve,
Preparando o camarào,
O grego do Johny's Place,
Açenou-me com a mâo.

Que boa que era a comida,
Naquele famoso lugar,
Agora eram os fantasmas,
Que a estavam a gozar.

Segui para a Ponta Gea
Alguem me estava a chamar
Na Padaria Esperança,
Vi o Carvalho trabalhar.

O que mais me impressionou,
Que quase me dá um chelique,
Ver a Gugas, minha mulher,
Em terras de Moçambique.

Em frente ao campo de golf,
Naquele grande casarâo,
Vi o homem importante
O bispo Dom Sebastiâo.

Primeiro Bispo da Beira,
Nos livros assim se aprende,
A lápide que está no châo diz:
D. Sebastiâo Soares Resende.

Vi uma pessoa importante,
Que num grande carro vinha,
Era um bom advogado
E chamava-se Palhinha.

Gostava muito de caçar,
Ia muitas vezes p'ros tandos,
Para poder distrair-se,
De assuntos e de "milandos".

Por fim vi um grande homem
Que saiu nâo sei bem donde,
O que foi o meu pisteiro,
Um grande amigo , o FOMBE.

Para mim se dirigiu,
E disse-me num tom lento,
Aqui estou oh meu muana,
Te espero até ao fim do tempo.

Ao ver aquele ser querido,
Nem podia respirar,
Desde que era um menino,
Ele me ensinou a caçar.

Ao ver que ele estava bem,
Que felicidade, que alegria,
Sabia que ele me esperava,
Quando chegasse o meu dia.

Depois de ver tudo isto,
Cheguei à conclusào,
Que os beirenses ao morrer
Para o Paraiso vâo.

E ao perguntar-lhe directo,
Ao Dr. Dias Ferreira,
Victor, ainda nâo notas-te,
Que o Paraiso é a BEIRA?

Quando eu morra um dia,
Lá nos vamos encontrar,
Mandem-me limpar a casa,
Onde eu costumava morar.

Agora sei para onde vou,
Agora estou descansado,
À Beira eu vou parar,
Ainda que morra noutro lado.

Por isso amigos nâo temam,
Quando a Morte os venha buscar,
Já sabem que de certeza,
À Beira vamos parar.

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