domingo, 2 de novembro de 2008

Fado Peniche

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar.

Levaram-te, a meio da noite:
A treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
E nunca mais se fez dia.

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar.
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar.
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar

Cantado por Amália Rodrigues

Fonte: Blogue Caminhos da Memória - post de 02Nov2008

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Contratados

Ah! Caravanas que passais
De homens cansados,
Esfaimados,
Cantando vergados
Ao peso da saudade,
Bandeira branca a tremular ao vento...
Caravanas de homens de pés descalços
Sangrando por tortuosos caminhos...
Como eu vos amo a todos, todos!
Oh mulheres de ancar largas, bamboleantes,
Com filhos ranhosos e famintos
Que vindes em algazarra acenardes adeus,
E gritais, gritais, palavras, impropérios,
Cobrindo o choro dos que partem...
Oh mães velhinhas, doloridas,
Que chorais por não poderdes partir
A dizerdes adeus,
Um adeus distante
A quem não esperais tornar a ver...
Ah! As caravanas, as caravanas!
Caravanas de homens esperançosos
De corpos quebrados
Que vêm de longe e se perdem à distância...

E só o mundo irado,
A fome, o cansaço.
E lá longe, a casa, as terras, as noites luarentas,
O brilho ardente das fogueiras...
E vão nas caravanas, coração pulsando,
E a esperança, sempre a esperança,
Num sonho de riqueza.
E voltam de novo, famintos,
Das terras do fim do mundo.
Voltam à terra onde andaram em pequeninos,
Com o choro dos filhos nus
Esfaimados, a pedir pão.
Deixem, homens, deixem que o tempo
Marque o trilho das caravanas em que ides partir.
Dia a dia, hora a hora,
Ele se rasgará mais brilhante,
Sem que o bafo dum vento quente
Murche as flores da tua esperança.
Partireis, triunfantes,
À demanda, à conquista,
Des terras dum novo mundo.

A Sombra de um Salgueiro

Fugi das chaminés.
do fumo, que era um denso nevoeiro.
e procurei, na beira dum regato.
a sombra de um salgueiro.

O silêncio, era música do céu;
o ar parado, absorto,
mas na água tranquila
vogava um peixe morto.

Fernanda de Castro, «Urgente» (1989)
Fonte: Blogue Fernanda de Castro

A don Miguel de Unamuno

Este donquijotesco
don Miguel de Unamuno, fuerte vasco,
lleva el arnés grotesco
y el irrisorio casco
del buen manchego. Don Miguel camina,
jinete de quimérica montura,
metiendo espuela de oro a su locura,
sin miedo de la lengua que malsina.

A un pueblo de arrieros,
lechuzos y tahúres y logreros
dicta lecciones de Caballería.
Y el alma desalmada de su raza,
que bajo el golpe de su férrea maza
aún durme, puede que despierte un día.

Quiere enseñar el ceño de la duda,
antes de que cabalgue, el caballero;
cual nuevo Hamlet, a mirar desnuda
cerca del corazón la hoja de acero.

Tiene el aliento de una estirpe fuerte
que soñó más allá de sus hogares,
y que el oro buscó tras de los mares.
Él señala la gloria tras la muerte.
Quiere ser fundador, y dice: Creo;
Dios y adelante el ánima española...
Y es tan bueno y mejor que fue Loyola:
sabe a Jesús y escupe al fariseo.

Fonte: Poemas del Alma

domingo, 26 de outubro de 2008

Mensagem

«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!»

Fonte: Blogue: "Dragoscópio" - post de 05Out2008

domingo, 19 de outubro de 2008

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

2-8-1933

Fonte: Blogue: Lupango da Jinha - post de 24Set2008

Certeza

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...

Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...

Blogue Lupango da Jinha - post de 22Set2008

sábado, 18 de outubro de 2008

Buganvílias Entrelaçadas

Tenho amigos
que viajam comigo no tempo
e são uma parte de mim,
às vezes lêem o livro que leio,
cantam a música que ouço,
estão no silêncio que trago
- um silêncio em que os sinto,
gémeos neste sonho comum
de “crescermos” para este mundo,
que começa em cada um de nós…

Às vezes
transformam-se em aves
que vêm pousar a meu lado,
para eu brincar com o tempo
e fazer das distâncias um nada
e da saudade
um espaço com flores…

Depois, fica-me a sensação
de nunca estar só
neste silêncio do tempo,
que preencho com o “perfume” da vida
que existe em cada um
e com a “música” que me enche
da certeza de ESTARMOS VIVOS
Para além das palavras…

Arminda Branca M.V. Pinto - 12-04-2008
Fonte: Blogue: Brancamar - post de 20Set2008

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