terça-feira, 31 de março de 2009

Uatoála

E tu, que não calculas o tormento
que sofre quem assim te vê fugir,
começas lá de longe então a rir
em quanto preza sou do desalento…

E eu, que dava a vida n’um momento
por só um beijo teu poder fruir,
quizera a tua imagem ver sumir
p’ra sempre no voraz esquecimento…

Mas quando tu me vez desanimado,
o meu olhar sem luz embaciado,
com o peito arquejante e preza a falla;

vens assentar-te logo ao pé de mim,
e um beijo, um beijo teu me dás por fim
dizendo com meiguice: - Uatoála…


segunda-feira, 30 de março de 2009

Entardecer

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa

um barco que passa uma ave que voa
um desejo que fica pelo ar
azul e penetrante como o ar

passa o barco lentamente
passa a tarde passa a vida
e um vulto que ao passar canta baixinho

existe ao um ar tranquilo
sossegado como buda de marfim
quem disse que ali era a cidade!

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa.


Henrique Guerra (1937)

Dei asas ao azedume

Dei asas ao azedume.
Saciei-me, a poder d'ácido!

(Permita Deus que se esfume,
do átrio deste volume,
qualquer perfume a prefácio...)

— ... Dá-me licença que fume,
Senhor Conselheiro Acácio?...
Tem lume, aí? Dá-me lume?...
(Com o seu beneplácito,

Vou pegar fogo ao negrume:
dar-lhe o fascínio d’um fascio
— como o que ardeu em Fiume,
como os que arderam no Lácio!...)

Já, contudo, subo ao cume
do desencanto mais árido.
— Por costume? — Por costume.
— Mau costume... — Questão d'hábito!

Ando a ver se arranjo lume
violento, e violáceo,
para o queimar sem queixume —
Senhor Conselheiro Acácio!

(Trespasso-o a fio de gume,
cravo em si inglório gládio;
à espera que se aprume
e se apronte em seu cenário
— entaipo-o, então, num tapume,
sem direito a epitáfio).

E bem se me dá que espume
de raiva, e esperneie ao máximo —
seu galinácio implume...
Seu palhaço de palácio!

Contra a prosápia que assume,
criei crosta de crustáceo.
Haja o que houver, fico imune:
fico impávido e plácido.

(— Desafio-o a que vislumbre
coração mais coriáceo
do que este meu, que reune
o romântico e o clássico...)

... Dá-me licença que fume,
Senhor Conselheiro Acácio?...
Tem lume, aí? Dá-me lume?...
— Sem o seu beneplácito,

vou pegar fogo ao negrume:
dar-lhe o fascínio d’um fascio
— como o que ardeu em Fiume,
como os que arderam no Lácio!...


A Fala de Nun`Álvares por Silva Tavares

via nonas de nonas em 29/03/09
A FALA DE NUNALVARES


Eu só com meus vassalos e com esta,
— dizendo isto arranca meia espada —
defenderei da força dura e infesta
a Terra nunca d`outrem subjugada.
Lusíadas – Camões.


A Alma de Nunalvares, disperta
para a Hora que passa, — lá do Além
quis falar à minh`alma sempre aberta
em prol da minha Terra e minha Mãe!...

Chegou junto de mim ao sol poente,
e ante a minha ancestral meditação,
surgiu, um símbolo d`honra transcendente,
evocando a nobreza e a tradição!...

E erguendo a fronte altiva, que alumia
inda hoje nas trevas esta Raça,
falou de decadência e nostalgia
numa voz repassada de desgraça...

— E disse: — «Uni-vos todos, Portugueses!...
Libertai da descrença, já funesta,
a Pátria que exaltei, por tantas vezes,
eu só, com meus vassalos e com esta!...

Uni-vos, como irmãos, perante a Hora,
trabalhai, progredi p`la Terra amada...
Ah! não poder ressuscitar agora!...»
E dizendo isto, arranca meia espada.

«Sêde um só corpo, e novos Prometeus
nunca vencidos... Minha glória atesta
que, por meu lado, a Pátria, junto a Deus,
defenderei da força dura e infesta!...

Uni-vos, quando não vereis um dia
p`la dissenção mesquinha e mal pensada,
perder-se, qual se perde a luz do dia,
a Terra nunca d`outrem subjugada!...
...................................................................

E aquela voz de Santo, a soluçar,
sumiu-se como o sol... Mas, de surpresa,
ergueu-se a lua e desfolhou-se em luar,
sagrando toda a Terra Portuguesa!

Silva Tavares
06.10.1922.
In Cruzada Nacional Nun`Álvares, Ano I, Novembro de 1922, pág. 20.

sábado, 28 de março de 2009

Eu amei

Eu amei
Eu amei, ai de mim, muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você a razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz

Fonte: Boogue AMORE - post de 27Mar2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

Ai quem me dera, terminasse a espera

Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguem chamar por mim...

Fonte: Blogue AMORE - post de 26Mar2009

O COLONO

Veio trazido nos braços das miragens
de oiro sobre azul,
de oiro qu sol punha nas paisagens
do desertos do Sul...

Troxe- um sonho lindo que ficou
nas botas de suor com que regou
a terra esbraseada.

Arrastou-o a trágica ilusão
que um dia lhe pôs em cada mão
a foice e a enxada.

Veio e ficou...

Foi cavaleiro andante nas anharas
irmãs gémeas das searas
da terra que o gerou.

Pôs em cada semente que lançou
uma oração
e em cada sulco que abriu no chão
foi semeando a esmo
farrapos d'alma, pedaços de si mesmo
como quem se coloca a sí mesmo num caixão

E mesmo assim ficou...

Comeu o pão que o diabo amassou
com lágrimas e fel
e febre, e gritos
contra o calor cruel,
o sol e a sede
e a fome que passou
pelos atalhos malditos
das florestas virgens
e as vertigens
que Leste lhe soprou
na face envelhecida.

E mesmo assim, ficou...

E um dia a terra esquiva abriu-lhe os braços
e do seio ruim,
num milagre de amor,
a virgem possuída
brotou em caule, rebentou em flor
e concebeu em milheirais sem fim.

Ele ficou então p'ra toda a vida...

(Helder Duarte de Almeida - filho de Moçâmedes)
Fonte: Blogue "Gente da Minha Terra" - post de 26Mar2009

quinta-feira, 26 de março de 2009

Traze-me um pouco das sombras serenas

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

Fonte: Blogue AMORE - post de 25Mar2009

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