quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Eltondi la tempon - Cortar o tempo

Kies ideo estis tia eltondi la tempon en pecoj
kiujn oni nomas jaro,
Jen genia ulo, kiu faris.
Industriigis la esperon
je la limo del´ elcxerpo.
Dekdu monatoj por cxiu ajn homo
Lacigxi kaj ellasi siaj farojn.
Ensxovas jen revigla miraklo kaj cxio renovigxas ankorauxfoje
Kun alia numero kaj kredovolo
Kaj ke, el cxipunkto, cxio estu en malsimilo....

Por vi,
Mi deziras realigitan revon
La atenditan amon
La esperon en renovo

Por vi,
Mi deziras cxiujn kolorojn de la vivo
Cxiujn gajojn por ridogxojo
Cxiujn muzikojn por emocia eblo

Por vi, cxi-novjare,
Mi deziras cxiujn amikojn pli komplicaj
Kaj familioj unuigxaj
Kaj ke estu vivo plenvivigxa
Mi sxatas deziri tiom da aferoj
Tamen neniom da ili suficxus...
Do, mi deziras nur ke vi havu dezirojn,
Grandajn dezirojn kaj ke ili povu movigi vin, cxiuminute, je la destino de via felicxo!

*********************
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente...

Para você,
Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.

Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
Desejo que os amigos sejaGostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente...
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a
cada minuto, ao rumo da sua felicidade!m mais cúmplices,
Que sua família esteja mais unida,
Que sua vida seja mais bem vivida.

Carlos Drumond de Andrade - Esperantigxis: Adonis Saliba (2008)
Fonte: Grupo do Yahoo - Esperanto_Lingvo - mensagem de 26Dez2006 de Adonis Saliba

sábado, 27 de dezembro de 2008

Minha Senhora Goa

Não te conheço o rosto. Nunca vi
a tua luz, minha senhora Goa,
mas vejo-te envolvida no sari
da tua dor, que na minha alma ecoa.

Vejo subir, crescer o Mandovi
das lágrimas, do mal que te magoa;
e a tua voz de exausto co9libri,
de rola prisioneira, ouve-a Lisboa,

esta Lisboa que de longe espera
ver-te sorrir à nova Primavera,
já no mundo espalhada em mil sementes

que um dia hão-de florir, pela vontade
desta invencível Pátria da Saudade,
que somos nós, nos cinco continentes.

Fonte: Obras Completas de Fernanda de Castro - Poesia II, pág 244

A Índia foi verdade?

Chegou da Índia o apelo da aventura,
Quando eu tinha dez anos, pouco mais,
mas como separar-me de meus pais,
tão pequena, tão frágil e insegura?

Contudo a velha mágoa ainda perdura.
Sonho com elefantes e arrozais,
com palmares, com chuvas torrenciais
e olhos verdes, de tigre, entre a verdura.

Fiquei, mas o navio foi por mim
para as terras do âmbar, do jasmim,
e eu, ficando, segui sua viagem.

Agora, a tantos anos de distância,
Já não sei se inventei a minha infância,
se a Índia foi verdade ou foi miragem?

Fonte: Obras Completas de Fernanda de Castro - Poesia II, pág 199

Marvão

São de granito as pedras de Marvão,
mas, ainda mais, são páginas de História.
Houve sangue, houve dor mas houve glória
neste castelo há séculos cristão.

Esta glória é de todos, da Nação
que a mereceu e a guarda na memória.
Foi muito caro o preço da vitória,
quantas vezes a fome em vez de pão.

Castelo de Marvão, águia-real,
asas abertas sobre Portugal
pousada no granito da montanha.

Em torno a mata, as silvas, os penedos;
em baixo o rio, a várzea, os arvoredos,
e ao longe a Estremadura, a velha Espanha.

Fonte: Obras Completas de Fernanda de Castro - Poesia II, pág 185

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Dia de Natal

Hoje é o dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua
miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus
nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso
antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de
cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado
comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

Fonte: Blogue: Caminhos da Memória - post de 23Dez2008

Natal

Prantam promoções à pressa
Com preços baixos de truz
E o povo de peça em peça
Dissipa o que não produz
Gente sem olho e cabeça
Como n'Un perro andaluz
Este Natal não interessa
Nem ao Menino Jesus.

Promessa atrás de promessa
Dando ares de quem seduz
Estas figuras do Eça
Só a tiro de arcabuz
E servidas na travessa
Como n'Un perro andaluz
Este Natal já não presta,
Ó meu Menino Jesus!

Isto é fugir e depressa
Destas trevas para a Luz
Onde haja a menção expressa
Ao velho sinal da Cruz
Aguardo um gesto surpresa,
Senhor, dos teus braços nus
Este Natal não interessa
Nem ao Menino Jesus.

Ainda tenho na cabeça
Os serões à meia-luz
Com anjos de guarda à mesa
E o piano onde compus
Um sonho que se arremessa
Como n'Un perro andaluz
O Natal já não interessa
Nem ao Menino Jesus.

Fonte: Blogue "Nova Frente" - post de 23Dez2008

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal

Quando chegava o Natal,
E essa usança continua,
Era já tradicional
Imolar-se uma perua.

Nesse dias, às avessas
Da negrança dos avós,
Atulhavam-se as travessas
De folares e filhós

Fonte: Obras completas de Fernanda de Castro - Poesia I

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