«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer,
ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!»
Fonte: Blogue: "Dragoscópio" - post de 05Out2008
domingo, 26 de outubro de 2008
Mensagem
domingo, 19 de outubro de 2008
Sossega, coração! Não desesperes!
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
2-8-1933
Fonte: Blogue: Lupango da Jinha - post de 24Set2008
Certeza
De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...
Blogue Lupango da Jinha - post de 22Set2008
sábado, 18 de outubro de 2008
Buganvílias Entrelaçadas
Tenho amigos
que viajam comigo no tempo
e são uma parte de mim,
às vezes lêem o livro que leio,
cantam a música que ouço,
estão no silêncio que trago
- um silêncio em que os sinto,
gémeos neste sonho comum
de “crescermos” para este mundo,
que começa em cada um de nós…
Às vezes
transformam-se em aves
que vêm pousar a meu lado,
para eu brincar com o tempo
e fazer das distâncias um nada
e da saudade
um espaço com flores…
Depois, fica-me a sensação
de nunca estar só
neste silêncio do tempo,
que preencho com o “perfume” da vida
que existe em cada um
e com a “música” que me enche
da certeza de ESTARMOS VIVOS
Para além das palavras…
Arminda Branca M.V. Pinto - 12-04-2008
Fonte: Blogue: Brancamar - post de 20Set2008
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Claudicante
Trémulo, claudicante,
no seu fraque de bom corte,
de olho lacrimejante,
lamentando a sua sorte,
seguia o infeliz noivo
cumprindo o sacrifício
de receber na igreja,
avantajada maquia
- servida numa bandeja –
que a velha noiva trazia.
Lá ía a filosofar:
“vou juntar aos meus trint’anos
os setenta e cinco dela.
que pouco pode durar.
E a vida há-de ser bela
com dinheiro pr’a gastar,
com todo o Mundo pr’a ver
e miúdas pr’a conquistar”.
E assim chegou à Igreja.
Postou-se junto ao altar
debaixo d'olhares d'inveja
de muitos dos circunstantes
esperando que a noiva chegasse
dentro de poucos instantes.
Esperou, esperou e desesperou
vendo os minutos passar
e da noiva nem a sombra.
Eis que da porta de entrada
vem um certo burburinho,
e a figura desesperada
de um solitário padrinho,
pois que não trazia a noiva.
O pobre vinha sozinho
trazendo a triste notícia:
“A velha noiva pisgou-se
com um moço de vinte anos”.
Por algum tempo pensou-se
que seriam grandes os danos.
com o “copo de água” pago,
com a cerveja a aquecer,
os rissóis a arrefecer,
os doces a derreter,
e os convivas esfomeados
com os dentes a ranger.
Foi então que o noivo deu
prova de sabedoria.
Erguendo os braços ao Céu,
diz: "obrigado Senhor
pela lição que me deste
não me deixando vender".
Deitou o fraque pr'o chão,
e, aliviado o coração,
abandonou a igreja
e seguido p'la comitiva.
lançou~se sobre a cerveja,
os doces e os rissóis
e comeram sem parança
os pratos de caracóis.
De todos,o mais contente
era o eis infeliz noivo
que, pobre mas conformado
fez honras ao beberete.
É, como diz o ditado:
"Pobrete, mas alegrete!"
Fonte: Blogue "Roxa Zenaider" - Post de 06Out2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
TEMPO PERDIDO
Sinto raiva só de pensar
Em todo esse tempo perdido,
Nesse oco, esquivo tempo,
Nesse tempo não vivido
Porque o tempo eras tu.
Tempo que nada levou
Porque nele nada valia.
Eras tu a noite e o dia
E como eras tempo te foste
Deixando só amargura.
E porque o tempo tem pó
E é vago tempo sòmente
Não me doi o ficar só.
Tenho raiva unicamente
De ter perdido esse tempo.
Fonte: Blogue "A Minha Sanzala" -post de 05Out2008
Herdei uns olhos claros, sem pecado
Herdei uns olhos claros, sem pecado,toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração.
Fonte: Blogue: Fernanda de Castro
Primeira Hora
"Lisboa, Cais das Colunas (1940-50)", foto de João MartinsO ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol,
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha cansada melodia
de velho rouxinol.
Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas,
e deitou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.
Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
- E eu? - pensei - Que posso deitar fora?
Que poderemos todos deitar fora?
Ai, Senhor, tanta coisa!
Nem cacos, nem farrapos,
nem latas velhas nem trapos
mas tanta dor,
Senhor,
mal empregada!
Tantos gestos errados,
as pequenas traições,
os pequenos pecados.
As calúnias subtis,
as flores venenosas
da alma envenenada,
e a cicatriz
da culpa inconfessada,
e as palavras que ferem como gumes
de afiadas adagas.
Ressentimentos, azedumes
que Te fazem sangrar as Cinco Chagas.
As larvas dos ciúmes
e as cobras rastejantes
dos pensamentos impuros.
Egoísmos sem fim
e os altos muros
das torres de marfim.
Descrença,
indiferença,
despeitos recalcados,
amassados com ódio, com rancor,
e o amargo sabor
da solidão.
Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos deitar fora!
Fernanda de Castro, In "70 anos de Poesia",
Fund. Eng. António de Almeida, 1989, p. 311/2.


