terça-feira, 31 de março de 2009

O verbo amar

Te amei: era de longe que te olhava
e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.

Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.

Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...

Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!


Há esta angústia de ser humano

Há esta angústia de ser humano
quando os répteis se entrincheiram no lodaçal
e os vermes se preparam para devorar uma linda criança
em indecorosa orgia de crueldade

e há esta alegria de ser humano
quando a manhã avança suave e forte
sobre a embriaguez sonora do cântico da terra
apavorando vermes e répteis

e entre a angústia e a alegria
um trilho imenso do Níger ao Cabo
onde marimbas e braços tambores e braços vozes e braços

harmonizam o cântico inaugural da nova África.


SILENCIO Y LEJANÍA

Vino, me amó y partió; dejó a su paso
plenitudes, placeres y vacíos;
se perdió como el sol en el ocaso,
como se pierden en el mar los ríos. 

Ha de tener el sol otra alborada,
y aunque el río se va, también se queda;
pero de aquella fiera llamarada,
ni el recuerdo quizá en su mente rueda. 

Mantúvose en silencio y lejanía
como quien duerme en brazos de la muerte;
y yo permanecí esperando el día
en que de nuevo su alma se despierte. 

Y si al abrir sus ojos al pasado
se detienen en mí por un momento,
tal vez vuelva su amor arrebatado
a producir un nuevo ofrecimiento. 

Y aquí estaré, en deseos y temblores,
sin recriminaciones, ni exigencia,
para dar nueva vida a aquellas flores
que a punto estuvo de agostar la ausencia.

Fonte: Blogue: Poemas del Alma

A minha lira mulata

A minha lira mulata
tem acordes tão amantes
que eu julgo serem de prata
as suas cordas vibrantes.

porque fiz d’ela mulher
tem lábios cor de “pitanga”,
da “pitanga” de comer,
com adornos de missanga.

E os seus braços tão nervosos
são dois ramos de palmeira,
que me abraçam, duvidosos,
e me prendem de maneira,

que eu não sei qual é melhor,
se os seus beijos de “muamba”,
se o “jindungo” deste amor…
- amor mulato… pitanga!

Tomaz Vieira da Cruz (1900-1960) - Natural de Constança, no Ribatejo, viveu desde 1924 em Angola. Tem colaboração em vários jornais e revistas, de Angola e Portugal. Em 1950 funda no Sumbe (ex-Novo Redondo) o jornal “Mocidade”. É considerado um dos precursores da literatura angolana.


Uatoála

E tu, que não calculas o tormento
que sofre quem assim te vê fugir,
começas lá de longe então a rir
em quanto preza sou do desalento…

E eu, que dava a vida n’um momento
por só um beijo teu poder fruir,
quizera a tua imagem ver sumir
p’ra sempre no voraz esquecimento…

Mas quando tu me vez desanimado,
o meu olhar sem luz embaciado,
com o peito arquejante e preza a falla;

vens assentar-te logo ao pé de mim,
e um beijo, um beijo teu me dás por fim
dizendo com meiguice: - Uatoála…


segunda-feira, 30 de março de 2009

Entardecer

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa

um barco que passa uma ave que voa
um desejo que fica pelo ar
azul e penetrante como o ar

passa o barco lentamente
passa a tarde passa a vida
e um vulto que ao passar canta baixinho

existe ao um ar tranquilo
sossegado como buda de marfim
quem disse que ali era a cidade!

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa.


Henrique Guerra (1937)

Dei asas ao azedume

Dei asas ao azedume.
Saciei-me, a poder d'ácido!

(Permita Deus que se esfume,
do átrio deste volume,
qualquer perfume a prefácio...)

— ... Dá-me licença que fume,
Senhor Conselheiro Acácio?...
Tem lume, aí? Dá-me lume?...
(Com o seu beneplácito,

Vou pegar fogo ao negrume:
dar-lhe o fascínio d’um fascio
— como o que ardeu em Fiume,
como os que arderam no Lácio!...)

Já, contudo, subo ao cume
do desencanto mais árido.
— Por costume? — Por costume.
— Mau costume... — Questão d'hábito!

Ando a ver se arranjo lume
violento, e violáceo,
para o queimar sem queixume —
Senhor Conselheiro Acácio!

(Trespasso-o a fio de gume,
cravo em si inglório gládio;
à espera que se aprume
e se apronte em seu cenário
— entaipo-o, então, num tapume,
sem direito a epitáfio).

E bem se me dá que espume
de raiva, e esperneie ao máximo —
seu galinácio implume...
Seu palhaço de palácio!

Contra a prosápia que assume,
criei crosta de crustáceo.
Haja o que houver, fico imune:
fico impávido e plácido.

(— Desafio-o a que vislumbre
coração mais coriáceo
do que este meu, que reune
o romântico e o clássico...)

... Dá-me licença que fume,
Senhor Conselheiro Acácio?...
Tem lume, aí? Dá-me lume?...
— Sem o seu beneplácito,

vou pegar fogo ao negrume:
dar-lhe o fascínio d’um fascio
— como o que ardeu em Fiume,
como os que arderam no Lácio!...


A Fala de Nun`Álvares por Silva Tavares

via nonas de nonas em 29/03/09
A FALA DE NUNALVARES


Eu só com meus vassalos e com esta,
— dizendo isto arranca meia espada —
defenderei da força dura e infesta
a Terra nunca d`outrem subjugada.
Lusíadas – Camões.


A Alma de Nunalvares, disperta
para a Hora que passa, — lá do Além
quis falar à minh`alma sempre aberta
em prol da minha Terra e minha Mãe!...

Chegou junto de mim ao sol poente,
e ante a minha ancestral meditação,
surgiu, um símbolo d`honra transcendente,
evocando a nobreza e a tradição!...

E erguendo a fronte altiva, que alumia
inda hoje nas trevas esta Raça,
falou de decadência e nostalgia
numa voz repassada de desgraça...

— E disse: — «Uni-vos todos, Portugueses!...
Libertai da descrença, já funesta,
a Pátria que exaltei, por tantas vezes,
eu só, com meus vassalos e com esta!...

Uni-vos, como irmãos, perante a Hora,
trabalhai, progredi p`la Terra amada...
Ah! não poder ressuscitar agora!...»
E dizendo isto, arranca meia espada.

«Sêde um só corpo, e novos Prometeus
nunca vencidos... Minha glória atesta
que, por meu lado, a Pátria, junto a Deus,
defenderei da força dura e infesta!...

Uni-vos, quando não vereis um dia
p`la dissenção mesquinha e mal pensada,
perder-se, qual se perde a luz do dia,
a Terra nunca d`outrem subjugada!...
...................................................................

E aquela voz de Santo, a soluçar,
sumiu-se como o sol... Mas, de surpresa,
ergueu-se a lua e desfolhou-se em luar,
sagrando toda a Terra Portuguesa!

Silva Tavares
06.10.1922.
In Cruzada Nacional Nun`Álvares, Ano I, Novembro de 1922, pág. 20.

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