domingo, 12 de abril de 2009

Elisa Mulata

Quando Elisa, a Mulata
de olhos brilhantes como dendem
veste de negro
seu corpo parece uma escultura quioca
escurecida pelo tempo.

quando Elisa, a mulata
veste de negro
e samba sozinha no meio da sala
de um cabaret
ao som de uma orquestra de mambos
renasce uma rainha
de qualquer noite africana.

Elisa, a mulata ordinária
de olhos brilhantes da cor do dendem
de corpo brilhante, coleante de cobra
de lábios vermelhos e grossos
parece uma escultura quioca
reminiscência de uma qualquer noite africana
perdida nas minhas noites da Europa.

rainha
de uma qualquer noite africana.

Elisa
mulata ordinária
Elisa de Luanda
perdida nas noites
de um cabaret de Lisboa

Elisa
a que quando veste de negro
parece uma escultura quioca
enegrecida pelo tempo.

Ernesto Lara Filho (1932-1977)

sábado, 11 de abril de 2009

El alma trémula y sola

El alma trémula y sola 
Padece al anochecer: 
Hay baile; vamos a ver 
La bailarina española. 

Han hecho bien en quitar 
El banderón de la acera; 
Porque si está la bandera, 
No sé, yo no puedo entrar. 

Ya llega la bailarina: 
Soberbia y pálida llega; 
¿Cómo dicen que es gallega? 
Pues dicen mal: es divina. 

Lleva un sombrero torero 
Y una capa carmesí: 
¡Lo mismo que un alelí 
Que se pusiera un sombrero! 

Se ve, de paso, la ceja, 
Ceja de mora traidora: 
Y la mirada, de mora: 
Y como nieve la oreja. 

Preludian, bajan la luz, 
Y sale en bata y mantón, 
La virgen de la Asunción 
Bailando un baile andaluz. 

Alza, retando, la frente; 
Crúzase al hombro la manta: 
En arco el brazo levanta: 
Mueve despacio el pie ardiente. 

Repica con los tacones 
El tablado zalamera, 
Como si la tabla fuera 
Tablado de corazones. 

Y va el convite creciendo 
En las llamas de los ojos, 
Y el manto de flecos rojos 
Se va en el aire meciendo. 

Súbito, de un salto arranca: 
Húrtase, se quiebra, gira: 
Abre en dos la cachemira, 
Ofrece la bata blanca. 

El cuerpo cede y ondea; 
La boca abierta provoca; 
Es una rosa la boca; 
Lentamente taconea. 

Recoge, de un débil giro, 
El manto de flecos rojos: 
Se va, cerrando los ojos, 
Se va, como en un suspiro... 

Baila muy bien la española, 
Es blanco y rojo el mantón: 
¡Vuelve, fosca, a un rincón 
El alma trémula y sola!


sexta-feira, 10 de abril de 2009

CAIXA DE COSTURA

Nunca compreendi
a caixa de costura.
Testemunha muda
de tardes e gerações,
poder feminino
sobre o útil, no fundo
dos carrinhos e dos dedais
devia haver
a esperança.

Pedro Mexia, “Duplo Império”, edição de autor, Lisboa, 1999

BARCO RABELO

Balouço tranquilo em tuas águas
E recordo as viagens de outros tempos
Sem alardes sem pesares sem mágoas
Com saudades sim mas sem lamentos
Para te sulcar muitas vezes fui desfeito
Contra as fragas que estreitavam tuas margens
Muitos cascos meus roçaram no fundo do teu leito
Muita gente ouvi eu rogar-te pragas
Pela triste sina que nos davas
De passar a vida inteira
Na perigosa canseira
De sulcar e de vencer
Rio abaixo rio acima
O teu caudal tenebroso
De águas bravas
Muitos sofreram muitos suaram
Tanto mosto transportado no meu bojo
Para muitos foste caverna e fojo
Quantos estiolaram
Num canto triste de taberna
Tu agora não és rio és estrada
Percorrida por barcos de recreio
Recheados de gente que te olha
Divertida embasbacada
Já sem o receio de outras eras
Os meus tempos foram outros
Terminei a minha faina habitual
Não sei se estou pior se mais feliz
Sou um símbolo do passado nacional
Dei ao mundo a conhecer o meu país
Agora sou um souvenir de Portugal


Que pode uma criatura senão

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ouve estes versos que te dou, eu

Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...

E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...

Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...

E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...

Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Aquela que dormirá comigo todas as luas

Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.

Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego

E virá a mim me olhando de olhos calmos
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta


Por aqui andamos como folhas secas

Por aqui andamos como folhas secas
não sabemos bem se vivos ou se mortos

por aqui andamos
cumprindo o fado que não entendemos
uma vida que não é nossa
como um fato que pomos sobre o corpo nu

por aqui andamos submissos
subindo e descendo a rua
nós ou outros não importa
é como se fôssemos outros
tão longe que estamos de nós
indo para as repartições
vindos das máquinas de escrever
dos papéis dos tornos ou das enxós

por aqui andamos
regressando por vezes
com a consciência do dever cumprido
o dever cumprido
ópio que se inventou para
nos escondermos desta torpe existência

por aqui andamos
ai horas de desespero que são tão lúcidas
em que vemos que o que estamos é atrás do espelho
por aqui andamos como jornais velhos
que virão percorrendo as ruas
e acabam nas sarjetas
ou dão novos jornais
que farão a mesma coisa

por aqui andamos

por aqui andamos
que triste ser poeta ou lá o que se é
sejamos prosaicos ao diabo tudo isto
dá vontade de lançar uma
bomba de s. João
e pensar que se mandou o mundo aos ares
dá vontade de ir descobrir o Brasil
como se não estivesse descoberto há
quatrocentos e tal anos
é certo que há uma esperança
sabe-se que isto não será sempre assim
felizmente que não será sempre assim
felizmente que isto não será sempre assim
mas por aqui andamos
por ora aqui estamos
vestidos de
fantasmas entre fantasmas a fingir de gente…

Antero Abreu (1927) - Nasceu em Luanda e fez os estudos de direito em Lisboa. Enquanto estudante foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império. Foi um activista do associativismo e da cultura tendo-se destacando no Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola – Anangola. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, depois da independência exerceu os cargos de Procurador-geral da República e de embaixador em Itália.


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