quarta-feira, 22 de abril de 2009

Língua Chã

Escrevo em português
Corrente e liso.
Não preciso
De formas desvairadas
Camufladas
De falsa erudição,
Pedante sabedoria.

Minha fala é clara
Simples e chã
Como o odor da maresia
Que o mar tem pela manhã.

P'ra todos me entendam
Pois então
Logo ás primeiras
Logo de repente.

Detesto o vernáculo
Abobino o calão.
Não me armo em sábio
Nem quero ser sabão.
Sou apenas prosaicamente
Alguém prosaicamente
Alguém que não engana.
Um elo da cadeia lusitana,
Um pedaço de gente.

Fonte: "Amor de Sombras e Luz" de Maria Ramajal Jorge, Editorial Minerva

Canção de Salabu

Nosso filho caçula
mandaram-no p’ra s. tomé
não tinha documentos
aiué!
nosso filho chorou
mamã enlouqueceu
aiué!
Mandaram-no p’ra s. tomé

nosso filho já partiu
partiu no porão deles
aiué!
mandaram-no p’ra s. tomé

cortaram-lhe os cabelos
não puderam amarrá-lo
aiué!
mandaram-no p’ra s. tomé

nosso filho está a pensar
na sua terra, na sua casa
mandaram-no trabalhar
estão a mirá-lo, a mirá-lo

- mamã, ele há-de voltar
Ah! a nossa sorte há-de virar
Aiué!
mandaram-no p’ra s. tomé

nosso filho não voltou
a morte levou-o
aiué!
mandaram-no p’ra s. Tomé


Mário Pinto de Andrade (1928- 1990)

terça-feira, 21 de abril de 2009

O meu pensar

Sombras,
Imagens vultuosas
Que vou tendo
Coisas que deixo
Por fazer,
Apenas por sentir,
Por pensar,
Por viver!
Vozes que oiço,
De ajuda,
De amparo,
Que me iluminam
Sem querer ver,
Amanhã sim,
Darei valor
Ao que hoje,...
...hoje não quero ter!

Fonte: "Idades do Ser" de Andreia Cardoso, Editorial Minerva.

Ela foi vestida à belle époque

Ela foi vestida à belle époque,
quando surgiram os sapatos a preto
e branco
os anos loucos do foxtrot.
Uma fantasia de carnacal.
Raposas espiando
sinais misteriosos.
Na Luanda troopical. Penteado
de brilhantina
ele quer uns sapatos com
música
para dançar swing, rumba
e tango.
Anos quarenta. São sapatos pretos
e brancos.
Trinta anos depois, em Brazaville,
pegou a moda chamarem-lhes
- a dois tempos.
Anos oitenta,
ao som do jazz de Keith Jarret
os sapatso com música anunciavam
o baile a dois tempos
ao ritmo do samba.

Fonte: Lágrimas e Laranjas de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 42

À Miete Marcelino

À Miete Marcelino

A casa grande
risos
azáfama na cozinha.
Nós as meninas brincávamos
no jardim.
Tinhas a palavra certa
a delixadeza do gesto
com paciência e carinho.
Tu
que nos contaste as estórias
do Jesus menino
foste esperada por fuzis.

Fonte: Lágrimas e Laranjas de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 33

Fomos peregrinos de tantos lugares

Fomos peregrinos de tantos lugares
e de gentes de outras línguas
bebemos água de muitas fontes.

Mas àquela cachoeira
que nos pertencia
não podíamos chegar.
Prenderam-nos no exílio
e na tortura de a sonhar.

Não somos mais peregrinos,
estamos em outro lugar.
Mas viaja a alma
para nessa cachoeira mergulhar.

Fonte: Lá grimas e Laranjas de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 31

No temporal da revolução

No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casdadoiras
naufragaram.

Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi o meu enxoval.

Fonte: Do Tempo Supenso de Maria Alexandre Dáskalos, Caminho, pág. 37

A minha cidade

A minha cidade
desliza por um monte
e tem aos pés
o rio e o mar.

A minha cidade
não tem horizonte
vê-se ao longe
até perder o olhar.

A minha cidade
tem palácios,
jardins, catedrais
e muitas coisas mais.

A minha cidade
cheira a rosmaninho
e nos velhos beirais
os pássaros fazem ninho.

A minha cidade
tem sempre calor
intenso e verdadeiro
fruto do trabalho
e amor
deste povo Tripeiro.

Fonte: A Vida, Sonhos & Poesia de Maria Algina Sá Pinto, Editorial Minerva. 

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