sábado, 21 de junho de 2008

QUE TEM GOA, QUE MAGOA

Que tem Goa, que magoa
meu coração português?...
(– Índia sonhada em Lisboa,
diz-me segredos de Goa,
diz-mos baixinho de vez...)

Que tem Goa, que destoa
do mundo que à volta sei?...
(– Índia das noites à toa,
canta-me a voz do Pessoa,
conta-me a volta do Rei...)

Que tem Goa, qu'inda ecoa
nas águas mortas do mar?
(– Índia, vem... moro em Lisboa...
deixei meus barcos em Goa,
preciso de navegar...)

Casimiro Ceivães (1912-1931)
Fonte: Blogue "Nova Águia" - post de 20Jun2008

MARINHEIRO DO MAR MORTO

– Marinheiro do mar morto,
porque andas a navegar?
– Nasci num barco sem porto,
quero só morrer no mar.

– Marinheiro do mar alto,
fazes-me falta no mar...
– Já não sou eu que te falto,
falta-te só embarcar.

– Marinheiro do mar fundo,
ensina-me a ser assim...
– Quando a morte for teu mundo
é que hás-de chegar a mim.

Casimiro Ceivães (1912-1931)
Fonte: Blogue "Nova Águia" - post de 20Jun2008

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Os Lusíadas - última estrofe

Stefan Sweig e a sua segunda esposa suicidam-se a 22Few1942 em Petrópolis

No mar, tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercebida;
Na Terra tanta guerra, tanto engano,
tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho-da-terra tão pequeno?

Nota: os quatro últimos versos - em caligrafia gótica e emoldurados – estavam pendurados na parede do quarto de dormir de Stefan Zweig na sua casa de Petrópolis).
Rui Moio

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Angola

Não nasci do teu ventre
mas amei-te em cada Primavera
Com a exuberância de semente...

Não nasci do teu ventre
mas foi em ti que sepultei
as minhas saudades
e sofri as tempestades
de flor transplantada
prematuramente...

Não nasci do teu ventre
mas bebi o teu sortilégio
em noites de poesia
transparente...

Não nasci do teu ventre
mas foi á tua sombra
que fecundei rebentos novos
e abri os braços
para um destino transcendente...

Angola,
não serás a terra do meu berço
mas és a terra do meu ventre!

Fonte: Blogue "O Lupango da Jinha" - post de 09Mai2008

sábado, 14 de junho de 2008

Avenida Conde de Valbom

Pedras lavadas
Carros arrumados
Árvores verdes, crescidas
Pássaros, sombras, asseio
Ordem e vagares
Toldos, esplanadas
Pessoas calmas, asseadas
Melodias sem ruído
Prédios altos, arcadas
Canteiros
Cheiros a água fresca
Um cantar de passarinhos
Um miar, um latido
Um convite à soneca
Uma vontade de criar
É raro e é bonito
E nós não estamos habituados.

Rui Moio, 12 de Junho de 2008. Poema concebido e redigido cerca das 15h30 no café "A Presidente" na Avenida Conde Valbom diante da Galeria Valbom onde se expunham quadros de Malangatana.

Lagoa de Cápua

No silêncio do sertão
No seguro da mutala
Sobre a mulemba mais alta
Escuto a solidão

Não passam carros na picada
Oiço as melodias
Os muitos roncos do leão
As passadas do nunce, do songue,
da Gunga, da cobra e do camaleão
Com binóculos vasculho
A Lagoa de Cápua
Onde nas margens se espraiam
Horrendos dinossauros
Na preguiça e na espera
Dum doente, dum fraco, dum velho...

No alto da mutala
Só há mato e eu
Observo e escuto
O silêncio tenebroso do sertão
Aqui não sou doente, nem fraco, nem velho

A coberto do mato
Protejo-me dos males do sertão
Estou bem
Não estou a mais
Na Lagoa de Cápua

Naqueles dias
E naquelas noites
No alto da mutala
Fui quase Deus.

Rui Moio, 06Jan2008

Os últimos soldados negros de Portugal

Apinhados
Em Berliets do Tramagal
Seguiam como contratados
Os últimos soldados negros de Portugal

Nas terras, em segurança
Á sombra da bandeira de todos
Ficavam as mulheres e as crianças

De camuflado
Granadas à cintura
G3 na mão
Seguiam humildes e contentes
Os últimos soldados negros da Nação

e regressavam, em glória
Humildes como sempre
mas cheios de vitória

e todos não sabiam
e nós todos não sabíamos
Que no puto
Se preparava a traição

Foram enganados
Os últimos soldados negros da Nação

Muitos juncaram os chãos das batalhas
Outros, varridos pelo vendaval da revolução
Foram esquecidos e abandonados
Nos campos de reeducação

Das bases do Rundum
Quase sós mas sempre altaneiros
Continuaram o combate
Com outras armas na mão
A servirem e a morrerem
Pela mesma e ingrata nação.

Rui Moio - 12Set06

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Teus olhos entristecem

Teus olhos entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem…
Nao me ouves, e prossigo.

Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez…
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que es.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.

Começas um sorriso.

Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estas a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inutil.

Fernando Pessoa - Cancioneiro

Fonte: Blogue "31 da Armada" - post de 13Jun2008

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