
Heródoto contava a história,
mas nós contamos memória
entre os pontos e os is
daquilo que Deus nos quis.
É o que vale. Senão
amortecia no chão
o diadema do dia
(o que bem apetecia).
Por isso nos ocupamos
em tiritar pelos anos
o frio que vem das horas
no degelo das demoras.
Oh, que tragada perdida
esta de nós pela vida,
mesmo apesar de polícias
e Diário de Notícias.
Senhorio, mas de partes,
artistas, de malas-artes
e capados; nossa sina
parou no Alto de Pina.
Isto é que se nos dá,
e andamos ao deus-dará
por muito que não queiramos.
Isto é: agradeçamos
E metamos por aí,
por entre o ponto e o i.
Nota: Este poema foi escrito e publicado em 1962, e dedicado a António Alçada Baptista.
Pedro Tamen, Poemas a isto, Moraes ed., Lisboa, 1962, p.189.
Fonte: Blogue "Caminhos da memória" - post de 30Jun2008
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Ao Tempo
sexta-feira, 27 de junho de 2008
VEJECES
sin voz y sin color, saben secretos
de las épocas muertas, de las vidas
que ya nadie conserva en la memoria,
y a veces a los hombres, cuando inquietos
las miran y las palpan, con extrañas
voces de agonizante dicen, paso,
casi al oído, alguna rara historia
que tiene oscuridad de telarañas,
són de laúd, y suavidad de raso.
¡Colores de anticuada miniatura,
hoy, de algún mueble en el cajón, dormida;
cincelado puñal; carta borrosa,
tabla en que se deshace la pintura
por el tiempo y el polvo ennegrecida;
histórico blasón, donde se pierde
la divisa latina, presuntuosa,
medio borrada por el liquen verde;
misales de las viejas sacristías;
de otros siglos fantásticos espejos
que en el azogue de las lunas frías
guardáis de lo pasado los reflejos;
arca, en un tiempo de ducados llena,
crucifijo que tanto moribundo,
humedeció con lágrimas de pena
y besó con amor grave y profundo;
negro sillón de Córdoba; alacena
que guardaba un tesoro peregrino
y donde anida la polilla sola;
sortija que adornaste el dedo fino
de algún hidalgo de espadín y gola;
mayúsculas del viejo pergamino;
batista tenue que a vainilla hueles;
seda que te deshaces en la trama
confusa de los ricos brocateles;
arpa olvidada que al sonar, te quejas;
barrotes que formáis un monograma
incomprensible en las antiguas rejas,
el vulgo os huye, el soñador os ama
y en vuestra muda sociedad reclama
las confidencias de las cosas viejas!
El pasado perfuma los ensueños
con esencias fantásticas y añejas
y nos lleva a lugares halagüeños
en épocas distantes y mejores,
por eso a los poetas soñadores,
les son dulces, gratísimas y caras,
las crónicas, historias y consejas,
las formas, los estilos, los colores
las sugestiones místicas y raras
y los perfumes de las cosas viejas!
Fonte: Blogue Poemas del Alma - post de em 27/06/08
Quadras de Eduardo Manuel Simas
É escrito com sangue e dor
Aquilo que vou falar
E com o maior fervor
Agora vou começar.
Com licença, meus senhores,
Minha história eu vou contar,
Quando eu saí dos Açores
Para ir pr’ó Ultramar.
Quando à Terceira cheguei
E segui para o quartel,
Logo em mim recordei
A ilha de São Miguel.
Sentia uma coisa estranha
Sem saber compreender,
Coisa esquisita e tamanha,
Difícil de entender.
O tempo se foi passando,
Dias bem, dias mal,
E fomos continuando,
Soldados de Portugal.
Passados dois meses,
Lá fomos jurar bandeira.
Sofremos, mas às vezes
Parecia uma brincadeira.
Quando um dia na parada,
À noite, a silêncio tocou,
Veio a notícia desamparada
Que o comandante contou.
Com umas folhas na mão,
Más notícias veio dar
O nosso capitão:
- Vão para o Ultramar.
Dez dias mais
E fui a São Miguel,
Despedir-me de meus pais,
Eu, Eduardo Manuel.
Ó meu Deus, eu vou partir
Sem saber se isto é justo,
Qual o dia em que hei-de vir,
Vou viver com tanto custo.
Quanto à nossa viagem
Melhor não podia ser,
Com espanto e coragem
Vendo o que tinha que ver.
Corrido cerca de um mês
Partimos para o mato,
Lá fomos para o Cantanhez
Onde não parava um rato.
Na LDG embarquei
E belezas eu não vi,
Aquilo em que eu pensei
Foi na terra onde nasci.
Os dias se vão passando
Dão vontade de chorar,
As horas vou recordando
Passo a vida a disfarçar.
Na primeira operação
Que nós fomos fazer,
Deu-me um baque o coração,
O que veio a acontecer.
Quando os homens voltaram,
Três grupos da operação,
Logo as minas rebentaram,
Meu Deus, grande traição.
Passou palavra o primeiro,
Diz-me lá o que é que queres,
Vai chamar o enfermeiro
Pr’a vir tratar os alferes.
Ó meu Deus, o que seria,
Quem serão os desgraçados?
Foram para a enfermaria
Três alferes estilhaçados.
Lá ficaram mutilados
Os infelizes sem sorte,
Turras serão apanhados
E todos irão à morte.
Que tristeza e amargura
Tanta vez aconteceu,
Morrer uma criatura
P’las mão de um irmão seu.
Meus versos não levam cunho
Do que eu amo ou adoro,
Eles são o testemunho
Do que canto, do que choro.
Assim se passa esta vida,
Horas tristes a chorar,
Se a dor fosse esquecida
Eu poderia cantar.
Sofrer vinte e quatro meses,
Um soldado nada tem,
Agonias, tantas vezes,
Só Deus sabe, mais ninguém.
Eu sei que estes versos são
Uma coisa escrita ao leve,
São pobres, sem perfeição,
Como a pena que os escreve.
Estive quase a dar um tiro,
Primeiro dia de Agosto,
Ó que noite de martírio,
Passei a noite no posto.
Meus olhos no firmamento
Horas e horas, ou mais,
Vieram-me ao pensamento
Os meus queridos pais.
No dia 9 de Agosto
Fomos pró mato arreados,
Vamos voltar com o gosto
De não sermos apanhados.
À saída do quartel
Eu pensei na minha cama
E pensando em São Miguel
Caí enterrado em lama.
Que será preciso mais,
Estamos aqui como uns parvos,
Tiram-se os filhos aos pais
E fazem deles escravos.
Quando a manhã nasceu,
Cercámos o inimigo,
Foi a Fé que me valeu
Porque Deus vinha comigo.
Lá por fora o dia inteiro,
Sem qualquer resultado,
Perdidos num cativeiro
Entre capim alteado.
Ao quartel quando chegámos
Sem forças e cheios de fome,
Quase não falámos,
Fogo dentro nos consome.
Querem homens para a guerra,
A padecer fel e dores,
Queremos sair desta terra,
Queremos ir para os Açores.
Dia 7 de Setembro
Saímos ao anoitecer,
Eu não quero que me lembre
Tantos homens a sofrer.
Era tanta a nossa mágoa
E com tantos embaraços
Apanhámos forte água
Que pareciam estilhaços.
A 23 de Dezembro,
Ó mãezinha muito querida,
Eu nem quero que me lembro
Parecia o fim da vida.
À noite dois pelotões
Saíram todos armados
E com nove foguetões
Lá fomos nós atacados.
O fogo acabou
Sem nos causar mal,
Nossa Senhora salvou
Os soldados de Portugal.
Isto foi acontecido,
Queiram todos acreditar,
Quanto se tem sofrido
Nesta vida militar.
Que vida tão rigorosa
Que até nos faz pasmar,
Que vida tão perigosa,
Soldados do Ultramar.
Assim fui tendo Fé,
Pedindo a Deus que me ajude
Pr’a que ao sair da Guiné
Leve a vida e a saúde.
Nota: Eduardo Manuel Simas, um poeta popular açoriano
"Cufar, 3 de Novembro de 1974
Entre os soldados açorianos meus vizinhos, o Eduardo Manuel Simas é poeta. Descobrimos afinidades e o rapaz veio mostrar-me uns versos da sua autoria, bem melhores do que os meus. Como acha que eu sou mais entendido nas coisas da arte poética, pediu-me que lhe corrigisse os erros do português e melhorasse as quadras. "
Luís Graça
Fonte: Blogue "Luís Graça e Camaradas da Guiné" - post de 26Jun2008
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Se penso mais que um momento
Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.
Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,
Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.
Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lambra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.
Fonte: Blogue: "Nova Águia" - post de 22Jun2008
domingo, 22 de junho de 2008
Somos um país pequeno e pobre e que não tem
Somos um país pequeno e pobre e que não tem
senão o mar
muito passado e muita História e cada vez menos
memória
país que já não sabe quem é quem
país de tantos tão pequenos
país a passar
para o outro lado de si mesmo e para a margem
onde já não quer chegar.
País de muito mar
e pouca viagem.
sábado, 21 de junho de 2008
QUE TEM GOA, QUE MAGOA
Que tem Goa, que magoa
meu coração português?...
(– Índia sonhada em Lisboa,
diz-me segredos de Goa,
diz-mos baixinho de vez...)
Que tem Goa, que destoa
do mundo que à volta sei?...
(– Índia das noites à toa,
canta-me a voz do Pessoa,
conta-me a volta do Rei...)
Que tem Goa, qu'inda ecoa
nas águas mortas do mar?
(– Índia, vem... moro em Lisboa...
deixei meus barcos em Goa,
preciso de navegar...)
Casimiro Ceivães (1912-1931)
Fonte: Blogue "Nova Águia" - post de 20Jun2008
MARINHEIRO DO MAR MORTO
– Marinheiro do mar morto,
porque andas a navegar?
– Nasci num barco sem porto,
quero só morrer no mar.
– Marinheiro do mar alto,
fazes-me falta no mar...
– Já não sou eu que te falto,
falta-te só embarcar.
– Marinheiro do mar fundo,
ensina-me a ser assim...
– Quando a morte for teu mundo
é que hás-de chegar a mim.
Casimiro Ceivães (1912-1931)
Fonte: Blogue "Nova Águia" - post de 20Jun2008
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Os Lusíadas - última estrofe
No mar, tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercebida;
Na Terra tanta guerra, tanto engano,
tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho-da-terra tão pequeno?



